PASSA MAL QUEM ASSIM PASSA

por CÉSAR MACHADO
Advogado

Uma difícil interrogação frequentemente colocada aos jornalistas consiste em saber se devem ser noticiados, com abundância e repetição, acontecimentos bizarros, resultantes de comportamentos desviantes, por ser facilmente demonst rável que a amplificação mediática funciona como factor de motivação de tais comportamentos. A repercussão televisiva, em particular, tem sérios resultados incentivadores do prevaricador.

Coloca-se a questão de saber se a partir de um certo nível não haverá uma quase “exploração” da situação em análise, de saber se é legítimo continuar a transmitir, percebendo-se que algo não está bem com o sujeito/ agente da notícia.

Provavelmente, não estará a ponderar-se devidamente essa questão no que respeita à inusitada e sucessiva exploração noticiosa das intervenções do Dr. Passos Coelho. Já se percebeu que algo não está bem com a pessoa. Não se trata já de saber se percebeu ou não que já não é primeiro-ministro. Isso não seria um problema. Em todo o caso, não ajuda nada a volúpia com que as televisões transmitem todas as suas opiniões, o modo como todos os dias, sem excepção, encontram motivos para captar as suas considerações. Essa cobertura, normalmente destinada ao primeiro-ministro, pode ajudar a manter alguma confusão no do próprio.

Neste nosso curioso país, tivemos um caso sem paralelo de um ex-primeiro-ministro que julgou que ainda o era, durante um bom período de tempo depois à sua exoneração. Os ministros continuaram a ira despacho a São Bento. O Diário de Notícias montou uma primeira página falsa com uma fotografia do ex-governante a receber um alto dignitário estrangeiro , para efeito de ser lida pelo suposto governante. Claro que este caso nada tem a ver com o presente. É só mesmo porque não convêm esquecer.

Aqui chegados, certo é que, como já se viu nitidamente, a situação piora a cada dia que Passos passa. Passa mal quem assim passa. Cada aparição nas televisões consegue ser pior que a anterior, e o cenário começa a ser preocupante. É certo que as coisas não correm bem de lado nenhum. E o destino e mau humor são cada vez mais patentes nas intervenções que as televisões nos dão a ver. Então envia-se uma piada velada ao Presidente da República reclamando da sua alegada boa disposição e constante inspiração para o optimismo? Claro que teve resposta imediata de Belém. A um responsável político não se pede que seja sisudo, que transmita ”má onda”, como lhe foi recordado. Passos passa a vida sisudo, anda zangado com o mundo. E tão zangado anda que já nem suporta quem anda diferente. E depois dá-lhe para o torto, para o azedume, para o mau perder. Atira para o Presidente da República, atira para o primeiro-ministro (o real), dizendo que se fosse com ele não iria, que nunca inaugurou obra nenhuma, coisa logo contrariada por imensas imagens suas a cortar fitas inauguratórias, lança suspeitas sobre a honorabilidade do ministro da educação sem apoio num único facto… são tantos os episódios que começamos a não recordar de todos.

Isto está cada vez pior e as televisões sabem. De cada vez que apontam um microfone e uma câmara ao Dr. Passos Coelho vai sair coisa ruim. Já perceberam que algo não está bem. Não seria de ponderar se esta fase infeliz não estará, porventura entre outras razões, a ser motivada pela pouco comum ampliação televisiva de todas as suas intervenções? Não estarão as televisões a explorar este fenómeno?

 

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