Recordar… o Vitória #13

Por Vasco André Rodrigues,
Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

“Seu Marinho” voltara…

Estávamos no Verão de 1992 e os sonhos em Guimarães andavam nos píncaros da lua!
Tinham passado cinco anos, desde o homem que colocara os Conquistadores a sonhar com títulos nacionais e europeus, partira!

Agora que João Alves rumara a outras paragens, a escolha de Pimenta Machado foi ambiciosa: chamar um D. Sebastião do vitorianismo… como muitos outros na história do clube, como Paulo Autuori ou Jaime Pacheco haveria de correr mal.

Marinho Peres começou a temporada cheio de ambição. Apesar da equipa ter perdido os três homens provenientes do Boavista, as contratações de nomes como Tanta, do “mágico” Dane ao Famalicão, do lateral Dimas ao Estrela da Amadora e do avançado José Lima, homem de golos decisivos no último minuto, ao Sporting, pareciam indiciar que o Vitória daria o passo em frente… nada mais errado, como tantas vezes tem ocorrido na história vitoriana.

A primeira jornada até correu bem… com um estádio bem composto, os Branquinhos venceriam por duas bolas a uma o Beira-Mar, com Pedro Barbosa, na altura a dividir a sua magia em campo com o serviço militar, a ser o primeiro marcador da equipa na temporada! Seria o prenúncio de três temporadas em que o genial médio encantaria os adeptos, depois da primeira em que se dedicara a “aquecer os motores”.

Porém, esse desafio, também, trouxera inquietações… a equipa, depois de sofrer o golo aveirense mostrara-se insegura, trémula, incapaz de manter o nível que mostrara enquanto estava com o jogo sob controlo! Esses indícios tornar-se-iam em realidade logo na segunda jornada, quando, na visita à Pérola do Atlântico, os vitorianos foram derrotados por três bolas sem resposta… a época parecia não ser o que se antevia dela, algo confirmado no jogo fora seguinte, em que os Branquinhos voltariam a ser desfeiteados pelo mesmo resultado em Belém.

Porém, como todos os vitorianos saberão, em determinados momentos, a alma de El-Rei D. Afonso apodera-se dos jogadores. E, logo de seguida, na estreia europeia, tal sucederia! Frente à Real Sociedad teremos assistido a uma das mais sublimes exibições vitorianas na Europa do futebol! Guiada pela magia do bósnio Dane (autor de dois golos de levantar o estádio) e o talento inesgotável de Pedro Barbosa, os bascos foram “aviados” por três golos e nem “cheiraram”… haveriam de tentar reverter o “banho” no velhinho Anoeta e ainda assustariam, pois aos 23 minutos já tinham marcado dois golos o que fazia temer o pior! Porém, os atletas vitorianos serrariam fileiras (e os dentes…) e aguentariam o resultado… o Vitória marcava encontro para jogar com o Ajax, com muitos atletas que haveriam de entrar na história do futebol dos próximos 15 anos.

Contudo, no campeonato, o ar titubeante dos primeiros jogos mantinha-se, salvando-se, por esses dias, a vitória sobre o eterno rival com golo de Pedro Barbosa.
Até que chegaram os holandeses…citemos alguns nomes para relembrarmos a dimensão da tarefa (praticamente impossível) que esperava os vitorianos! Nomes como Frank De Boer, Danny Blind, Edgar Davids, Marc Overmaars deram um raro “concerto” de futebol… entre a miríade de estrelas, destaque para duas! Falamos do guardião Van der Saar, que se estreou e ganhou o lugar a Stanley Menzo neste jogo, e Dennis Bergkamp que fascinou quem ama futebol pela sua classe…ainda, que Madureira lhe tenha defendido uma grande penalidade. O Vitória perdia por três bolas a zero, mas lutara com todas as suas forças, algo que repetiria na segunda mão, no velhinho De Meer, onde o golo de N’Dinga ilustrou uma derrota por duas bolas a uma, num dia em que outro futuro grande nome do futebol mundial se estrearia: Clarence Seedorf.

Entretanto, terá chegado o jogo mais marcante da temporada! Frente ao grande rival Boavista, em noite de atroz intempérie, a equipa mostrou uma personalidade nunca vista. Venceria por três bolas a uma, com destaque para um golo do meio campo de Dane, que levaria Marinho Peres a ser agredido por um guarda-chuva enquanto festejava o golo… contingências de uma rivalidade! Seria o último lampejo do talento do bósnio, já que no jogo seguinte, frente ao FC Porto, haveria de sofrer atroz lesão causada por Aloísio e não mais jogaria na época em questão. Se tudo estava complicado, pior ficaria…

Como resultado dos maus resultados subsequentes, Marinho Peres seria despedido… num sinal, que um nome, por si só, não é suficiente para fazer uma época! Para o seu lugar, a aposta recairia em Bernardino Pedroto, seu adjunto. O Vitória melhoraria, começaria a fazer pontos valiosos na luta pela manutenção e a apresentar melhor futebol! A ajudar, um avançado brasileiro contratado no mercado de Janeiro, Alexandro, autor de golos decisivos, como o obtido na vitória em Braga, perante romaria vimaranense, que demonstrou que, desde sempre, o amor aos Conquistadores era algo para ser invejado a 20 quilómetros de distância.

A manutenção seria conseguida e Pedroto confirmaria o lugar para a temporada seguinte, ainda que o amargo de boca da Taça de Portugal tenha durado por muito tempo. Depois de ter batido o Estrela da Amadora nos quartos de final, calhara aos vitorianos, o Benfica nas meias finais. Em eliminatória disputada a um mão, o golo de Ziad, que passou grande parte da temporada divorciado das redes contrárias, faria acalentar o sonho de regressar ao Jamor. Mas, como, tantas vezes, acontece, a sorte encarnada em Guimarães poderia ser objecto de tese… nos últimos doze minutos da contenda todos os sonhos ruiriam! Nem na Taça a temporada seria objecto de recordação!

Os desejos de um Vitória maior passariam para a época seguinte… mas isso será outro episódio… um episódio de um apuramento europeu arruinado por grandes penalidades desperdiçadas!

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