O “ÁLCOOL” E AS FESTAS NICOLINAS

A opinião de Lino Moreira da Silva.

Lino Moreira da Silva analisa o primeiro estudo de candidatura. ©Direitos Reservados

1 – Foi publicado, em 2019, o prometido ‘estudo’ sobre Festas Nicolinas.
O ‘estudo’ foi decidido, pela Câmara Municipal de Guimarães, na presidência do Dr. António Magalhães, sendo Vereadora da Cultura a Dr.ª Francisca Abreu.
Previsto para terminar em 2013, destinava-se a permitir “avaliar os aspectos científicos e sócio-culturais de uma eventual candidatura das Festas Nicolinas a Património Imaterial da Humanidade”.
O ‘estudo’ (publicado on-line, realizado por 5 conceituados investigadores) é útil, para as Festas Nicolinas, contribuindo para lhes dar visibilidade, as abrir mais ao mundo e divulgar o seu valor.
2 – Concordo com quem defende que as Festas Nicolinas, Património Imaterial da Humanidade, ou não, terão sempre a grandeza e o valor que se lhes reconhece.
Mas é preciso ir mais longe.
O galardão da Unesco também pretende contribuir para a salvaguarda (protecção, preservação) do património imaterial e impedir que ele se desvirtue e degrade. E as Festas Nicolinas estão, claramente, a desvirtuar-se e a degradar-se.
Não se trata de as imobilizar, mas de contribuir para que evoluam naturalmente.
Há perigo de contaminações. Por exemplo, as Festas Nicolinas não são, em si mesmas, umas ‘festas de rapazes’, umas ‘festas de iniciação’, umas ‘festas de Inverno’…
Nota-se uma grave falta de cultura nicolina, sobretudo entre os mais novos, que conduz a distorções e mal-entendidos.
São descurados valores nicolinos – que tomam por referência valores humanos essenciais.
Sem espírito nicolino, as Festas Nicolinas tornam-se num mero ‘ritual’ (que nunca foram) e perdem grande parte do seu sentido.
As Festas Nicolinas estão a ser reduzidas à noite do Pinheiro, fazendo-se com que deixem de ser as festas completas, coerentes e integradas, que são, implicando uma vivência de todo o ano, e da vida inteira.
O reconhecimento da Unesco, para as Festas Nicolinas, não sendo determinante, virá, indiscutivelmente, ajudar a preservá-las.

© Mais Guimarães

3 – Nem tudo me parece bem, quanto ao ‘estudo’.
Para os fins anunciados, não aceito estudos, encomendados, recebendo contributos só de alguns. A complexidade das Festas Nicolinas e as grandes responsabilidades atribuídas ao ‘estudo’ exigiam participações colaborativas alargadas.
Desde há muito que tenho sugerido a realização de um Congresso (ou afim…), aberto e muito participado (regional, nacional, internacional), sobre Festas Nicolinas, que daria contributos variados (históricos, etnográficos, religiosos, axiológicos, identitários, gastronómicos, jurídicos, literários, musicais, mitológicos, poéticos, simbólicos, económicos, sociológicos… antropológicos… culturais…), para as Festas Nicolinas, bem mais clarificadores do que um ‘estudo’, encomendado. Mas ainda não fui ouvido.
O ‘estudo’ não cumpriu os prazos estabelecidos, com prejuízo para as Festas Nicolinas.
Têm-se verificado burocracias e falhas, no domínio legal, a interferirem com o processo de candidatura.
Não aceito que tenha sido promovido um ‘estudo’ pago. Foram gastos, com ele, 50 mil euros, que seriam muito úteis para apoiar a cultura vimaranense.
Havia, em Guimarães, nicolinos/vimaranenses disponíveis para colaborar, nos sentidos que se pretendia, com conhecimentos, competências e vontade de servir, não requerendo qualquer pagamento – mas não foram considerados.

© Mais Guimarães

4 – O ‘estudo’ é útil, para as Festas Nicolinas, mas contém aspectos que, sendo revistos, beneficiarão a candidatura a Património Imaterial da Humanidade.
Verdadeiramente, não existe ‘um estudo’, mas textos independentes, de 5 autores, de que não foi feita uma interligação integradora, nem entre si, nem na complexidade das Festas Nicolinas.
São retomados, dentro deles, ‘tópicos nicolinos’ que repõem, com mais ou menos desenvolvimento, o que já se conhece e existe publicado.
A retomarem-se esses ‘tópicos’, havia modos de proceder mais ajustados às exigências e às necessidades da candidatura.
Mais que de reposições, as Festas Nicolinas estão necessitadas de novos ‘modos de ver’, a acrescentar aos já existentes – passando-se, por exemplo (no sentido de Th. Kuhn e de K. Popper), de um paradigma descritivo para um paradigma ‘compreensivo’, ‘interpretativo’, ‘inter-relacional’.
O futuro da investigação nicolina deverá seguir por aí.
O título não envolve (nem unifica) a totalidade do ‘estudo’ – passando a circunstância de as Festas Nicolinas só poderem ser… ‘em Guimarães’…
Procurou-se ‘encaixar’ as Festas Nicolinas num ‘modelo comum’ de festa, mas elas não cabem lá.
O ‘estudo’ nem sempre apresenta citações, e citações completas, e essa omissão dificulta a verificação de conteúdos, e, sobretudo, o imprescindível escrutínio e contraditório que todo o trabalho científico deve ter.
Há referências/citações que precisam de ser verificadas, quanto à coerência e ao rigor (por exemplo, os autores espanhóis).
O ‘estudo’ ganharia com uma apresentação sistematizada de conclusões e recomendações, dirigidas às exigências da candidatura.
5 – Não aceito, à volta do ‘estudo’, a colagem que foi feita das Festas Nicolinas aos excessos de ‘álcool’.
Foi o que a comunicação social mais destacou, a propósito do ‘estudo’.

© Mais Guimarães

a) Todas as festas representam um ‘corte’. A vida é dura (a do estudante, também) e tem de ser amenizada, ‘cortada’, de vez em quando. É isto que as Festas Nicolinas são.
O pretexto é São Nicolau. Os estudantes, iniciadas as ‘suas’ Novenas da Senhora da Conceição, partem para a diversão, o convívio, a alegria, a celebração da liberdade.
Começaram por ocupar dois dias, com a Festa: o Dia do Santo e a sua Véspera, recuando, depois, à sua Oitava (erguendo, aí, o Mastro Anunciador da Festa), e preenchendo os intervalos criados com realizações diversas, de muitas influências…
Foi constituída, assim, como tenho procurado mostrar, uma ‘semana académica’ única e original, “Nicolina” – dando origem às Festas Nicolinas.
O ‘estudo’ foca partes desta realidade, mas não as relaciona.
b) Na tradição nicolina, a expressão “beber um copo” é mais simbólica que real. Não significa cair de bêbado, mas criar ambiente para o convívio, a confraternização, a amizade – grandes valores nicolinos.

c) Na noite do Pinheiro, andam muitos milhares de zabumbas, pelas ruas de Guimarães, nem todos nicolinos. Há quem beba. Mas as percentagens que se têm revelado sobre consumo excessivo de ‘álcool’, nessa noite, são, proporcionalmente, muito baixas.

d) Infelizmente, o ‘álcool’ continua a dar de comer a muitos portugueses (agora já sem fome…). É um problema nacional e de saúde pública, por resolver, mas não restrito às Festas Nicolinas.

e) As pesadas praxes nicolinas (a que o ‘estudo’ dá atenção especial) que envolvem ‘álcool’ (e outras coisas mais…) estão fora da tradição nicolina. Os elementos da Comissão de Festas (alguns, menores) têm de ser impedidos de se apresentarem, publicamente, a beber, porque isso não é ‘nicolino’. A ‘pressão dos palcos’ combate-se com auto-domínio, e não com bebedeira.

f) Os casos de menores alcoolizados, na noite do Pinheiro, embora sejam percentualmente muito poucos, são sempre lamentáveis. Mas a responsabilidade não é das Festas Nicolinas.
Os jovens vimaranenses devem ser orientados para “fruírem” e “saborearem”, e não para “matarem”, as suas Grandes Festas – e isso cabe à família, à escola, à sociedade, à autarquia, às associações nicolinas… Havendo ‘casos’, alguém está a falhar.

g) Tem-se assistido a operações stop, pelas Autoridades, nas saídas de Guimarães, na noite do Pinheiro. E é sempre bom que elas aconteçam. Mas têm de ser completas. Quem verifica as ‘barraquinhas de bebidas’, que estão por todo o lado? Estão todas na legalidade? Só o lucro conta? Aparecendo menores alcoolizados, quem é responsabilizado?…

6 – Perante tudo isto, faz o maior sentido a propositura e aprovação (mesmo com recomendações e ajustamentos) das Festas Nicolinas a Património Imaterial da Humanidade.
O exigente processo de candidatura deverá pautar-se pela abertura, pela participação, pelo rigor, pela pluralidade.
Estão em causa os Nicolinos e Guimarães – e o extraordinário legado cultural que as suas Grandes Festas representam.

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