Pedro Emanuel Pereira: “O artista é um reflexo da vivência num determinado período”

O novo álbum de Pedro Emanuel Pereira chama-se “Sons da Minha Terra” e é uma “novidade” na carreira do pianista vimaranense, que apostou nas suas próprias criações. O Mais Guimarães falou com o músico, que, entre cancelamentos e uma nova realidade, tem apresentado o seu novo trabalho através das redes sociais.

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Mais Guimarães: Que novidades nos traz “Sons da Minha Terra”?

Pedro Emanuel Pereira (PEP): Este álbum é uma novidade no meu percurso, na medida em que apresento obras que são cem por cento da minha autoria. Apresento-me não só na condição de intérprete, mas também de compositor e criador. E estas obras são, de certa forma, inspiradas nas minhas raízes. Para além de incluírem melodias de autores portugueses, no caso do José Afonso ou com o Hino a Guimarães, também o ciclo do álbum, que é inspirado na música tradicional portuguesa, torna este disco muito peculiar. Porque fui beber muito das nossas raízes, da minha infância, do lugar onde nasci.

MG: Qual a reação que tem recebido a estes sons da sua e nossa terra?

PEP: Tive um concerto no ano passado, em Marselha, em que, na primeira parte, interpretei obras de compositores russos, alusivos ao meu primeiro disco, e na segunda parte interpretei temas da minha autoria. No bis, fiz um pequeno improviso sobre temas do Zeca Afonso, algo ali à volta dos cinco, seis minutos. O que aconteceu é que, no final do concerto, a maioria das pessoas estava-me a pedir discos alusivos à segunda parte do concerto. E isto fez com que eu pensasse: por que não fazer um projeto apenas de obras da minha autoria? E isto deixou-me, de certa forma, com alguma inquietação. Dediquei muita energia ao primeiro disco, que acho que foi muito bem conseguido, com obras extremamente desafiantes, mas este projeto, de certa forma, ganhou um outro calo, uma outra força, a partir do momento em que entendi qual era a reação do lado de lá. E sempre foi muito calorosa. Há sempre muita curiosidade com autores portugueses. E, neste aspeto, entendo que este projeto tem uma margem muito boa de ser aceite não só pelos portugueses, mas também lá fora, em diversos pontos do globo, sem dúvida.

MG: Que memórias sonoras tem da cidade de Guimarães?

PEP: Posso dizer que, a nível de som, o que mais me dá saudade da minha terra é precisamente o toque dos sinos. Recordo-me de estar a estudar na Francisco de Holanda, e até mesmo no Conservatório, e de hora em hora poder escutar os sinos. E isso é algo de que sinto nostalgia. Caminhando na cidade, escutamos sempre os sinos da igreja. O que acontece na Basílica de São Pedro é que temos uma melodia pagã, que não é cristã, e soa nos sinos de uma igreja. Não se vê em muitos lugares e, nesse aspeto, torna-o especial.

MG: Este álbum chega em plena pandemia. Como se gere o lançamento de um disco nesta altura?

PEP: Esta é uma situação completamente nova. Como muitos colegas de profissão, a única solução que tive foi reinventar-me. Porque todos os meus concertos até ao final de julho, por razões lógicas, estão cancelados, e esta pandemia surgiu na altura em que tinha mais concertos. Estou a conseguir reprogramar alguns para 2021, mas, no caso de outros, não estou a conseguir reagendar porque as salas de concerto já têm a sua agenda programada para 2021. E a solução óbvia foi focar-me no universo digital. É, sem dúvida, algo extremamente desafiante para mim. Entendo que o contacto com as pessoas no mundo digital seja imprescindível para um artista nos dias de hoje, mas é algo com o qual nunca lidei com todo o meu espírito e entrega. E, neste momento, estou a fazê-lo de uma forma mais devota, mais dedicada, porque é a única forma que tenho de poder comunicar com as pessoas.

MG: Estamos perante uma fase difícil para todos, e o mundo artístico acaba por sofrer com estas restrições. Há trabalhadores que, do nada, ficaram sem qualquer fonte de rendimento…

PEP: Vai ser muito difícil. A realidade é que os músicos, os técnicos de som, de luz, os editores, os managers, enfrentam o mesmo: tudo está parado. E estamos a falar de um setor em que muita gente trabalha a recibos verdes ou com contratos precários. Nesta situação estão muitos músicos de diversas áreas, mas também bailarinos, atores, pintores, escultores e também quem está por detrás do palco. Quanto a perspetivas, por um lado, tenho uma sensação que me diz que quando tudo isto passar, as pessoas vão ter uma sensação enorme de poder consumir arte, cultura, entretenimento, de estar juntas, de jantar fora, de ir aos cinemas, aos cafés, aos estádios. E isso vai ser muito positivo porque vamos ter muita procura. Por outro lado, sinto que vai haver uma certa dificuldade em encontrar um encaixe para toda esta situação. As salas de concertos têm a sua programação já adiantada com muita antecedência e fica muito difícil quando paramos quatro, cinco ou seis meses e queremos colocar essa atividade nos anos seguintes. Vamos ter de ser flexíveis e tolerantes e compreender que vamos passar por algo de novo que nunca vivemos nas nossas vidas. O importante é estarmos recetivos ao que está por vir e pensar que será algo melhor.

MG: Mas acha que, no pós-pandemia, assistiremos a mudanças profundas neste setor?

PEP: Sinceramente, sinto que isto vai afetar todos os setores. E a maneira como nós vivemos o mundo, de certa forma, vai ter repercussões filosóficas, éticas e na forma como encaramos a vida. Nesse sentido, a arte e a cultura vão ter mudança de paradigma, como tudo. A primeira grande mudança é na maneira como olhamos para nós próprios, o propósito de estarmos aqui, e a maneira como encaramos o outro e toda esta nossa caminhada. E isso levou um abanão neste período, que é de certa forma triste, mas que nos permite pensar e meditar sobre o nosso propósito.

MG: E isso influencia a criação artística…

PEP: Sem dúvida. Os artistas nada mais são que o reflexo de uma sociedade e de um período da história. Se quero perceber como é que as pessoas viviam no século XVII, posso escutar a música de Bach e visualizar obras de arte desse período, assim como ler obras literárias. O artista é um reflexo da vivência num determinado período. Reconheço que, não só esta situação, mas como outras, vão ter repercussões na minha arte, mas também nos pintores, nos poetas, nos dramaturgos. Obviamente que vai ter impacto naquilo que é a criação artística. E daqui a 100 ou 200 anos, quiçá um ou dois artistas que ficarão na história serão recordados por aquilo que estamos a atravessar.

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