MORREU MARCELO, VIVA MARCELO

por CÉSAR MACHADO
Advogado

O que faltou na noite eleitoral de domingo foi o comentador Marcelo. Noutras eleições adivinhou migrações de votos, leu o futuro com mirabolantes cenários e insuspeitas intenções dos decisores. Tornou-se figura familiar, mais assídua que a maior parte dos membros da família. Faltou na noite de domingo. É certo que há imitações. Mas falta-lhes aquela graça marota, o golpe de asa, o improvável argumento,  o lance imprevisto, o esgar felino, a convicção  certeira da jogada do esgrima investido na aplicação do golpe bem sucedido. Isto, ainda que a estocada seja a fingir.

Como na esgrima. Ninguém se magoa. Não mata ninguém -trata-se de um jogo, um nítido prazer para quem o joga, que sabe não ser mais que um jogo e que, como na estocada, se resume a um movimento de florete, a fazer de conta. O destinatário também sabe ao que vem, isto é, ao que ouve, que “aquilo” não é verdade, que há ali qualquer coisa que não está bem; mas é nessa “qualquer coisa” que a coisa tem piada e põe o espectador colado no sofá  a perguntar-se “deixa lá ver, o que dirá o homem desta vez?”.

Marcelo entrou-nos pala casa dentro durante anos a fio e instalou-se;  se o acaso o determinasse, poderia ser  um ocasional e simpático  parceiro numa boa cavaqueira, apoiada num bom vinho e gostoso salpicão, sem qualquer embaraço dele ou nosso,  conhecidos que somos de há tanto tempo.

As pessoas gostam disto. O senhor fala bem, entusiasma-se com o que diz, dá o ar professoral que põe em sentido quem do caso não sabe mais do que é comum saber-se. E funciona. Avalia-se o desempenho, aguarda-se para ver de que cartola sairá o coelho desta vez, espera-se para contar quantas dezenas de livros é suposto ter lido na semana finda – um filme. Um filme bem feito, reconheça-se. Com ligações ao exterior, oportunas aparições em torneios de ténis entre a mais fina plateia, lá no lugar em que, por acaso, a televisão recolherá imagens, ou de obreiro boné  na Festa do Avante, recebido com abraços pelos camaradas, afável a recordar para as câmaras, por acaso também ali por perto,  “sou frequentador assíduo da Festa do Avante, desde a primeira que se fez ali na Ajuda,  em 1974”. (Ok, a primeira Festa do Avante não foi em 74, foi em 76; e foi na FIL, não na Ajuda, para onde só iria em 1979. Mas, que raio de importância tem isso se a história é boa? Estes chatos… Se o senhor esteve na Ajuda na Festa do Avante em 74 é porque esteve!) Esse Marcelo morreu. Não sem antes se tornar figura simpática de quem os deuses foram amigos. Sopraram-lhe ventos favoráveis. Aos 22,9% de votos de Sampaio da Nóvoa, não se juntaram 27,4% como  sucedera em 1986, com as votações de Salgado Zenha e Maria de Lurdes Pintassilgo, somadas, caso em que haveria segunda volta. Marcelo teve “pé quente”, como dizem os brasileiros. É um homem inteligente, culto a quem se reconhecem preocupações sociais. Como político e como estadista não conhecemos.

E como não é na qualidade de comentador que vai para Belém, estamos cá para ver. É o Presidente que o país elegeu e é o meu Presidente.  Tenhamos esperança que as qualidades –as boas!- que o comentador demonstrou, revelem um estadista que nos represente verdadeiramente, independentemente da maior ou menor proximidade ideológica.  Isso já foi decidido pelo Povo soberano. E quanto ao eleito pelo Povo, Viva Marcelo.

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