Recordar… o Vitória #29

Por Vasco André Rodrigues,
Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

Um homem de sorriso fácil! De palavra sábia, pejada de metáforas! Apaixonado pela vida! E com o desejo de ser feliz, a ânsia de querer colocar a sua equipa a jogar bonito, de modo alegre, com a “carne toda no assador.”

Falamos de Joaquim Lucas Duro de Jesus, conhecido por Quinito, um dos homens que deixou uma indelével marca no Vitória dos anos 90.

Chegado a Guimarães na temporada de 1994/95, proveniente do Rio Ave, na primeira conferência de imprensa, disse logo ao que vinha. O Vitória iria fazer magia em campo, praticar futebol que apaixonasse e que justificasse que os adeptos se deslocassem aos campos por esse país fora.

Se bem o disse, melhor o fez. Alicerçando a equipa num ambicioso 4-3-3, onde Tanta liderava a defesa, Pedro Martins era a âncora da equipa, deu asas a homens como Zahovic ou Pedro Barbosa para pincelarem o futebol ofensivo dos Conquistadores. Na frente de ataque, Ziad, durante um curto período, e Gilmar tinham de, simplesmente, facturar as inúmeras oportunidades criadas.

Como resultado desse fascínio pela vertigem, pelo golo, o Vitória entraria de peito feito em todas as contendas, em todos os desafios. Assim, venceria na Luz, o Benfica, assim seria participante em alguns dos mais belos desafios daquele ano… ainda, que o romantismo de Quinito tivesse impedido a equipa de ser mais consciente, mais cautelosa… mas era feliz assim e apaixonava os seus jogadores, ao ponto de dizer que “se tivesse dinheiro comprava Pedro Barbosa para colocar a jogar no seu quintal”, ou que o “o seu único defeito era gostar demais de croissants”, ou de comparar Pedro Martins ao “rabo de uma vaca, por ter de limpar toda a porcaria que estava na sua zona.”

Uma figura apaixonante, que conseguiria apurar os Conquistadores para as provas europeias, após classificar a equipa no quarto posto, para partir para onde o coração o levava; ou seja o clube da sua terra, Setúbal, que conseguiria promover à Primeira Liga.

Porém, em Guimarães, era nome que deixara saudades.

Por essa razão, seria a ele que António Pimenta Machado recorreria, quando resolveu despedir Jaime Pacheco. Quinito “pegou o comboio em andamento” e entrou na história. Ainda que optando por uma proposta de jogo mais cautelosa, que levaria o Vitória a ser a defesa menos batida do campeonato e uma das menos violadas da Europa, com 25 golos sofridos, conseguiu que os Conquistadores igualassem a melhor classificação da sua história: um fantástico terceiro posto, que, por muito tempo, pareceu poder ser melhor, o que seria conducente a um inédito apuramento para a Liga dos Campeões. Nomes como Fredrik, Vítor Paneira, Riva, ou Alexandre deram a consistência a uma equipa que não apaixonava, mas ganhava… não tivesse sido gizada por Jaime Pacheco, para, depois, ser, sabiamente, conduzida pelo mestre Quinas.

Novamente partiria no final da temporada, para dar lugar a Zoran Filipovic, que nem sequer aqueceria o lugar. Com o sérvio o Vitória jogava mal, não tinha magia e por isso, a ruptura era evidente entre adeptos e equipa. Voltaria o homem capaz de apaixonar multidões! Com uma equipa em fim de ciclo, ficaria célebre a frase de que “os jogadores mais velhos têm de voltar a colocar gel no cabelo, olharem-se no espelho e sentirem-se bonitos.” Sê-lo-iam, até aquele fatídico jogo em Alverca retirariam o sonho de mais um apuramento europeu.

Tal levaria a que, desta vez, não abandonasse o clube no final da temporada. Ser-lhe-ia, ao invés, dada carta branca para reformular a equipa com uma geração de talentosos jovens, onde se destacava Fernando Meira. Aliás, foi Quinito, que num golpe de visão exímio, recuou o jogador para o último reduto defensivo, levando a que brilhasse tanto, a ponto de ser uma das maiores transferências da história do Vitória, rumo ao Benfica.

Os meninos começaram bem, andaram em lugares europeus, deram a conhecer, para além do citado Meira, um meteórico Lixa e fizeram sonhar…

Contudo, diversas divergências, a lesão de Lixa, em jogo diluviano contra o FC Porto, e a partida de Meira com muita polémica à mistura, haveriam de minar a época. Em vez de partir no final, Quinito não acabaria a temporada, partindo para não mais voltar.

Não obstante, o seu nome será sempre recordado como um dos homens que mais apaixonou o D. Afonso Henriques…fosse pela postura, posse pela ideia de jogo, fosse pela empatia criada!

Hoje, que vive amargurado pela abrupta morte do seu filho, quase em reclusão, que estas palavras, ao menos, sirvam para demonstrar que temos saudades do velho amante das coisas boas da vida, que dizia não querer viver muito, mas, acima de tudo, bem…

Quinito é história do Vitória e todos os adeptos devem estar-lhe gratos por isso!

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