O BLOCO DE ESQUERDA E A DESOBEDIÊNCIA CIVIL

por CARLOS VASCONCELOS
Advogado

Quando surgiu, o Bloco de Esquerda afirmou-se como um partido de protesto, como um partido de contra- poder, como um partido radical. Cresceu, em grande medida, pelo seu trabalho de oposição, pela capacidade que teve em “agarrar” temas fracturantes e mobilizadores de parte do eleitorado, sem esquecer o papel importante e a qualidade política dos seus protagonistas: os fundadores, com especial destaque para Francisco Louçã, e os mais recentes, com especial destaque para Catarina Martins.

Com a formação do actual governo, o Bloco de Esquerda apostou em passar a ideia de ter empreendido um caminho no sentido de uma maior responsabilização. Passava a ter um papel na governação do país, nas opções políticas tomadas; afirmava- se, mesmo, disponível para integrar o governo.

Apesar disso, a sua matriz fundadora não se encontra de todo afastada. Na sua edição de 13 de Agosto, o semanário Expresso publicou uma notícia de uma página inteira sobre o 13.º acampamento dos jovens do Bloco de Esquerda, realizado entre os dias 3 e 8 de Agosto, em Coimbra.

A iniciativa, em que participaram jovens filiados e não filiados, mas também três deputados à Assembleia da República, é apresentada, na referida notícia, como um espaço de formação ideológica e de vivência. Até aqui, tudo bem. O problema é que, de acordo com a mesma fonte, em termos de formação, o destaque do encontro foi o workshop sobre desobediência civil, em que foram trabalhadas estratégias para fazer frente à autoridade, quando esta pretende remover manifestantes de certos espaços públicos.

Surpreendentemente, a notícia não originou debate público. Como se fosse normal que um partido político que sustenta um governo na União Europeia tenha como trave mestra da formação dos seus jovens a desobediência civil. Como se fosse normal que três deputados à Assembleia da República participem numa iniciativa que tem como principal destaque a formação na desobediência civil.

A falta de debate público sobre o assunto tanto pode querer dizer que não foi atribuída importância à questão, como pode querer dizer que não é suposto atribuir importância a alguns assuntos durante o mês de Agosto. Qualquer uma das opções é má.

Pese embora o esforço recente no sentido de o Bloco de Esquerda se afirmar como um partido político com vocação governativa, o que parece certo é que este continua fiel à sua matriz fundadora e radical.

 

 

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