NAQUELE TEMPO

por CÉSAR MACHADO
Advogado

Naquele tempo, tudo começava com a ida ao monte, ao musgo e ao pinheiro. Era o tempo em que acreditávamos no Pai Natal.

Naquele tempo, não se falava do lado menos ecológico da operação, nem se sabia o que isso era. Cortar a ramagem de um pinheiro era um feito natural e incumbia a pinheiro que se prezasse dar pinheirinhos que ostentassem os habituais adereços, iluminados por intermitentes luzinhas que davam um brilho único às lindas bolas penduradas nas fitas de festão natalício, e aos deliciosos chocolates, leves, de fino recorte escultórico, ocos, ricos de cor nas roupagens de variados motivos,  desde a pinha, à majestosa figura do Pai Natal. Estes docinhos iam sendo sucessiva e furtivamente subtraídos, pela calada da noite, que era quando a magia da árvore ganhava mais intensidade, aguçando o fervor  participativo de tão singulares momentos, pelo que poucas destas delícias chegavam aos Reis.

Naquele tempo, o musgo era laboriosamente descascado dos penedos, em postas húmidas e consistentes, para assegurar o tapete bem real em que assentaria o presépio. Não havia notícia de denúncias  por ofensas aos direitos da rocha, nem se conhecem, até ver, reclamações por atentados à sua integridade – o penedo que fez aquele musgo, outro fará em sua vez. Aprendemos com o decorrer do tempo que certos e determinados tipos usam uns bonés de cor verde escura,  que em alguns casos, só aparentemente se trata de bonés cor de musgo – é musgo mesmo, porque o que está por debaixo são penedos, mais pequenos, é certo, mas, ainda assim, verdadeiros penedos. As coisas que a vida nos ensina!

Naquele tempo, o acto mais solene era a montagem do presépio. No núcleo central, o Menino em posição frontal, ladeado por Nossa Senhora e São José.  Próximos uma vaquinha e um boizinho cujo bafo aquecia o Menino, dizia a lenda. A coisa ia alargando a partir daquele centro, por ordem de importância das peças disponíveis. Cá para trás um moinho, umas casinhas distantes, mais pelo meio um ou outro aldeão indistinto, a camponesa com um cântaro à cabeça, o companheiro com algo aos ombros que não se via bem o que era mas caía bem, já mais próximo o pastor, o cãozinho, e as ovelhinhas, sempre muitas ovelhinhas a chegar-se mais perto dos principais. Isto no que toca ao pessoal apeado. Na primeira fila, junto ao centro, os três Reis Magos – Gaspar, Belchior e Baltasar. (Um deles era o que os americanos chamam hoje de “afro americano”; para nós era muito mais simples, atenta a pouca destreza no manejo do vocabulário , própria da idade, e  a  menor tendência para sofisticações linguísticas desta elaboração, estranhas à região).

Naquele tempo, aos Reis Magos cabia a cada um o seu camelo, que era o que se usava por terras de Belém. Mais tarde o camelo daria lugar ao cavalo, meio em que se passaram a fazer-se transportar os Reis, e que levaria  um sábio inglês a falar do “cavalo do poder”- também dizia que “quando dois homens montam o mesmo cavalo, um vai atrás”. Um tipo fino, este inglês que assim falava dos cavalos e que só viríamos a aprender já burros velhos. As coisas que a vida nos ensina! Poucos séculos depois do inglês, veio o nosso Pessoa dizer que “São os cavalos da cavalaria que formam a cavalaria. Sem as montadas, os cavaleiros seriam peões”.  Outro tipo fino. Mas isto são contas de outro rosário que entram, igualmente, na cota das coisas que a vida nos ensina!

Naquele tempo era tudo mais simples. As coisas que a vida viria a ensinar-nos! Mas o Natal resiste, continua a ser um tempo especial, apesar das coisas que a vida nos ensina. Convém é não esquecer as coisas que a vida nos ensina. Mas isso são contas de outro rosário. Nesta quadra não é tempo de pensar nisso. É tempo de respeitar o Natal, de tornarmos mais felizes os que nos são próximos, e de sermos felizes nós também. Um abraço, com votos de Feliz Natal para  todos, e um Bom Ano Novo

 

 

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