JOSÉ MARIA CARDOSO: “O DISTRITO DE BRAGA É SINTOMÁTICO DE MUITOS PROBLEMAS QUE PORTUGAL TEM”

Com 58 anos, José Maria Cardoso é o cabeça de lista do Bloco de Esquerda (BE) pelo círculo eleitoral de Braga. Foi cabeça de lista do partido pelo distrito em 2002, tendo também já encabeçado listas à Câmara e à Assembleia municipais de Barcelos, onde é deputado municipal desde 2001. É ainda dirigente do Sindicato dos Professores do Norte.

João Bastos/ Mais Guimarães

Sucede a Pedro Soares como cabeça de lista do BE pelo círculo eleitoral de Braga. Como olha para este desafio?

Com toda a normalidade. Foi um processo que se foi desenrolando dentro de uma perspetiva de debate interno. De uma forma muito natural, foi proposto o meu nome, que depois foi retificado pelos órgãos do partido, o que naturalmente me orgulha e responsabiliza. Essa responsabilidade é de toda a lista. Há aqui uma pessoa que encabeça, que é o primeiro candidato, como depois há o segundo e o terceiro e assim sucessivamente. Cada um tem as suas responsabilidades e funcionamos muito numa perspetiva coletiva e não individualista.

Resposta à emergência climática, combate à precariedade e salvar a saúde são as três bandeiras do vosso programa eleitoral. Relativamente à primeira – que agora está presente no programa de todos os partidos – o que é prioritário para o BE, nomeadamente no distrito?

Todos os partidos perceberam que este é um tema de campanha. Uns mais cedo que outros. Outros vieram por arrasto. A situação não é nova. É essencial perceber as propostas apresentadas pelos partidos. Afirmar que é preciso reduzir o plástico ou reduzir o consumo de carne de vaca são medidas circunstanciais, que não resolvem nada. A solução tem que ser estrutural. Não podemos continuar a ter os mesmos hábitos ou o mesmo tipo de consumo e querermos depois que haja, por exemplo, uma redução dos gases com efeito de estufa. Para cumprirmos aquilo que está definido em termos de descarbonização, precisamos de mudar o paradigma. Isto não é compatível com o modelo capitalista que está instituído.

Mas quais são as medidas definidas pelo Bloco de Esquerda nesse sentido?

Comecemos pela questão da mobilidade. Como é possível mantermos o mesmo tipo de mobilidade, assente no transporte individual, no carro, se queremos atingir a descarbonização? A lógica tem que ser invertida e tem que haver uma aposta forte nos transportes públicos, nomeadamente no ferroviário. No domingo, fizemos uma viagem de comboio entre Guimarães e Braga. Demorou duas horas. Como é que se pode dizer que há uma alternativa? Na segunda-feira realizamos uma viagem entre Esposende e Viana do Castelo. Há uma injustiça e disparidade enorme. Um habitante de Viana do Castelo paga, pelo passe mensal para o Porto, 78 euros. Um habitante de Esposende paga 138 euros. Porém, um habitante da Póvoa de Varzim paga 40 euros, por integrar a área metropolitana do Porto. Uma medida que aparentemente foi benéfica, a do Plano de Redução Tarifária, acaba por criar injustiças. Não basta dizer às pessoas que devem deixar o carro em casa. Tem que se criar condições para que o façam. Outra medida está relacionada com o processo produtivo. Não podemos continuar a ter produção energética como temos a partir de combustíveis fósseis. Esta lógica tem que ser remodelada. Em Portugal, a energia fotovoltaica, de energia solar, é inferior à de países como a Suécia, que tem muito menos horas de sol. Temos um atraso sucessivo.

@João Bastos/ Mais Guimarães

Outra das vossas preocupações está relacionada com a precariedade, uma situação que também afeta o distrito. A taxa de desemprego diminuiu, mas a precariedade continua a existir. Como se propõem a combater isso?

Temos um distrito que é sintomático de muitos dos problemas que Portugal tem. Faz-se uma leitura aproximada da realidade nacional através do nosso distrito. O emprego, muito concretamente aqui no Vale do Ave, assenta na chamada política dos 3 B’s: baixas qualificações, baixa produtividade e baixos salários. É rentável porque é competitivo no mercado à custa dos baixos salários. No Vale do Ave há uma dependência de microempresas que têm o controlo das encomendas. Estão sempre subjugadas ao comprador que determina como quer comprar.

“Não basta dizer às pessoas que devem deixar o carro em casa. Tem que se criar condições para que o façam”

Refere-se ao setor têxtil?

Precisamente. De vez em quando há fugas para outros contextos, que lhes interessa mais em termos encómios. Quando isso acontece, as nossas empresas ficam sem capacidade de resposta. Isto é sucessivo. Há quantos anos é que isto existe? O que tem que ser feito é apostar na qualidade e em trabalhadores qualificados, mas que tenham rentabilidade salarial.

Fala da precariedade relativa às baixas qualificações… Mas este é também um distrito jovem, universitário e qualificado. Que medidas propõem o Bloco nesse sentido?

Propõe medidas muito diferentes das do PS, que fez uma espécie de deriva direitista de final de mandato. Permitiram que fossem viabilizadas alterações ao código laboral, que implica, por exemplo, um prolongamento do período experimental para 180 dias. Isto significa que jovens podem andar a saltar de 180 em 180 dias entre empresas. Este é o tipo de legislação que não pode existir. O Bloco defende que haja uma restituição dos contratos coletivos. A forma mais fácil de ter algum controlo sobre os trabalhadores é ter contratos individuais. É evidente que as pessoas ficam mais sujeitas à imposição. Defendemos também o alargamento das 35 horas ao privado. Defendemos também o aumento de 8% do salário mínimo nacional, no imediato, em 2020, para os 650 euros. Defendemos que o aumento de 8% se mantenha nos anos subsequentes do mandato. Ou seja, terminaríamos o mandato, em 2023, com o salário mínimo na ordem dos 820 euros.

A saúde é outra das preocupações do Bloco de Esquerda. Relativamente ao distrito, o Bloco aplaudiu o fim da parceria público-privada no Hospital de Braga, mas existem mais questões por resolver, nomeadamente em Guimarães, Barcelos…

Neste mandato, a obsessão do Governo socialista foi pelo défice zero, diminuindo a capacidade de investimento público. Claro que saudamos a passagem para o setor público do Hospital de Braga. Já reunimos com a administração e esperamos acompanhar aquilo que vai sendo feito. Mas não é suficiente. É preciso um hospital novo em Barcelos. Esta reivindicação tem cerca de 30 anos e é cada vez mais evidente. É também urgente a remodelação do hospital de Guimarães. O serviço de urgências não consegue dar resposta à procura que tem, assim como o de Famalicão. É importante também investir nos Centros de Saúde e nas Unidades de Saúde Familiares. Precisamos de um atendimento de proximidade que consiga dar resposta a muitos concelhos do nosso distrito, como Cabeceiras de Basto, Celorico de Basto, Terras de Bouro ou Vieira do Minho. A população do distrito é jovem se a virmos como um todo. Mas há muitos concelhos com a população fortemente envelhecida.

Com que expetativas partem para estas eleições? Acreditam que vão eleger uma segunda deputada? Neste caso, seria Alexandra Vieira.

É evidente que ninguém concorre a eleições para ter um resultado pior do que o que teve nas eleições anteriores. A nossa perspetiva é melhorarmos os resultados eleitorais, o que significaria ter um aumento percentual nos votos no distrito e, provavelmente, a eleição de mais deputados do que aquele com que partimos e é a nossa base, que é um deputado pelo distrito. Isto não significa que seja uma necessidade. De certa forma, criámos alguma expetativa. Compete-nos estar com as pessoas, fazer campanha e mostrar as nossas propostas. Depois, compete às pessoas votar. Se votarem em nós para que esse número signifique a eleição de mais do que um deputado, tanto melhor e, logicamente, ficaríamos satisfeitos com esse resultado.

Entrevista publicada na edição n.º 208 do Mais Guimarães (a 25 de setembro)

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