NATAL EM NOVEMBRO, NATAL EM DEZEMBRO?

por CÉSAR MACHADO
Advogado

Natal em Novembro, Natal em Dezembro? O colorido da paisagem urbana poderia facilmente confundir uma criatura que, por artes mágicas, regressasse a Guimarães, ao reino dos vivos, depois de …quarenta anos do lado de lá. Façamos um “supônhamos”, que é um duplo exercício a que somos muito dados. O primeiro, de colocar hipóteses na base do improvável “se”, o outro, o de inventar palavras, neologismos arriscados, pontapés na língua portuguesa a comprovar que  ”o papel é o material mais resistente do mundo; aguenta com todo o tipo de bojardas e aguenta incólume”.

Há quarenta anos, o bom vimaranense via em Novembro o início das Festas Nicolinas. E isso era o mês de Novembro. A partir da sua metade, as Nicolinas preenchiam o mês, com os sons de caixas e bombos a entrar pela cidade, anunciando o que continuaria por Dezembro.

Pinheiro  em Novembro,  Natal em Dezembro. Tudo arrumado. Nesta ordenação não havia sobreposições.  Assim, quando o cortejo do Pinheiro “entrava na cidade” não era colorido por iluminações de Natal, não era festa que tivesse “concorrência” porque as luzinhas vinham mais tarde e a árvore no Toural, em boa verdade, não era ainda usual.

As coisas estão diferentes, como é sabido. A tal hipotética criatura, regressada do além após  quarenta anos de ausência, iria baralhar os fusíveis vendo que já é Natal no Pinheiro, que o seu cortejo já passa debaixo das iluminações e que a celebrada árvore, na sua humilde nudez,  puxada a carros de bois com destino ao Campo Feira, vem a fazer frente, a encontrar já de pé, no Toural, uma “concorrente” ostensivamente exposta, cheia de luzinhas num  formidável vai e vem, a fazer lembrar o famoso anúncio radiofónico do teleférico da Penha- “Um sobe e desce de emoções!”.

Provavelmente a criatura iria questionar-se e levaria um tempo a perceber. Admitindo que percebia o primeiro capítulo, logo um outro se lhe abria aos olhos- é que, num ano como este, juntamente com as iluminações de Natal surgiria uma coisa a que se chama “Black Friday”, que é suposto acontecer na primeira sexta feira depois do Dia de Acção de Graças, e que vem a ser uma espécie de gigantescos saldos antes da época de compras generosos que o Natal sempre propicia. Esta coisa “muito americana” parece um tanto “non sense” se tomarmos em conta que se antecipa a preços baixos o que escassos dias depois seria vendido a preços mais altos, e atenta a circunstância de não ser o comércio uma actividade filantrópica. Não se lhe pede que reduza o lucro por benemerência porque essa não é a sua arte. E o seu ofício, legítimo, é o de procurar lucro para pagar as contas e amealhar a mais valia. Nada a opor, é da sua natureza. Mas, diria a criatura, “quanto mais gigantescos são os saldos da tal Black Friday mais se compra, mais se gasta, menos fica e menos se vende na época própria, quase um mês depois, como era tradição…”. É certo que as tradições já não são o que eram. Mas que esta baralhação iria dar cabo dos miolos à criatura, disso poucas dúvidas restam. (Repare-se que, em sinal dos tempos e para evitar protestos por “razões de género”, quem arriba é “a criatura”, que não é ele nem ela e escrita no feminino –a criatura- cria maior sossego. A ser “o criaturo” seria outro falar) .

 Num ano como o corrente, com o Pinheiro a uma sexta feira, a criatura a ver por todo o lado caixas e bombos, luzes e canções de Natal pelas ruas, anúncios da Black Friday, pelo comércio todo, diria a criatura. “Ok, o dia 29 já é Natal, leva com a Black Friday e o Pinheiro aguenta com ambos. O Natal é quando um homem quiser e o comércio decidir. Mas, sendo tudo assim, porque não faz a restauração a sua Black Friday a 29?”. Estas criaturas…

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