O PS NUNCA EXISTIU

por CÉSAR MACHADO
Advogado

Quando há quatro anos foi criada a atual solução governativa, muitos a saudaram com entusiasmo. Desde logo os que apreciam alguma moderação nos propósitos políticos de quem governa, quem se situa no “centro esquerda”, com preocupações sociais, expectantes para ver um governo do Partido Socialista com apoio do partido que sempre o apodara de “inimigo”, o Partido Comunista, com forças conjugadas, igualmente, com o esquerdismo emergente e mais festivo do Bloco de Esquerda, militante permanente das “causas fraturantes” que permitam “mudar de vida”.

Atenta a insensibilidade singular do governo que terminara funções no que se refere às questões sociais e às causas dos mais desfavorecidos, a possibilidade de se recentrarem as políticas governativa viradas para esses sectores pareceu ser o caminho para se obter uma paz social indispensável à conquista de outros objetivos. E é bom dizer que não poucos na área do partido socialista preferiram esta solução de governo minoritário, com apoio dos “parceiros” à esquerda, a um governo de maioria absoluta.

Pela primeira vez, vinha para o “arco governativo” -ainda que por via do apoio parlamentar- uma esquerda tradicionalmente do protesto e do contra. Agora, porém, já não seria apenas votar “não”; tratava-se de poder atuar, de ter iniciativa legislativa consequente, agora à sua mão; surgiam no horizonte possibilidades de acordos com os dois parceiros, a comprometerem-se com a governação em muitas áreas, comprometendo igualmente o curso político da governação. Seria bom ter esta esquerda dentro da solução, defendeu-se. Como sucedeu.

Da direita menos inteligente –a começar pelo então Presidente da República- surgiram reações das mais absurdas. O PR chegou mesmo a esboçar uma tentativa de recusar dar posse a um governo apoiado por um “partido anti europeu”, assumidamente contra as forças do mercado e, por isso, assustador e afastador dos investidores internacionais, coisa que a União Europeia nunca permitiria! (-hoje pode parecer mentira mas uma passagem pelos jornais da época confirma-o, foi mesmo assim. Alguém o terá “desenganado”, certamente!).

Quatro anos volvidos regista-se a subida em montantes nunca antes praticados do salário mínimo nacional e das pensões, juntamente com a criação de 350.00 novos postos de trabalho -que fariam baixar a taxa de desemprego para níveis históricos, tudo contribuindo para o aumento do poder de compra de quem menos podia, acompanhando a generalizada subida da procura e consumo internos. O sucesso repetido das exigentes políticas de execução orçamental, o crescimento de todos os índices económicos, o reconhecimento internacional, sobretudo das instâncias europeias, e as sucessivas reclassificações para melhor da nossa dívida externa, tudo viria a traduzir-se num enorme crescimento de um decisivo fator: – a confiança. Corolário de tudo isto, o investimento internacional cresceu 33% face à legislatura anterior.

Onde outros viram “o diabo” saiu, afinal, um tempo de prosperidade, paz social e boa governação. E tudo isto com “as esquerdas” no poder, que, afinal de contas, não só não assustaram os investidores estrangeiros e parceiros da UE como, pelo contrário, foram por eles amplamente elogiados e indicados como exemplo, a muitos níveis.

Sucede que, quando tudo parecia não correr mal… damos com o BE, via Catarina Martins, a defender que “a história destes quatro anos é a história da tensão entre o PS e os partidos à sua esquerda”. E com Jerónimo de Sousa a sentenciar que a atual fórmula governativa não se repetirá porque “a conjuntura de há quatro anos não é repetível”.

É certo que ao longo da legislatura, PCP e BE, fustigaram o PS sempre que surgiam medidas menos positivas, reivindicando a autoria das mudanças quando a coisa era favorável. Em tantas ocasiões o discurso começava pelas repetidas fórmulas “Se não fôssemos nós…”, “Por nossa iniciativa…”. Mais que para a direita, foi para o PS que os seus parceiros apontaram o “fogo amigo”, ao longo da governação, mas sobretudo agora, como se viu no recente debate a seis na televisão.

Impõe-se perguntar:- Afinal quem governou? Com acordos parlamentares, sim senhor, mas…não terá sido o PS? -Não, o PS nunca existiu. Querem agora dizer-nos que “coisa que não interesse é da conta do PS”. Da nossa conta é a parte boa. Más contas estas, num tempo de boas contas na governação. Como é sabido, as boas contas fazem os bons amigos. E quem assim faz contas…

Seria mesmo necessário este “fim à vista? Feitas assim as contas, para os adeptos de uma certa moderação, paz social, políticas sociais efetivas, parece ficar a restar uma só uma solução. E essa não será, com toda a certeza, votar em quem, na primeira oportunidade, sai a tirar o tapete a um governo de centro esquerda, do Partido Socialista. O futuro dirá quem tinha razão.

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