JOSÉ AFONSO E A CIRCULTURA

por CÉSAR MACHADO
Advogado

Passaram a  23 de Fevereiro 29 anos sobre o falecimento de José Afonso.  Já se escreveu que o último concerto de Zeca no seu circuito artístico comum, antes das homenagens da fase da doença, ocorreu noutro local e em data anterior. Erro. O último concerto da carreira de Zeca Afonso, antes dos tributos, realizou-se em Guimarães, a 5 de Junho de 1982, no âmbito da Circultura, com Júlio Pereira, Janita Salomé, e Serginho Mestre, entretanto falecido.

A Circultura merece ser recordada. A um participado processo revolucionário, com toda a sorte de experiência artísticas e generosa intervenção, seguiu-se um contrastante e escuro vazio cultural com duras marcas. Os poderes públicos, as autarquias, designadamente, não tinham nem os meios nem as preocupações com as causas culturais que viriam a ter posteriormente. O canto de protesto, de intervenção, chame-se o que se quiser, não foi sempre consensual após o 25 de Abril, mesmo nos meios mais ligados à esquerda. Não foi por acaso que alguma imprensa considerou “Com as Minhas Tamanquinhas”, de Zeca,  o pior disco do ano. Ou que José Mário Branco teve a obra prima “Ser Solidário” na gaveta desde 1979,  coleccionando recusas das oito maiores editoras do mercado nacional em gravar o disco por alegada “falta de interesse comercial”, o que fez com que o disco “nascesse” em palco, desde Novembro de 1980.  Só a sua força se impôs e permitiu a recolha de contributos prévios de muitos cidadãos, que transformaram a sua participação em compra prévia por preço mais barato, e, mesmo assim, só com a aposta da Edisom, uma editora independente dos músicos Zé da Ponte e Guilherme Inês. Zeca recordava que, por ocasião do lançamento de “Fados de Coimbra”, dessa época,  recebeu um telefonema de Júlio Isidro a convidá-lo para participar no seu  programa televisivo. Um luxo, para quem não ia à televisão desde os tempos da Revolução. Só que logo veio a advertência- “mas vem cá cantar Fados de Coimbra, não aquelas outras canções…” . Os músicos “de um certo sector” tinham dificuldade em entrar no circuito comercial dos concertos pelo país. Ir à televisão, nem pensar. Gravar discos, muito difícil. Em paralelo, sucedia nada suceder em terras como Guimarães, a não ser as iniciativas que as Associações Culturais realizavam, com os seus modestos meios. Tempos difíceis!

A partir do CICP –Centro Infantil e Cultural Popular, Associação criada no período post 25 de Abril-  entra em cena a Circultura, um abanão no marasmo cultural, ao tempo. Instalada numa “alugada” tenda de circo, montada junto  ao actual quartel dos Bombeiros Voluntários de Guimarães, à Alameda Alfredo Pimenta, sem apoios e com risco da bolsa dos promotores, apresenta, ao longo de 1982, José Afonso, José Mário Branco, Carlos do Carmo, Lena d’Água e os Salada de Frutas, UHF, Vitorino de Almeida, Coro do Convívio, Tété, a Mulher Palhaço, entre outros. É obra! O José Casimiro Ribeiro –cuja casa era o “hotel” da maior parte destes músicos”, Zeca incluído- o Torcato Ribeiro, O Carlos Mesquita, o António Gradim, e todos os que fizeram esta sadia loucura, merecem o nosso tributo.

Parece-me muito justo que entre 5 de Junho de 2016 e 23 de Fevereiro de 2017 –data em que passarão 30 anos sobre o falecimento de José Afonso- haja em Guimarães um bom e vasto programa que torne presente e homenageie José Afonso e a sua obra. E que se recorde a Circultura, que merece homenagem, e as pessoas que a fizeram, e merecem ser homenageadas.

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