Recordar… o Vitória #33

Por Vasco André Rodrigues, Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

Um dos goleadores mais memoráveis da história do Vitória.

Um homem que, apesar de ter partido, ficaria sempre com o clube no coração, ao ponto de intervir no acto eleitoral de 2018.

Falamos do avançado tunisino, Ziad Tlemçani, um verdadeiro ídolo dos Conquistadores no início da década de 90.

Falar de Ziad é falar de golos… de oportunismo… de um jogador de apurada técnica e de múltiplos recursos, capaz de marcar um golo num pontapé de primeira em Famalicão, num pontapé de bicicleta ao Boavista, ou nm cabeceamento fulgurante a Vítor Baía!

Falar de Ziad é falar de esperança… a esperança que fez com que quando chegasse ao Vitória, no início da temporada de 1990/91, fosse imediatamente reputado como um dos melhores pontas de lança do futebol africano. Ele, que no Espérance de Tunis, clube que o formou e onde se tornou ídolo houvera lutado por todos os títulos do continente africano.

Porém, nessa primeira temporada, colectivamente, o Vitória ficaria aquém do esperado. A instabilidade desencadeada logo na pré-temporada, com o famigerado acontecimento no Rio de Janeiro, a envolver o lateral Nando, influiria decisivamente com o desenrolar da época. O Vitória teria três treinadores (Paulo Autuori, Pedro Rocha e João Alves) e muita pouca capacidade para se colar aos lugares cimeiros. Salvaria a face com o ”Luvas Pretas”, que fruto disso garantiria o lugar para a temporada seguinte. O avançado, esse, seria dos poucos a resistir ao naufrágio colectivo, ao apontar nove golos na temporada. Tratou-se de um registo interessante para a primeira temporada em campeonatos europeus, a deixar água na boca para a seguinte.

A seguinte seria, talvez, a melhor de Ziad no Vitória. Confirmar-se-ia como o verdadeiro animal de área, o monstro da finalização, o homem de múltiplos recursos a resolver as equações gizadas por Pedro Barbosa, Paulo Jorge, Jaime Alves, Basaúla, Caio Júnior e tantos outros! Marcaria 15 golos, alguns belíssimos como o tal da bicicleta ao Boavista, que deixou Alfredo rendido, e seria o terceiro melhor marcador da máxima prova nacional. Desde Paulinho Cascavel que nenhum artilheiro vitoriano era capaz de ocupar os lugares de topo dos melhores marcadores da Liga Nacional. Além disso, seria um dos principais rostos do regresso às competições europeias dos Conqusitadores.

Esperava-se, pois, que Ziad na temporada seguinte desse seguimento ao seu apetite voraz pelo golo. Porém, numa época em que nada correria bem, o tunisino andou grande parte da temporada divorciada das balizas. O jogador trabalhava, dava tudo, mas a bola não entrava e a época vitoriana ficava cada vez mais comprometida, ao ponto do treinador, que era ídolo, Marinho Peres ser despedido e entrar para o seu lugar Bernardino Pedroto. Seria com ele ao leme, que o tunisino quebraria o enguiço. Depois confirmaria a asserção de Cristiano Ronaldo, ainda antes deste sequer sonhar ser jogador de futebol, ao dizer que “os golos são como o ketchup, que depois de aberto não cessa de jorrar”. Seriam seis tentos, entre os quais o apontado ao Benfica na meia-final da Taça de Portugal, que colocou os vitorianos a sonhar com o regresso ao Jamor. Não sucederia, graças à habitual fortuna encarnada em Guimarães e a 12 minutos finais desastrados, que matariam o sonho…

A temporada seguinte que seria a última completa do jogador na Cidade do Rei, com as cores do Vitória, seria dentro da média habitual. Onze tiros certeiros, numa equipa que muito prometeu, amas que não cumpriu. Na verdade, os Branquinhos falharam nos momentos decisivos, inclusivamente grandes penalidades, e perderam o ensejo de se apurarem para as competições europeias. Ziad, esse, teria a utilidade de sempre, marcando onze golos! Era um garante de uma dezena de golos…

Porém, o canto dos ienes começaria a soar na cabeça do jogador. A emergente J-League do Japão chamava por bons jogadores e o tunisino não resistira ao chamamento. Rumaria a Kobe, para jogar no Vissel, que é nos dias de hoje a equipa onde actuam Andrés Iniesta, Lukas Podolski, ou Sergi Samper.

Porém, como diria outro lendário avançado vitoriano, Ernesto Paraíso, “quem bebe da água da Penha, há-de sempre querer voltar”. No final da temporada asiática, numa altura em que a nossa ainda nem a meio estava, Ziad regressou para ser peça basilar nos branquinhos de Quinito. Assim, nos três meses que actuou de branco, de Novembro de 94 a Fevereiro de 95, jogou em 9 desafios! Nesses, beneficiando do futebol mágico, fresco e de “ carne toda no assador” de Quinito, em 9 partidas, apontaria 6 golos. Destacam-se, contudo, os dois, de apurada execução, com que abateu o Marítimo, em plenos Barreiros, num dos melhores jogos do campeonato. O Vitória venceria por três bolas a duas e ganhava terreno decisivo para um concorrente directo aos lugares europeus.

Acabaria por partir, mas sem nunca deixar de amar o Vitória. Prova disso, as várias vezes que ruma a Guimarães para confraternizar com os seus muitos amigos, ou a sua intervenção no mais concorrido e disputado acto eleitoral da história recente do clube.

Ziad faz parte do Vitória…quem o viu jogar, nunca o há-de esquecer!

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