Luís Caldas, in Memoriam

Por César Machado.

Luís Augusto Chaves da Costa Caldas nasceu a 3 de julho de 1939, na freguesia de São Paio, no centro da cidade de Guimarães.

Fez os primeiros estudos no então Internato Municipal de Guimarães, tendo concluído os estudos Secundários aos 16 anos na então Escola Comercial e Industrial de Guimarães, hoje Escola Francisco de Holanda.

Por impossibilidade económica para prosseguir os seus estudos, viria a trabalhar a partir daquela idade na Livraria Lemos, em Guimarães, adoptando a profissão de livreiro, a única que conheceria, e que se tornaria a sua paixão de toda a vida.

Tem intervenção activa nas Eleições Presidenciais de 1958, apoiando Humberto Delgado, momento que marcaria o início da sua intervenção nas actividades politicas, alinhado nos sectores da oposição democrática à ditadura de Salazar /Caetano, continuando a participar politicamente até ao 25 e Abril de 1974.

Praticante desportivo do Círculo de Arte e Recreio, é nesta associação que, no início dos anos 60 do passado século, conhece o Dr. Joaquim Santos Simões, Director do Teatro de Ensaio Raúl Brandão, integrado naquela colectividade. É neste contexto que Santos Simões, conhecedor da sua competência profissional como livreiro, convida Luís Caldas para assumir a direcção comercial da Livraria Raúl Brandão, criada em 1964 por um grupo de intelectuais de Guimarães e do distrito, todos ligados à oposição democrática, livraria criada sem qualquer objectivo de lucro, antes o de assegurar o trânsito dos livros indesejados ou proibidos pelo regime.

É na Livraria Raúl Brandão que vem a revelar-se o decisivo e singular perfil de Luís Caldas. Vem ao de cima a sua extrema competência profissional, o conhecimento profundo da literatura e das várias correntes publicadas e, bem assim, a preferência dos potenciais clientes, o tipo de publicação e os vários autores e tendências preferidas entre o púbico a que se destinavam, não só vimaranense mas também de terras vizinhas que acorriam à livraria que, entretanto, se transformara num local de tertúlia. Tais conhecimentos das obras publicadas, quanto das preferências de cada um dos clientes, permitem-lhe criar um original e único sistema de distribuição que consistia em fazer chegar a casa dos clientes, sem encomenda prévia, livros relacionados com as suas anteriores compras, por entrega em mão, antecipando parcialmente o que o comércio electrónico de livros viria a fazer muitas décadas depois. Os livros eram cuidadosamente embrulhados em espesso papel que nada permitia ver do interior; até pelo facto de se tratar de livros proibidos, sem qualquer publicidade ou exposição, só através desta discreta distribuição se poderia fazer chegar tais publicações aos interessados, contornando-se as dificuldades impostas pela opressão do regime. E foi assim que a Livraria Raul Brandão, pela mão de Luís Caldas, levou a inúmeros leitores muitas obras proibidas, que, provavelmente, nunca de outro modo lhe teriam chegado.

Com esta sua actividade, Luís Caldas prestou inestimáveis serviços às causas da cultura e da cidadania, que enriqueceram Guimarães e os concelhos próximos. Mais desenvolvimento sobre a sua atividade cívica e cultural podem ser lidas em “Guimarães, Daqui Houve Resistência”, livro editado pelo Cineclube de Guimarães, em 2014, com recolha de textos, organização e escrita a cargo do autor destas linhas, obra para a qual Luís Caldas se prontificou prontamente a colaborar com o seu rico depoimento.

Manter-se-á ligado aos sectores da oposição democrática até ao 25 de Abril de 1974. Com Santos Simões, participará nos esforços para a instalação em Guimarães de uma Biblioteca Pública da Fundação Calouste Gulbenkian, que viria a nascer em Outubro de 1966, uma biblioteca fixa que assumiria relevantíssimo papel na difusão cultural em Guimarães.
Foi militante do MDP desde antes do 25 de Abril até 1975, passando à condição de independente, activo nas causas da sua terra.

Foi dirigente de várias Associações como o Cineclube de Guimarães, o Gabinete de Imprensa de Guimarães, tendo sido fundador da Cooperativa Editorial “O Povo de Guimarães”, em cujo jornal colaborou, bem como no “Notícias de Guimarães. Foi, ainda, do Gabinete de Imprensa de Guimarães e do Círculo de Arte e Recreio.

O falecimento de Luís Caldas, a 29 de Abril do corrente ano de 2021, constitui irreparável perda para a cultura e cidadania vimaranenses. Guimarães ficou mais pobre com a partida de Luís Caldas. Até sempre.

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