José João Torrinha | Na (re)entrada, a arte de saber sair

Artigo de Opinião. Sair. Uma singela e pequenina palavra.

@ José João Torrinha

O dicionário desenrola os seus múltiplos sentidos: ir para fora; pôr-se a caminho a partir de um local; cair em sorte; parecer-se com alguém; custar; ser publicado; ter atividades de lazer fora de casa; desaparecer; ser objeto de venda; dizer algo inesperado e muitos mais. Mas fiquemo-nos por este outro, que é do que hoje vou tratar: abandonar. Abandonar uma profissão. Abandonar um cargo. Abandonar certas responsabilidades. Abandonar uma determinada situação.

Neste sentido, importa convocar a este texto duas realidades distintas mas que andam amiúde de mãos dadas: saber sair e escolher a melhor altura para se sair. A escolha da segunda significa muitas vezes o acerto ou desacerto da primeira. Outras vezes, não escolhemos a hora da saída (alguém a escolhe por nós) e ainda assim podemos não saber sair.

Por estes dias, a ocidental praia lusitana viu-se submersa por um drama que nasce justamente do facto de alguém que já esteve lá bem no topo do mundo, desportivamente falando, não estar a saber sair. Em boa verdade, a mesma determinação quase insana que levou a que um homem se forjasse e transformasse num craque de dimensões planetárias, leva a que agora, no ocaso da carreira, não aceite as leis que a natureza, judiciosa e impiedosamente, lhe vai ditando. A ele e a todos. Mas não precisamos sequer de ir ao caso mais badalado do momento para perceber a dificuldade de saber sair. No desporto isso é uma constante: como alguém dizia num documentário sobre um enorme tenista: “neste desporto, ou decides acabar com o ténis, ou ele decide acabar contigo”.

Interessa-me mais, todavia, falar de algo que a minha intervenção política me ensinou e bem depressa: se em tantas coisas na vida, saber sair é uma arte, na política, é tarefa com que tantos e tantos não sabem lidar. O exercício do poder, seja a que nível e funções for, traz consigo muitas coisas de que é difícil abrir mão. Das pequenas e quase insignificantes, às mais relevantes. Quando perdemos isso, é fácil entregarmo-nos aos mais negros dislates: a tentação de continuar a usar um poder que já não temos; a tentativa de interferir no exercício das funções de quem nos sucedeu; entregarmo-nos nos braços da intriga, usando para tal as ligações que ainda mantemos; andarmos permanentemente em busca de um sucedâneo para o poder que nos escapou; cairmos no erro do ressabiamento, vendo em tudo que muda uma afronta. Numa palavra, o risco de mergulharmos fundo no fel e na amargura é real e bem presente.

Ao longo de dezasseis anos, a tudo isto fui assistindo, uma, outra e mais outra repetida vez, e tudo me foi servindo de ensinamento para a minha própria saída da vida pública. Uma coisa tinha decidido há muito: que tentaria sair no meu próprio tempo. Estabelecido isso, veio a parte mais fácil: determinar que esse seria no momento “x”. Quando assim é, tudo se torna simples. Assim foi e assim tem sido. Com muito orgulho no percurso, mas ainda mais na decisão. Com muita paz interior e pouco saudosismo. Não faz mal olharmos para o passado, desde que não vivamos nele. E o futuro promete sempre ser mais interessante.

Estranho que no momento em que entro no Mais Guimarães (“reentro” seria quiçá o termo mais correto) escreva um texto sobre sair. Os psicólogos diriam que se trata de um ato falhado. Mas não é, acreditem.

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