Portugal à mesa com Mário Moreira | Alimentação e Amor

Crónica. Portugal 900 Anos 900 Sopas. Duas palavras simples, intrinsecamente ligadas, e que determinam toda a nossa vida. Até podemos pensar nelas em separado, mas a força do seu significado é tremendamente importante porque sem elas não se pode viver. Desde o nascimento, com o leite e o colo da mãe, até chegar a morte, com o aconchego dos que nos cercam, estas duas singelas palavras não se podem separar.

@ Mário Moreira

Sem elas a vida não existe. Porque se é a comida que alimenta o corpo, para proporcionar a energia necessária para viver, o amor alimenta a alma, indispensável para nos orientarmos na procura da felicidade.

E a vida só é vida, se for vivida em felicidade. Como as forças da natureza não permitem que a felicidade seja permanente e constante, se houver saúde, será sempre mais constante encontrar momentos de felicidade. E são esses vários momentos de felicidade que constituem uma vida feliz.

Por exemplo: partilhar uma refeição num restaurante acolhedor ou cozinhar em casa, para as pessoas que amamos ou simplesmente estimamos, é uma linguagem universal de carinho, memória que perdura e partilha social, que vai para além das necessidades biológicas e vai inundar de prazer o coração de todos os envolvidos.

Sem querer retirar o mérito aos novos protagonistas da “modern cuisine”, agora muito em voga, “Os Chefs”, (alguns com excelente formação), trocar o simples, claro e por todos entendível termo, “refeição”, pela inexpressiva designação de “experiência degustativa”, ou o enigmático momento, não passa de um exagero que leva muita gente a ter receio de arriscar e que põe em causa o princípio universal de que a Humanidade evoluiu à volta de um prato de comida.

Uma cozinha tradicional não pode ser um sofisticado laboratório de investigação científica. Um espaço de trabalho, sim, um local de conhecimento, claro, uma constante preocupação com a qualidade e origem dos ingredientes, inquestionável, tempo, muito tempo, indispensável, respeito pelas tradições, naturalmente, e amor, muito amor. Desde logo o amor-próprio, depois o amor pelos que nos rodeiam, e, por fim, o amor pela mãe Natureza.

As coisas simples são sempre as melhores, pelo que complicar pode ser um caminho arriscado para se seguir. Tomemos como exemplos; o Caldo Verde ou as Papas de Sarrabulho do Minho, a Sopa do vidreiro da Marinha Grande, a Caldeta de Peixe do Alandroal, a Açorda de Évora, a Sopa da Pedra de Almeirim, a Sopa de Peixe da Póvoa de Varzim, a Sopa de Casamento de Almalaguês a Sopa de Feijão no forno de Cimiates ou o Caldo da Glorinha da Campeã.

No Património Gastronómico de Portugal, muitas são as opções, difícil é escolher. Qualquer uma, quando feita com os ingredientes certos, trabalhados por mãos certas, torna-se facilmente num prato principal, digno de ser agraciado pelas forças do Universo.

Caldo Verde do Minho

Levamos ao lume uma panela com 1,5 l de água temperada com sal, 4 dentes de alho, 2 cebolas médias e 5 batatas grandes, tudo descascado e cortado em bocados, juntamente com 200 gr de toucinho gordo salgado e bem lavado, e ½ chouriça de carne caseira. Depois de bem cozido, retiram-se as carnes e cortam-se em bocados bem generosos. Com uma escumadeira retiram-se os outros ingredientes para serem passados no passe-vite.

Entretanto, espalmam-se 6 folhas de couve-galega e com uma faca bem afiada são finamente cegadas, passam-se por água a ferver e juntam-se ao caldo. Manter a panela destapada para manter a cor viçosa das couves verdes. Quando levantar fervura junta-se o puré, envolve-se bem, retificam-se os temperos.

Serve-se o caldo verde numa tigela ou prato fundo (antigamente era no prato fundo, comia-se com o grafo, no fim bebia-se o caldo pelo prato, sem entornar), juntamente com 2 palitos de broa, 1 naco da chouriça e por último um fio circular de azeite. O toucinho além de lhe emprestar o sabor inolvidável da gordura do “unto”, pode ser comido à parte como guarnição. O caldo verde do Minho combina numa refeição perfeita.

Bom apetite!

Um abraço gastronómico

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