Geração confinada; desenvolvimento atrasado

Desde março de 2020 que a vida das pessoas de todo o mundo sofreu alterações significativas. Pessoas de todos os géneros, culturas e idades. Nesta reportagem, publicada na edição de fevereiro da revista +G abordámos o impacto que a pandemia covid-19 continua a ter no desporto e a forma como afeta o desenvolvimento físico e mental da geração mais jovem.

© João Bastos

As restrições de movimento e a impossibilidade de praticar desporto em contexto competitivo geram complicações no desenvolvimento de toda uma geração.

Para Silvano Freitas, licenciado em Educação Física e coordenador do Departamento de Formação do Ases de Santa Eufémia, existem motivos para “estarmos preocupados”.




“Alguns estudos sugerem que durante longos períodos sem prática desportiva, as crianças são mais suscetíveis a apresentarem comportamentos prejudiciais para a sua saúde e desenvolvimento, tais como comportamentos excessivamente sedentários”, começa por referir Silvano, lembrando que, surgem naturalmente problemas adjacentes, tais como o aumento da taxa de obesidade, maior predisposição para lesões provocadas pela falta de treino, assim como perda/não desenvolvimento de capacidades coordenativas e condicionais que devem ser trabalhadas nas diferentes faixas etárias e a estagnação do desenvolvimento de habilidades motoras, muitas delas especificas de cada modalidade praticada.

“Seguramente que pais com hábitos mais saudáveis e fisicamente mais ativos irão criar filhos fisicamente mais ativos também”

Silvano freitas, licenciado em educação física

O impacto destas medidas que restringem o treino, explica Silvano Freitas, terão impacto nos índices físicos e na aptidão física: “Iremos ter preocupações acrescidas com a diminuição da resistência cardiorrespiratória, força muscular, resistência muscular, flexibilidade e a composição da massa corporal dos atletas, todas elas provenientes do processo de destreino. Ao nível da aptidão física relacionada com a performance componentes como a velocidade, potência muscular, agilidade, equilíbrio, coordenação e tempo de reação também sofrerão decréscimos na generalidade dos atletas”.

Estar em casa não pode ser sinónimo de estar parado. Para Silvano Freitas, é fundamental que os pais procurem “suprimir estas lacunas” e ajudar ao “desenvolvimento mais harmonioso” dos seus filhos, procurando que estes sejam mais ativos em contexto familiar.

“Seguramente que pais com hábitos mais saudáveis e fisicamente mais ativos irão criar filhos fisicamente mais ativos também”, conclui.

© Direitos Reservados

Atividade combate sintomas depressivos

Existem estudos que mostram que os sentimentos depressivos têm vindo a aumentar entre os adolescentes e jovens adultos. Por exemplo, numa investigação recente realizada em países asiáticos após o início da pandemia, verificou-se que 16 a 28 por cento das pessoas apresentavam sintomas de ansiedade e depressão.

Para Rui Gomes, doutorado em Psicologia do Desporto e professor na Escola de Psicologia da Universidade do Minho, a questão principal é “como é que estas pessoas estão a vivenciar este problema e se a prática de exercício físico poderá funcionar como um fator protetor de problemas psicológicos derivados do confinamento”.

“Importa manter os laços entre a prática desportiva e os jovens em situação de confinamento”

Rui Gomes, doutorado em Psicologia do Desporto e professor na Escola de Psicologia da UMinho

Os dados que indicam que, a partir de casa, é possível alcançar os benefícios associados à prática de exercício físico, sem ser necessário equipamentos ou materiais especializados ou sofisticados, deixam Rui Gomes otimista.

Porém, lembra que a geração mais jovem deve manter-se fisicamente ativa durante o confinamento. “Isto ajuda a combater os sintomas depressivos e a manter uma saúde mental positiva. Isto tanto poder ser promovido pelos professores das escolas como pelos treinadores dos clubes desportivos, através de treinos realizados e monitorizados à distância. Algumas academias desportivas têm assumido esta política, mantendo assim uma ligação com os seus clientes”, afirma.




Ao nível dos vários clubes de diferentes modalidades, nem sempre o acompanhamento dos jovens, nesta fase, é o desejável.

“Os relatos que vou conhecendo reportam duas situações distintas: clubes que têm vindo a perder o contacto com os seus atletas (situação mais nociva e indesejável) e clubes que conseguem manter o contacto com os seus atletas, providenciando atividades físicas numa base regular. Por isso, em suma, importa manter os laços entre a prática desportiva e os jovens em situação de confinamento”, remata Rui Gomes.

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“Eles nunca mais vão ter 12 ou 13 anos”

José Couceiro, diretor técnico da Federação Portuguesa de Futebol, não esconde a apreensão pelas consequências que estes sucessivos confinamentos trarão para o futuro dos jovens.

“A minha primeira preocupação são os clubes e a possibilidade de os jovens poderem competir a nível distrital e nacional; só depois vem a componente internacional. Não pensando de uma forma egoísta nas seleções nacionais – porque elas só se conseguem formar se o trabalho de base nos clubes e associações distritais existir – é óbvio que isto tem consequências”, admite Couceiro, em declarações à Renascença.

© Direitos Reservados

Há escalões de várias modalidades que não competem há praticamente um ano, o que pode originar inúmeros abandonos da prática física.

“Obviamente que estão preocupados, não por eles, mas por estes jovens. Eles nunca mais vão ter 12 ou 13 anos; e os que têm 18 ou 19, para o serão seniores sem acabar dois campeonatos. Temos que arranjar soluções porque, se não tivermos capacidade de retenção, isso significa o abandono aos 18 ou 19 anos; e o abandonarem não é bom para ninguém, nem sequer para a saúde pública”, adverte José Couceiro.


MENOS 78% DOS JOVENS PRATICAM DESPORTO FEDERADO DEVIDO À PANDEMIA

As modalidades de futebol, futsal, hóquei em patins, voleibol, basquetebol e andebol perderam um total de 172.991 mil atletas em todo o país.

Na época anterior eram 220.735 os jovens federados, número que caiu para 47.774 na atual.

A tendência é para piorar.


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