OBRIGADO

por CÉSAR MACHADO
Advogado

Não se esperaria de um jovem com estudo acompanhado por Álvaro Salema, Agostinho da Silva e Álvaro Cunhal, coisa diferente de uma enorme curiosidade por toda a cultura, saber, artes e pensamento, como não se esperaria que deixasse de ousar pensar pela sua cabeça. Não surpreende que o contacto precoce com os mais destacados resistentes à ditadura, desde logo através de seu pai, João Soares, o colocasse no epicentro do combate político, ainda bem jovem. Com menos de vinte anos na década de quarenta, não admira que tenha aderido aos então generosos ideais comunistas e entrasse na militância no Partido Comunista Português, nele vendo o caminho mais justo para o futuro, como muitos humanistas e combatentes pela liberdade, num tempo em que os feitos de Estaline eram ainda desconhecidos. Não abdicar de pensar pela sua cabeça, levou-o, ainda muito jovem, a romper com o PCP, quando praticamente o “obrigaram” a dar conta ao General Norton de Matos da sua ligação ao partido e da sua condição de seu “representante” no mais fechado círculo da organização da campanha presidencial. Esta comunicação – que cumpriu com a advertência de que seria a última vez que obedecia a uma ordem “superior” do partido, que assim deixava para trás – e lhe custou a ira e rejeição do candidato- constituiu uma obrigação imposta pela sua consciência, por entender que havia chegado àquele cargo por força da organização do PCP, mais que pelos seus méritos próprios. Não se estranha que tudo isto o tivesse colocado num outro lado da resistência. Sempre na luta, mas com um caminho de combate a pensar no presente e no futuro; contra uma ditadura no terreno, mas com os olhos num regime em que o valor máximo da liberdade não estivesse nunca em causa. A começar na liberdade individual de ter o seu próprio pensamento. A lembrar Antero, que leu muito “Não é tudo a liberdade / Mas é o primeiro passo / Para que tudo se alcance / De tudo o que é justo e santo”. Na fundação do Partido Socialista, em 1973, entre dezenas de votos a favor, houve sete contra a transformação da Acção Socialista Portuguesa em partido, naquele momento. Um foi de Maria de Jesus Barroso, grande mulher, grande amor da sua vida, possuidora de uma cabeça própria. Votou contra a posição de Mário Soares, não contra Mário Soares. A liberdade cumpre-se assim. Não ocorrem posições de Mário Soares que significassem o sacrifício da liberdade de alguém, ou a tentativa de coartar o direito do outro à sua opinião, às suas posições, às suas críticas, ainda que fosse ele, tantas vezes, o seu destinatário. Não ocorre que Mário Soares tenha amesquinhado um desavindo, lançado um acinte pessoal. De “pontes” feitas com adversários do passado não faltam exemplos. A liberdade pela qual combateu – antes e depois do 25 de Abril- queria-a para si e para os outros. Não lembra outro político a quem melhor assente a mensagem de Miguel Torga ”Livre não sou, mas quero a liberdade / Trago-a dentro de mim como um destino”. A desarmante humildade com que confessa, no final do segundo mandato presidencial, que não estava preparado para exercer as funções para que o chamaram no início do processo democrático, porque a sua cultura era a de um oposicionista, de um lutador que havia sido toda a vida, mais que de governante, torna-o ainda mais como nós, um de nós – o melhor de todos, em todos estes anos. Como Bertold Brecht tinha razão – “Há homens que lutam um dia, e são bons / Há outros que lutam um ano, e são melhores; /Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;/ Mas há os que lutam toda a vida / Esses são os imprescindíveis”.

 

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