NEM TUDO O QUE RELUZ É OURO

por MARIA DO CÉU MARTINS
Economista

Colégio Arautos do Evangelho e Colégio de Vizela. Assim se chamam as instituições privadas que em Guimarães ganham no ranking das escolas secundárias. Na primeira realizaram-se 3 exames, no segundo 151. O primeiro não sei onde fica, o segundo fica algures entre Vizela e Felgueiras, no meio do monte, atrás do sol posto.

No ranking, a uma distância considerável fica a Escola Secundário Francisco de Holanda com 1301 exames realizados.

Em todos os órgãos de comunicação social se lê que o ranking é construído com todas as preocupações científicas que um bom estudo de mercado recomendaria. Todos os anos se introduz mais variantes de leitura – o enquadramento socioeconómico, a escolaridade dos pais, a capacidade de fazer progredir os alunos… Mas, sistematicamente, se cai no erro de comparar o incomparável e as variáveis de leitura adicional rapidamente são relegadas para as notas de rodapé.

As escolas públicas admitem todos os alunos (e até têm que ir buscar os que não querem ir à escola), não podem escolher os professores nem despedir os incompetentes, funcionam com 30 alunos em sala de aula e têm cada vez menos recursos humanos e físicos de apoio! Ser bom, neste contexto é, sobretudo, um esforço de imaginação…

Mas ainda que a comparação se faça não pode ser entre duas escolas com dimensões tão distintas! Preparar 1300 alunos para exame é uma tarefa cabalmente diferente de preparar 150.

De uma forma ou de outra todos concordaremos que a qualidade do sistema de ensino está longe do desejável – apesar de ter sido a paixão de muitos políticos e o grande investimento de tantos outros! De uma forma ou de outra, todos concordaremos que se devem implementar mudanças (e nem precisam de ser estruturais – reduzir em 5 alunos as atuais turmas traria mais impactos positivos que qualquer alteração sistémica). De uma forma ou de outra, a escola pública e a privada devem ter mecanismos de avaliação, com objetivos estratégicos e operacionais e com um sistema de monitorização contínuo. Pode, até, incluir a realização de exercícios de benchmarking (sistema de comparação por indicadores) que permitam apontar áreas de melhoria possível – e a pública ganharia com o privado e o privado com a pública. O que não se pode é colocar na mesma balança instituições com condições de funcionamento completamente distintas e muito menos rotular de melhor aquela que fica à frente.     

Infelizmente, já ninguém consegue viver sem a lista dos recordes. E apesar de todos os erros de forma, estas listas são utilizadas de todas as formas possíveis e imaginárias para promover a “qualidade” duvidosa de algumas instituições.  

Mas o mais cínico de tudo isto é que o ensino privado, no secundário, em Guimarães não existe! Quando muito existe ensino privado no básico, até ao 9º ano. E até deveria existir. Era bom que existisse. A concorrência, por si só, promove a competência mas aquela só se realiza se houver possibilidade de escolha. E se o ranking servisse para alguma coisa deveria ser para fazer boas opções relativamente à escola que os nossos filhos deveriam frequentar.

Mesmo que estejamos disponíveis para pagar – e o ensino privado deveria ser caro – no Concelho de Guimarães não há ensino privado que mereça esse nome. A única instituição que o oferecia no passado (porque deixou de ser viável) reduziu-se a um colégio no meio do monte, em Barrosas, onde a única atividade de interação com o meio envolvente se traduz a brincar com minhocas ou a seguir o carreiro do formigueiro. Matricular criaturas de 15 anos num estabelecimento de ensino com estas características equivale a restringir a construção da sua personalidade à álgebra ou a construções gramaticais de manual de antigo regime.

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