PARTIDAS E CHEGADAS

por ANTÓNIO ROCHA E COSTA
Analista Clínico

Um dos mais conhecidos jornais de Guimarães, que foi durante muitos anos uma referência para uma determinada camada da sociedade vimaranense e que, tal como outros, não resistiu às vicissitudes do tempo, deixando de se publicar muito recentemente, exibiu em tempos idos uma coluna intitulada “Boletim Elegante”. Essa coluna que fazia as delícias dos que nutriam um apreciável interesse pela vida alheia, tinha como subtítulo “Partidas e Chegadas”, e aí se registavam relatos como os que se seguem: “Partiu para veraneio na estância balnear da Póvoa de Varzim o nosso ilustre conterrâneo, senhor fulano de tal, acompanhado de sua extremosa esposa e respectivos rebentos. Ao casal, bem como aos rebentos, desejamos uma boa e retemperadora estadia.” Ou então: “Acabado de chegar de Londres, onde desempenha o cargo de embaixador de Portugal, esteve na nossa redacção o ilustríssimo senhor Doutor fulano de tal, que vem passar umas merecidas e repousantes férias na sua quinta, em S. Torcato”.

Estas crónicas mundanas, que constituíam autênticas pérolas, eram, com frequência, fonte de inspiração dos alunos finalistas, que, com a devida adaptação, as incluíam no reportório humorístico das récitas de fim de ano do Liceu de Guimarães, daí resultando notícias do género: “Partiu a clavícula o Exmo. Senhor fulano de tal, que após intervenção cirúrgica, regressou ao aconchego do seu lar”; “chegou a roupa ao pêlo à sua mulher (ainda não se falava de violência doméstica) um conhecido empresário vimaranense, tendo a infeliz senhora ficado muito combalida, pelo que teve que recorrer às urgências do hospital da Misericórdia, de cuja irmandade é provedor o Director deste jornal”.

Com o passar do tempo as coisas foram evoluindo e agora, quatro ou cinco décadas depois, continuam a registar-se “partidas e chegadas”, só que em versão actual. Se por hipótese o escriba destas linhas fosse incumbido pelo Director do jornal “Mais Guimarães” da tarefa de recriar a supracitada coluna e, com a devida vénia, transpô-la para este semanário, a narrativa seria mais coisa, menos coisa, nos precisos e seguintes termos:

PARTIDAS: Um compulsivo amante de selfies, partiu acidentalmente a estátua de D. Sebastião, que ornamentava o frontispício da estação do Rossio, em Lisboa, tendo a mesma ficado reduzida a cacos. Este acto tresloucado, que revela uma grosseira falta de respeito pelo património cultural, poderia liquidar para sempre a representação material do sonho acalentado há séculos pelos portugueses de ver chegar D. Sebastião numa manhã de nevoeiro. Valeu-nos a existência de uma réplica da escultura destruída, que entretanto foi localizada.

CHEGADAS: Proveniente de Santa Apolónia e com paragem nas principais estações, chegou à estação de Guimarães, no primeiro dia de Maio, o comboio alfa-pendular, que aqui terminou a sua viagem inaugural. A bordo trazia eminentes figuras, como presidentes de Câmara, antigos ministros e conhecidos filhos da Terra. Em tempo de austeridade, não houve foguetório nem banda de música, a saudar a chegada do comboio, tal como terá acontecido há muitos anos, quando chegou pela primeira vez a Guimarães um “bicho” fumegante alimentado a carvão, serpenteando ao longo das margens do rio Vizela. Mesmo assim e apesar da recepção um tanto pindérica, fica registada para a posteridade a efeméride.

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