MATHILDA: “É A VONTADE DE CONSUMIR O MUNDO. DE O TER NAS MÃOS”

Mafalda Costa, 19 anos, é também Mathilda. São e não são a mesma pessoa. Lançou o álbum de estreia a 10 de setembro, “Changing Colours”, e conta que, agora, se sente lilás: “Algo entre qualquer coisa.” São as dores de crescimento de Mafalda cantadas por Mathilda.

© João Bastos/ Mais Guimarães

O primeiro single do teu álbum de estreia chama-se “I Don’t Like Tea”. Tem algo que ver com o facto de viveres em Londres e não gostares?

Por acaso não. “I Don’t Like Tea” foi uma das primeiras músicas que escrevi quando nem sequer tinha a certeza de que ia para Londres. Na altura tinha um sentido um pouco literal. Não gostava de chá. Mas também foi sempre uma metáfora… Estás com uma dor de cabeça? Bebe chá. É o conforto automático. Como eu não estava a gostar desse conforto, o chá era tudo o que eu não procurava.

Então foste para Londres à procura do desconforto?

De certa forma, sim. Fui para Londres para estudar na universidade. Mas acima de tudo para ter experiências novas, conhecer pessoas diferentes, e Londres é, sem dúvida, uma cidade desconfortável.

Sentes agora que isso foi mesmo necessário para ti?

Sim. Fez-me crescer muito. A adaptação foi difícil, mas eu sinto que me vou pôr em mais situações do género. Sinto necessidade de ter aquele barulho todo à minha volta, sinto-me quase como a preto e branco no meio da confusão. E aprendo muito com isso.

Mas essa azáfama é o oposto, para já, do que tens vindo a fazer como Mathilda. Precisas desse contraste para chegares a uma canção?

Era preciso. Agora sinto que não. Olhando para o “Changing Colours”, vejo que todas as músicas vieram de uma certa confusão. Uma confusão poética, vá. Agora estou a sentir calma interior, porque foi tanta a confusão que quase rebentou… Não sei para onde vou, mas sinto que algo vai mudar com o tempo. E que a Mathilda vai crescer, tal como eu.

Temos a Mathilda e a Mafalda. São e não são a mesma pessoa ao mesmo tempo?

Sim. São, sem dúvida, a mesma pessoa, mas são faces diferentes da mesma moeda. Uma, a Mafalda, é a que vive, a que existe, que ocupa espaço e que vive a confusão. A Mathilda expressa-a e protege-a do significado das palavras. A Mathilda sou eu, sem dúvida, mas filtra e consegue entregar ao público uma versão de algo que se tenha passado com a Mafalda. Não foi por isso que criei um alter-ego. Mas, sendo tão pessoal na forma como escrevo, era necessário ter uma barreira.

© João Bastos/ Mais Guimarães

“Changing Colours” representa essa mudança, as coisas a passar, não saber onde estamos? Tens três pontos coloridos na capa: azul, amarelo e lilás…

O título vem de duas frentes diferentes. Sempre fui ligada à parte humana das pessoas e por isso comecei a estudar jornalismo. Porque observo muito e sou muito introspetiva. Falo muito sobre mim, mas é tudo sobre sensações comuns. Então, idealizava a sociedade associando cores às pessoas. Dentro do mesmo verde, tens um espetro infinito de verdes. Somos todos semelhantes, mas também muito diferentes. E eu nunca me consegui ver numa cor só. O amarelo representa a adolescência, o fervor de tudo a acontecer, o entusiasmo, viver o sonho. Com a passagem para Londres, na chegada à idade adulta e passar por situações de adaptação, senti que era mais lilás. Ne, triste nem feliz. Algures no meio. Algo entre qualquer coisa. E, então, o “Changing Colours” é sobre crescer, amadurecer, mudar.

E o azul?

O azul é a infância. Os bons momentos que recordo. Amarelo é a adolescência e nascimento da Mathilda. E o lilás é o crescer, o amadurecer… Sendo que tenho 19 anos, não sou nenhuma adulta! Sinto que vejo as coisas de uma maneira mais crua, mais cinzenta, e foi aí que Londres entrou. Tanta confusão, tantas pessoas à minha volta e eu a observar. Como um filme.

Tens vindo a dizer que o álbum mostra partes da tua vida. A passagem do amarelo para o lilás influenciou a sonoridade do álbum?

Por acaso não, já estava gravado. A “Small Fish Lilac Skies” escrevi precisamente antes de ir para Londres. É sobre ser um peixe grande num lago pequeno… e ser um peixe pequeno num lago grande. Londres é desafiante, assustadora, mas era o que queria e precisava de fazer. E consegui abraçar o medo. É a única do álbum que tem a influência do crescimento.

Esse crescimento, aliado ao desconforto sentido, ajuda a manter a tua sonoridade? Ou não vês fronteiras para isso?

Não vejo fronteiras. É a Mathilda que me leva. Não penso muito no porquê de fazer música ou como deve soar. É como tem de ser. Muitas músicas não têm estrutura porque não tem de ser assim.

© João Bastos/ Mais Guimarães

É difícil fazer música sem a estrutura que falas, mais orgânica, e crescer no panorama musical atual?

É difícil se te preocupares com isso (risos). E eu não me preocupo. E felizmente com o Diogo [Alves Pinto], que foi e é um pilar muito importante para a Mathilda, partilho essa visão de fazer música como deve ser feita. Não para as massas, sem regras…

Se tiver de ser para massas, será…

Claro. Esperamos sempre resposta do público. Não há outra forma de fazermos isto. É como tem de ser. Não tem de agradar a toda a gente. E lido muito bem com isso.


Se o álbum tivesse saído antes de ires para a universidade, o processo teria sido igual?

Sim, sim. Trabalhamos no álbum à distância. Dei muitos concertos, trabalhei no álbum, tive uma tour em Itália… Eu sempre vivi esta dualidade de não chamar à atenção, mas piso um palco com facilidade. Estar em Itália foi tão bom. Fez-me divertir, não pensei tanto sobre as coisas e no que deveria dizer.

Essa dualidade está presente em muito da tua vida: és a Mafalda e cantas como Mathilda; dizes-te tímida e pisas um palco facilmente; estudas jornalismo, área que conta histórias de pessoas, e contas a tua através da música. Como lidas com isto? Já agora: é um plano a longo prazo, o jornalismo?

Bem… Lá está, nunca pensei muito nas coisas. A música faz-me sentir bem, então faço música como gosto. O jornalismo era uma área que me interessava, então decidi estudar. Gosto imenso de contar histórias e sinto-me uma contadora de histórias. Como Mathilda conto as minhas histórias e como jornalista virei a contar a dos outros. São duas existências que conseguem viver em completa harmonia. Sou muito curiosa, sei que muito do que está à minha volta é o que me faz crescer. Com essas experiências tenho mais para contar. Há uma série de áreas pelas quais me sinto fascinada: cinema, literatura, fotografia… Claro que caem todas para o visual e o escrito, sinto necessidade de as explorar. O que sinto é que não tenho a necessidade de fazer tudo agora. Sinto mesmo que o mundo não me vai fugir. Tenho 19 anos. Tenho tempo.

© João Bastos/ Mais Guimarães

Durante a adolescência tiveste uma banda, não foi?

Sim! Tinha 16 anos. Out of Touch, grande nome. Foi muito divertido. Começou com uma participação minha num concurso de talentos do liceu e, por muito foleiro que seja, foi a primeira vez que pisei um palco. Vi imensa gente à minha volta, mas gostei. É a tal contradição: posso estar com cinco pessoas e sentir-me desconfortável e estar num palco rodeada por uma multidão e sentir o contrário.

Sentes-te aconhegada em palco?

É. E quando deixar de ser, é porque tenho de parar um bocadinho.

Já aconteceu?

Já. Já tive situações em que não me sentia confortável sem perceber exatamente o porquê. Estava a passar por uma fase em que precisava de algum espaço, algum tempo para mim. Que é o período que estou a viver agora. Ter calma. Ter de parar um pouco não é sinal de fraqueza.

Esperava-se que, depois do single, lançasses o álbum. Há sempre a ideia de seguimento. Foi importante teres parado e lançares as coisas com o teu tempo?

Agora, sim. Se me fizesses a mesma pergunta há três meses, dizia-te que não. Mas cheguei a um ponto que pensei mesmo: ‘Não consigo’. Estive doente durante algum tempo, passei por momentos muito complicados. Estou a recuperar. As doenças invisíveis são difíceis de explicar… Já não me lembrava do prazer de ler um livro, de não fazer nada, sem pensar em nada. Sem sentir pressão. Dar um passo atrás e respirar.

Isso é resultado de ser artista? De absorveres tudo?

Sim, é a vontade de consumir o mundo. De o ter nas mãos. Desde muito cedo senti isso. Sempre fiz mil coisas. Nunca achei que fazia suficiente e sentia-me culpada. E isso refletiu-se nos últimos meses. Queria conquistar o mundo sem ter a noção de que o mundo é muito grande e eu sou muito pequena, ainda. Acima de tudo, sinto-me feliz com o álbum. Agora posso descansar um bocadinho. Não vou a lado nenhum, mas preciso de umas semanas, uns meses.

© João Bastos/ Mais Guimarães

Mudando de assunto. O Diogo [Gobi Bear], para além de teu primo, acompanha-te há algum tempo. Como surgiu isso?

Não éramos muito próximos. Ele tem mais nove anos que eu. Mas muito rapidamente começamos a dar-nos super bem, quando nos aproximamos. Quando soube que cantava, convidou-me para ir a casa dele para lhe mostrar uma música. E foi uma das primeiras, ele tocou por cima e ficou assim. A verdade é que o percurso com o Diogo tem sido muito interessante. Há uma familiaridade que nos é natural, mas há respeito mútuo enquanto artistas. Há espaço. E há silêncio, que continua a ser importante na música.

A companhia dele ajudou-te a crescer?

Sim. Eu não sou nada pragmática. Fico bloqueada. E o Diogo tem um raciocínio muito mais rápido, objetivo. Completamo-nos. Sinto que estou a ficar mais concentrada, mais focada. Mas sempre cresci muito rápido. Tenho um grupo de amigos há muitos anos e é o mesmo, mas senti muita dificuldade em descobrir onde pertencia. E fui para Londres à procura disso e não encontrei. E depois apercebi-me que pertenço a mim própria e depois partilho isso com algumas pessoas.

Há alguém que tenha tido alguma influência sobre o que fazes artisticamente?

Somos um conjunto de influências, ponto final. Cresci muito com o cinema e a música. As experiências, as pessoas, o cinema, tudo me inspira. E também as experiências dos outros, se bem que este álbum é muito introspetivo.

E o que fazes nos tempos livres que tens agora? Observas o mundo?

(Risos) Adoro dançar. Tive aulas de ballet durante seis anos e tive contemporânea. Mas gosto de dançar como uma maluca de manhã, durante meia hora, com música dos anos 80. Até disse à minha mãe que as pessoas deviam ver este lado. O facto de começar uma carreira tão cedo fez com que algumas pessoas tivessem uma admiração por mim que eu nunca quis. Porque criam-se expetativas daquilo que tu és e tu não és aquela pessoa, o que é muito injusto. E houve quem se afastasse.

Alguém afastar-se é um preço que, inevitavelmente, acabas por pagar sendo artista?

Sim. As pessoas que me são próximas sempre me admiram, tal como eu os admiro, num ponto saudável. Mas tive situações que me deixaram triste. Acharem que eu sou superior. E eu nunca quis ser.

Todas estas dificuldades das quais me falaste podem dar azo a algo mais, artisticamente falando?

Sim, definitivamente. Costumo dizer que os últimos meses deram-me pano para mangas para quatro álbuns.

Poderia terminar esta entrevista com a pergunta de sempre: O que se segue? Mas, pelo que falamos, penso que não faz muito sentido fazê-lo.

Não faço ideia! E é ótimo não saber.

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