O regresso das plateias e dos palcos: entre incertezas, agendas vazias e vidas em suspenso

Instituições, programadores e associações culturais vimaranenses continuam a trabalhar para que, mal se possa, se regresse aos concertos, às peças de teatro e aos espetáculos de dança com a normalidade possível. 01 de junho foi a data determinada para a reabertura de cinemas, teatros, salas de espetáculos e auditórios; contudo, haverá lugares marcados e lotação reduzida. Certo é que este será um período difícil.

© Carolina Ribeiro/ Capivara Azul

Entre analogias como “mares nunca antes navegados”, “vidas suspensas” e “terreno desconhecido”, há uma só certeza: tudo é, agora, incerto. E expressões como “não se sabe ao certo” refletem a incerteza que se vive em todos os setores, sobretudo no cultural. O isolamento não durou só duas semanas, as restrições alongar-se-ão calendário fora e pouco ou nada se sabe, porque tudo é novo. Perante um vírus que esvaziou agendas culturais, como se gere uma situação nunca antes vivida? “É um desafio para todos”, diz José Manuel Gomes, programador dos Banhos Velhos e dos festivais L’Agosto e Suave Fest. Para Luísa Alvão, presidente da associação cultural Capivara Azul e produtora e programadora do Shortcutz Guimarães, a logística “não é chata, mas antes complicada”. Do lado d’ A Oficina, mantém-se esta ideia: “É um processo moroso, muito trabalhoso”, aponta Ricardo Freitas, diretor executivo da cooperativa.

N’ A Oficina, há várias abordagens a estudar e medidas adequadas a cada um dos espaços. “A nossa perspetiva é regressar de forma paulatina ao Centro Cultural Vila Flor [CCVF]”, começa por explicar o diretor executivo. É provável que, mediante a evolução da pandemia, o CCVF só abra portas “em setembro”. “A Casa da Memória, o Palácio Vila Flor e o Centro Internacional das Artes José de Guimarães [CIAJG] abrirão antes dessa data, em princípio”, adianta. O motivo? “São espaços amplos, a entrada do público será faseada quer para visitas individuais quer para visitas de grupos.” Ainda assim, aguardam-se decisões do Governo para analisar ainda melhor o regresso. A redução da lotação das salas — através de uma organização diferente que prevê a disposição do público em intervalos de filas e de lugares — poderá ser um dos caminhos a seguir, mas, para Rui Freitas, a prioridade é garantir que o regresso seja “organizado, tranquilo e em segurança” para os trabalhadores d’ A Oficina e, claro, para o público.

© Banhos Velhos

Fazer com que o público se sinta seguro poderá, também, ser um dos maiores desafios. O medo de sair à rua poderá vir a ser difícil de contornar. “Há este mecanismo psicológico de que o perigo está na rua. E inatividade pode fazer com que as pessoas percam o hábito de ir a sítios”, considera Luísa Alvão. A presidente da associação cultural vimaranense é da opinião que pode ser criado o hábito de consumir cultura “através do telemóvel ou da televisão” e que tal “vai criar entropias para ter uma vida cultural mais ativa e participativa”. Já José Manuel Gomes crê que “as pessoas vão valorizar mais por se terem visto privadas”. No entanto, o programador cultural concorda que “haverá, inicialmente, um limbo que teremos de ultrapassar, o medo, portanto a valorização pode não acontecer logo”. No entender de Ricardo Freitas, “na área do espetáculo, é necessária uma ligação presencial entre artista e público, palco e plateia”.

A cultura em casa

Ainda assim, outra questão levanta-se: a gratuitidade inerente aos diretos partilhados nas redes sociais, que não se revela sustentável a longo prazo para artistas — e não só, já que técnicos de som ou de luz, bem como outros trabalhadores do meio, ficam sem rendimentos se a norma for, durante muito tempo, o espetáculo caseiro e gratuito. Assistindo-se a “uma grande mobilidade da comunidade artística no início” das medidas de isolamento social através de diretos nas redes sociais por parte de artistas, instituições ou companhias, Luísa Alvão aponta que, agora, é tempo de “encontrar uma resposta”: “Os artistas têm de continuar a produzir e nós a consumir.” Ricardo Freitas garante que a política d’ A Oficina não passa por “atuar de forma gratuita” e que essa não é uma opção “para continuar”: “Se inicialmente foi uma resposta que quiseram dar, de forma imediata, também há a discussão de que os espetáculos têm de ser pagos.” José Manuel Gomes vê, por outro lado, uma oportunidade nesta solução temporária: um artista pode fazer com que “as pessoas não se esqueçam dele” e promover-se, havendo “retorno mais tarde”. Todavia, o programador reconhece que a pandemia “veio a pôr a nu as dificuldades e as poucas condições que a cultura em Portugal tem”. “Para quem vive exclusivamente disto, será um período muito difícil”, frisa.

© João Bastos/ Mais Guimarães

O presidente da Câmara Municipal de Guimarães, Domingos Bragança, e a vice-presidente e vereadora da Cultura, Adelina Paula Pinto, reuniram já com vários agentes da cultura vimaranense. O foco, de acordo com o comunicado divulgado pelo município sobre a reunião, são os grandes eventos da cidade. E isso, para José Manuel Gomes, “é bom”: “Saber que essa conversa existiu é bom, mas isto exige uma resposta a nível nacional, que não existe, para já. E estou desiludido com o que se tem vindo a fazer.”

Luísa Alvão aponta que é necessária uma “maior mobilização” no que diz respeito às artes: “Há pessoas que têm maior e menor visibilidade.” “O público percebe que os músicos ficaram sem trabalho, mas não têm noção das pessoas que trabalham para que concertos existam e festivais aconteçam. Quem tem mais voz são os artistas e, dentro da comunidade artística, os músicos têm uma situação de maior visibilidade”, acrescenta. O mesmo aplica-se ao cinema: “As salas estão fechadas, o investimento no cinema está parado, as rodagens estão paradas. As pessoas precisam de dinheiro para viver e ninguém sabe quando é que se pode continuar e quais as medidas de segurança.”

Ajustar a agenda

A Capivara Azul anunciou, nas redes sociais, que a programação delineada e orçamentada para este ano se mantém; contudo, “as datas dos espetáculos serão reajustadas quando for possível voltar à normalidade”. “Há 4 concertos planeados, assim como o segundo ano do ciclo de programação de músicas do mundo Terra, a que daremos seguimento assim que seja possível”, lê-se na publicação partilhada pela associação. No que diz respeito ao Shortcutz, esperava-se que “duas semanas” bastariam para que se retomasse o trabalho. Não foi o caso: agora, o Shortcutz passa “curtas antigas”, disponíveis nas telas do público, que consome cultura em casa. “O Shortcutz vive muito de ter pessoas e é isso que faz sentido. O que vai acontecer depois? Uma sessão com cinco ou dez pessoas, porque a sala não pode ter muito mais? Não sei se faz sentido.”

A incerteza também tolda a resposta de José Manuel Gomes quanto ao L’Agosto: “Não há nada muito definido.” Perante uma situação que pode mudar “a qualquer momento”, optou também, em conjunto com a direção da Taipas Termal, adiar a programação cultural de 2020 dos Banhos Velhos para o ano seguinte. Contudo, não se põe de parte a realização de algum evento no final do verão, dependendo da evolução da pandemia.

© Mais Guimarães

Quanto à Oficina, e segundo o diretor executivo, alguns espetáculos passaram para o último quadrimestre de 2020, ao passo que outros ocorrerão no primeiro trimestre de 2021. Apenas dois espetáculos foram cancelados. E “há uma grande probabilidade” de Festival Manta, que marca a rentrée cultural da cooperativa, não se realizar este ano. No que diz respeito a finanças, “a Oficina está a manter os seus compromissos”, garante. O pagamento dos espetáculos que passaram para o primeiro trimestre de 2021 “está escalonado para 2020”, ao passo que os eventos cancelados foram pagos na íntegra.

Nesse plano, a Capivara Azul adiantou o valor do cachet para garantir “o rendimento aos artistas” com concertos contratualizados. “Temos usado e usaremos os nossos canais de comunicação para divulgar todas as iniciativas de apoio ao meio artístico e cultural que sejam úteis para o apoio dos profissionais da cultura. A Capivara Azul tem as suas portas abertas para o diálogo com os agentes artístico e culturais para encontrar novas formas de apoio ao setor, seja com ações a tomar durante o surto de covid-19, seja no período seguinte”, lê-se na publicação partilhada nas redes sociais da associação.

Não se sabe quando é que assistiremos ao regresso dos eventos culturais e em que moldes, mas Ricardo Freitas acredita que esta “pausa”, no que diz respeito à “apresentação”, pode trazer “projetos de maior qualidade artística, mais pensados e mais trabalhados”. E que tal “será positivo”. José Manuel Gomes perspetiva que, em 2021, “a cultura poderá ser vista com outros olhos pelo público, que muitas vezes se queixada de dar cinco euros” por um espetáculo. “Vão passar a valorizar mais. Quero muito acreditar nisso”, conclui. Já Luísa Alvão diz que a prioridade é manter a calma e “pensar na saúde pública em primeiro lugar”. “E tentar, quando houver respostas, criar.”

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