Os que não contam – breves reflexões sobre os migrantes que chegaram a Ceuta

Por Isabel Estrada Carvalhais,
Eurodeputada

Depois de termos visto o sofrimento de milhares de migrantes chegados a Ceuta, não deixa de ser curioso como a narrativa dos últimos dias tende a alterar-se …

De repente, é como se tudo não tivesse passado de um bando de crianças e jovens marroquinos que, num misto de inocência e de rebeldia, se lançou ao mar na esperança de ver Messi e Ronaldo jogar à bola em Ceuta.

Que houve gente adulta, mal-intencionada, a contar-lhes uma qualquer história, já ninguém duvida. Afinal, por esta altura já todos perceberam como estes jovens e crianças foram parte da massa humana que Marrocos usou como arma de arremesso político contra Madrid, indignado que o reino estará pelo facto de Espanha ter recebido Brahim Gahli, o velho líder da Frente Polisário que luta há décadas pela independência do povo do Saara Ocidental.

E enquanto se investe na análise das pressões políticas de Rabat sobre Madrid e sobre a UE, parece que já não importa perguntar, afinal, quem são essas crianças e jovens marroquinos? O que se oculta na história de cada um, para lá do que é visível? Quanto de espontâneo e de organizado se esconde nas suas trajetórias? O que estará a ser verdadeiramente feito para garantir a sua segurança futura, para que não caiam na marginalidade, na mendicidade, nas redes de exploração e de tráfico humano, na radicalização?

Num mundo de histórias com finais felizes, cada um só teria ido a Ceuta para ver craques de futebol. Tudo não teria passado de um equívoco, de uma aventura de Pinóquio, e cada um voltaria aos braços e abraços da sua família, no espaço que quisessem chamar de casa, que os fizesse a todos mais felizes. Mas no mundo real, o mais certo é serem tão só miúdos pobres, de famílias pobres, de casas pobres em bairros pobres, que vão acabar sendo devolvidos a conta-gotas, arrastando-se durante meses entre espaços institucionais, à espera de uma resposta à sua condição de ‘menores ilegais’. E isto se, até lá, não conseguirem escapar para iniciar uma vida de incerteza e perigo. Cada dia nesse limbo, sem família, sem escola, sem real integração, é apenas mais um dia numa ficção sobre uma suposta felicidade de capitães de areia, que terá custos elevados e que não serão apenas pagos por Espanha.

E sobre os milhares de migrantes subsaarianos? Quem se importa? Também foram a Ceuta para ver Ronaldo e Messi? Não. Tem de se lhes inventar história melhor, ou então, gradualmente, ignorá-los, retirá-los do foco das objetivas. Para mais, a larga maioria já foi devolvida a Marrocos, pelo que o seu rasto diminui. Longe da vista…

Mas, a verdade é que todos deveríamos estar a falar deles. Marrocos há anos que é procurado por milhares de migrantes da África Subsaariana, que por essa via tentam chegar à Europa (através de Ceuta, que sendo uma cidade autónoma espanhola, se situa, contudo, do lado do continente africano, tendo fronteira terrestre com Marrocos). Esses milhares de migrantes apresentam uma enorme vulnerabilidade, porque sofrem a agravante de serem cronicamente maltratados pelas autoridades marroquinas. Enviar migrantes subsarianos para Marrocos, é por isso enviá-los para um destino de absoluta incerteza. Não são de hoje os relatos sobre os ‘desaparecimentos’ de migrantes subsaarianos que entram ou são devolvidos a Marrocos. O Atlas é grande e os migrantes subsaarianos são a última das preocupações para as autoridades do Reino. Por isso, a imagem daquele homem que chora agarrado a uma jovem voluntária espanhola, e que depois, relata ela às câmaras, terá procurado autoflagelar-se com pedras contra a cabeça, no desespero ante a iminência da sua expulsão, acaba por ser uma imagem que ganha todo um outro sentido quando pensamos no destino de tantos outros migrantes subsarianos, desaparecidos nos caminhos do Atlas. Qualquer recondução forçada destas pessoas para Marrocos não pode por isso ser analisada apenas à luz de questões de soberania nacional entre Estados, de defesa e segurança de fronteiras. Tem de ser também analisada à luz do que significa em matéria de cumprimento dos Direitos Humanos. E essa análise leva-nos, necessariamente, a outro ponto: o de uma reflexão lúcida sobre a cintura de segurança que a UE tem construído, por via da sua Política de Vizinhança, a expensas de acordos bilaterais com países que têm uma relação no mínimo complexa, para não usar outros adjetivos, no respeita ao cumprimento dos Direitos Humanos.

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