Guimarães recebeu a Volta a Portugal em silêncio
Guimarães preparava-se para viver uma verdadeira festa do ciclismo. O regresso da Volta a Portugal ao concelho, e em particular à Montanha da Penha, tinha sido pensado ao detalhe pelo Município, que esperava milhares de pessoas nas ruas e no alto da montanha para acompanhar a passagem dos corredores. Mas a tragédia que vitimou Finlay Tarling, ciclista britânico de apenas 19 anos, transformou por completo o significado da oitava etapa.

@ Mais Guimarães
A etapa entre Melgaço e Fafe, que atravessava uma parte significativa do território vimaranense, estava inicialmente desenhada como um dos grandes momentos desportivos do verão em Guimarães. O pelotão entraria no concelho pela EN101, em Balazar, seguindo por Sande São Martinho, Caldas das Taipas, Ponte e Fermentões, antes de atravessar o centro da cidade. A Alameda Dr. Alfredo Pimenta, o Largo do Toural, o Largo República do Brasil e a Rua Dr. José Sampaio faziam parte do percurso, antes da subida à Montanha da Penha pela freguesia da Costa.
A passagem pelo centro estava prevista para cerca das 16h57 e a chegada ao alto da Penha para as 17h08, onde seria disputado o Prémio de Montanha “Guimarães 26 | Capital Verde Europeia”.
Uma festa preparada para a Penha
A Câmara Municipal tinha preparado um programa especial para acompanhar a passagem da prova. A intenção era transformar a Penha num grande ponto de encontro dos vimaranenses e visitantes, aproveitando também a transmissão televisiva em direto pela RTP para projetar a imagem do concelho a nível nacional.
Entre as iniciativas previstas estavam transportes gratuitos entre o centro da cidade e a Penha, um programa especial no teleférico e animação ao longo do dia. Estava ainda prevista a dinamização do projeto “Ciclismo vai à Escola”, procurando aproximar crianças e jovens da modalidade e associar o evento à mobilidade sustentável e aos hábitos de vida saudável. A expectativa era grande e o Município tinha apelado à população para subir à Penha e viver aquele que pretendia ser um momento de celebração coletiva. Poucos dias antes, na inauguração da exposição “A Volta passa por Guimarães”, no GuimarãeShopping, o vereador do Desporto, Alberto Martins, tinha deixado clara essa ambição. “Estamos a preparar um programa para todo o dia. Haverá transportes gratuitos entre o centro da cidade e a Penha, um programa especial no teleférico e animação ao longo do dia para complementar o grande espetáculo que é a Volta a Portugal.” O autarca apelava então à presença dos vimaranenses e de quem visitasse o concelho: “Queremos que todos os vimaranenses, e também quem nos visita, subam à Penha no dia 14 para viver este momento”. Também o antigo ciclista profissional vimaranense Tiago Machado antecipava uma grande resposta popular. “Gostava muito de ver a montanha cheia de pessoas e tenho a certeza de que isso vai acontecer. O povo do Minho responde sempre muito bem a estes grandes acontecimentos”, afirmou.
A tragédia que mudou tudo
Mas a festa acabou por dar lugar ao silêncio.
Durante a oitava etapa, ainda antes de o pelotão chegar a Guimarães, ocorreu em Arcozelo, no concelho de Ponte de Lima, o acidente que vitimou Finlay Tarling, corredor de 19 anos da NSN Development Team. Segundo as informações divulgadas pelas autoridades, o jovem ciclista embateu numa viatura ligeira de mercadorias que circulava em sentido contrário ao da prova. O acidente aconteceu numa zona de visibilidade reduzida e as circunstâncias que permitiram a entrada do veículo no percurso estão sob investigação. A confirmação da morte do corredor levou à neutralização da prova até Fafe. Os últimos quilómetros foram percorridos num ambiente completamente diferente daquele que se esperava para uma etapa de verão da Volta a Portugal.
Em Guimarães, os corredores foram recebidos com aplausos. Mas já não eram os aplausos de uma festa. Eram aplausos de respeito e solidariedade, num momento em que a notícia da morte do jovem atleta já tinha marcado profundamente todos os que acompanhavam a prova.
Ricardo Araújo: “Quando alguém parte, tudo deixa de fazer sentido”
O presidente da Câmara Municipal de Guimarães, Ricardo Araújo, reconheceu que a tragédia retirou qualquer sentido à celebração que tinha sido preparada.
“Não foi a festa que queríamos porque, na verdade, o que há a lamentar é naturalmente a morte de um ciclista nesta etapa e isso acaba por manchar tudo aquilo que nós pretendíamos para este dia.” O autarca destacou o esforço desenvolvido pelo Município para trazer novamente a Volta a Portugal a Guimarães, num ano particularmente simbólico, marcado pelo título de Capital Verde Europeia. “Guimarães e os vimaranenses gostam do ciclismo. Fizemos um esforço para ter a Volta a Portugal a passar em Guimarães e a passar aqui particularmente na Montanha da Penha.”
Mas perante a morte de um jovem de 19 anos, tudo passou para segundo plano. “Quando alguém parte, como aconteceu com um dos protagonistas deste desporto, tudo deixa de fazer sentido”, afirmou Ricardo Araújo. Em nome do Município e dos vimaranenses, o presidente da Câmara deixou ainda uma palavra de condolências à família de Finlay Tarling, à sua equipa, aos ciclistas e a toda a comunidade velocipédica.
Guimarães quer voltar a receber a Volta
Apesar das circunstâncias dolorosas que marcaram o regresso da prova, o Município não pretende desistir da ligação à Volta a Portugal. Ricardo Araújo confirmou que Guimarães quer voltar a receber a competição em 2027.
“É essa a nossa intenção. Vamos trabalhar aqui com o vereador do Desporto, Alberto Martins, no sentido de tentarmos que no próximo ano a etapa da Volta a Portugal volte a passar em Guimarães.” O objetivo é que, numa próxima oportunidade, a Penha e as ruas da cidade possam finalmente viver a festa que tinha sido preparada para este ano. “Espero que seja um dia de alegria e onde os vimaranenses, que tanto gostam desta modalidade do ciclismo, possam fazer uma festa”, afirmou. A aposta no ciclismo deverá, por isso, manter-se. Para o presidente da Câmara, Guimarães é um território com tradição e ligação à modalidade, onde continuam a surgir atletas e onde está instalada a Associação de Ciclismo do Minho. “É uma modalidade que merece o carinho da parte da Câmara Municipal, porque, acima de tudo, ela tem o carinho do povo.”
O regresso da Volta a Portugal acabou, assim, por deixar em Guimarães uma imagem bem diferente daquela que o Município tinha preparado. Havia festa, animação e milhares de pessoas à espera dos corredores. Houve aplausos, mas também pesar. A Penha estava preparada para celebrar o ciclismo. A tragédia obrigou Guimarães a recebê-lo em silêncio.
E, perante a perda de Finlay Tarling, ficou a certeza de que, naquele dia, a classificação, a competição e a festa deixaram de ser o mais importante.





