Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

por José da Rocha e Costa

O ator Elliot Page deu na passada semana uma entrevista a Oprah Winfrey, a conhecida apresentadora de televisão dos Estados Unidos, em que falou sobre o seu percurso até se assumir como transgénero em Dezembro do ano passado. Para os leitores mais distraídos, ou que não dêem muita importância aos eventos que vão acontecendo em Hollywood, eu clarifico: Elliot Page foi o nome escolhido pela atriz Ellen Page quando decidiu mudar de sexo e assumir-se como transgénero.

Nesta entrevista, Page explica que desde criança que se sentia rapaz e que foi a pressão das pessoas à sua volta que fez com que tivesse que fechar esse rapaz dentro de si, tendo que enfrentar episódios de ansiedade, pânico e depressão que o perseguiriam até à transformação. Aproveitando para esclarecer que o que levou a assumir a mudança de género e a tornar-se numa voz activa contra a homofobia e transfobia não foi uma tentativa de chamar a atenção, mas sim lutar contra os projectos de lei que têm surgido por parte de elementos do Partido Republicano que visam limitar os direitos da comunidade transgénero.

Pessoalmente, vejo este acto de Elliot Page como acto de coragem. Não é fácil tomar uma decisão deste género, muito menos num meio em que o escrutínio é constante e em que o mínimo passo em falso pode votar as pessoas ao ostracismo. Além disso, acredito que cada indivíduo deve poder fazer as escolhas que o/a tornam mais feliz, desde que isso não interfira com a liberdade das outras pessoas de poder fazer o mesmo. Muitas pessoas julgam-se no direito de condenar essas escolhas só porque não gostam ou porque não acham correcto. Se fôssemos banir da sociedade toda a gente que age de uma forma de que não gostamos, já há muito que eu tinha banido as pessoas que dizem “pograma” em vez de programa e “selada” em vez de salada.

Feita a minha declaração de interesses, confesso que apesar de tudo isto, não consigo compreender uma certa ala de pensamento que existe hoje em dia e que teima em se ofender com tudo, tentando fazer de conta que o passado não existe. Antes de escrever este artigo, estive a ler sobre o tema e reparei que existe um certo pudor por parte dos jornalistas em referir o nome Ellen ou a dar relevo ao passado de Page como uma mulher, chegando a referir Page como “o ator nomeado para o Oscar em 2008 com o filme Juno”. A verdade é que quem foi nomeada para o Oscar em 2008 foi Ellen Page, até porque o Oscar era de melhor atriz e não de melhor actor. Não faz sentido nenhum fazer de conta que não estamos a falar de uma mulher. Uma mulher que não se sentia como tal e por isso decidiu mudar de sexo, mas que não deixa de ter um passado de trinta e tal anos como sendo uma mulher.

Não faz muito sentido haver pessoas que evitam mencionar estes factos, tendo por vezes que fazer alguma ginástica verbal e até mental, quando a própria pessoa nunca pediu que lhe “apagassem” o passado.

Estas pessoas tendem a ser a mesmas que querem deitar abaixo estátuas por prestarem homenagem a pessoas que tinham perspectivas colonialistas ou racistas, e que acham impróprio o nome Museu das Descobertas por se tratar de um nome que foca a perspectiva dos colonizadores e não dos colonizados, como se alguém se fosse esquecer de que com a colonização vieram também atos desumanos e exploração de outros seres humanos. É tudo uma questão de contexto. Devemos congratular-nos pela sociedade ter evoluído desde então, mas não adianta tentar apagar o que os nossos antepassados fizeram, até porque eu tinha um tio-avô que dizia “pograma” em vez de programa e se eu não soubesse reconhecer que ele vinha de um outro tempo, lá teria eu que o banir do meu contexto familiar.

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