Mudar a Bem… Ou a Mal

Por Tiago Laranjeiro

Esta pandemia expôs muitas das fragilidades da nossa condição humana, e das nossas organizações. Há, em amplos setores da sociedade (não só, nem particularmente, em Portugal), uma quebra de confiança nas instituições que nos governam. Da Direção-Geral de Saúde à Organização Mundial de Saúde, da União Europeia a muitos governos nacionais, houve uma sensação de falhanço nas respostas.

Tenho visto um argumento interessante, de que são mais confiáveis as grandes empresas tecnológicas (da Alphabet/Google ao Facebook, por exemplo), do que as grandes instituições internacionais: são mais ágeis nas respostas a problemas concretos, e não perdem em transparência e responsabilização.

Vejamos este argumento provocador: as grandes instituições (podemos olhar para a OMS ou para a UE, ou a um nível mais próximo, para a DGS e os Ministérios) têm processos decisórios que fogem ao escrutínio, que começam, desde logo, na escolha dos seus dirigentes, em que muitas vezes se questiona se foi a competência para o cargo ou outro tipo de afinidades que levaram à sua escolha. E muitos cidadãos olham cinicamente para a sua razão de ser, e há muito que deixaram de acreditar ser o bem comum o interesse último de quem lá tem responsabilidades de decisão.

Já numa empresa, o processo também não é transparente. Mas existe um interesse de sobrevivência em escolher os mais aptos e competentes para os cargos de decisão, sob o risco de a empresa tornar-se muito rapidamente obsoleta e ser ultrapassada, desaparecendo. E, quanto à razão última das decisões das escolhas, acaba por ser mais transparente e claro o princípio da maximização do lucro para os acionistas do que o da maximização do bem-estar para toda a comunidade das instituições públicas. Ao menos todos sabemos ao que vêm.

As grandes empresas têm também vantagens de outra ordem: se um cidadão/utilizador/cliente não está satisfeito, normalmente é ouvido com mais rapidez e eficácia a sua queixa. Se persistir na sua desilusão com o serviço, pode fazer um “opt-out”: deixar de usar aquele serviço, substituindo-o por um outro que, podendo não ter o mesmo nível de satisfação e funcionalidade, certamente conseguirá responder em parte às necessidades individuais. Já nas grandes instituições, o “opt-out” não é viável: não podemos, cada um, deixar de estar na UE, ou na OMS, ou sob a alçada da DGS. E a decisão de emigrar para um país que melhor corresponda às nossas visões é bem mais difícil e com consequências maiores do que trocar o Facebook por outra rede, ou substituir o Google pelo Bing! ou pelo DuckDuckGo. Para além de que é sempre possível comprar ações destas empresas e passar a ter uma palavra a dizer (“só” tem um custo monetário). No fim do dia, o poder de influência de um utilizador/cliente/pequeno acionista não será muito diferente do peso que tem o voto individual.

Imagino que muitos já estejam com os cabelos em pé com a apresentação destas ideias. “Fascista” ou “anarco-capitalista” serão alguns dos epítetos simpáticos que me dirigirão mentalmente alguns leitores. Calma, estes argumentos são uma provocação.

Embora efetivamente exista quem os defenda (não fui eu que os inventei, ouvi-os em plataformas de media, em entrevistas a tecnológicos de Silicon Valley e de outras paragens).

E embora defender e acreditar nisto não seja o mesmo que defender o fim dos Estados ou a criação de Estados policiais, ou defender André Ventura para Presidente da República. Se tudo continuar na mesma nas instituições que nos governam, nas suas lógicas internas, que resultado diferente podemos esperar no futuro? Ou paramos o ciclo de desilusão-descrença que cresce em muitos cidadãos no mundo ocidental, ou a descrença poderá dar lugar à revolta. E o resultado não será, certamente, bonito de se ver.

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