Recordar… o Vitória #37

Por Vasco André Rodrigues, Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

Na altura em que, ainda não se exigiam guarda-redes altos para o desempenho da função, o Vitória terá tido um que terá sido dos maiores expoentes dos guardiões “baixinhos”, à portuguesa.

António Jesus terá sido um dos maiores ídolos do Vitória nos gloriosos anos 80, altura em que o Vitória sonhou com títulos e que olhou os tubarões europeus nos olhos.

Com uma altura que actualmente o impediria sequer chegar aos seniores na função em que se distinguiu (1,73), Jesus parecia crescer na baliza, voar com uma mola nos pés, estando munido com um elástico que o prendia aos postes e uma rapidez acima de qualquer suspeita.

Jesus foi, naqueles tempos, o cardiologista de milhares de vitorianos, o seu seguro de vida, a certeza de Domingos bem mais felizes, eternizando-se aquela frase na rádio, quando os jogos na televisão eram uma miragem, “Jesus faz a defesa da tarde”.

Natural de Espinho, chegaria a Guimarães na temporada de 1981/82, proveniente do Varzim onde era figura de proa.

Contudo, no Vitória, não seria titular de forma imediata. Aliás, nas primeiras quatro temporadas das seis da primeira passagem pelo nosso clube, só seria titular nas duas últimas.

Assim, lutaria pelo lugar, que ao contrário de outros só pode ser preenchido por um homem, com nomes como Vítor Damas, Silvino e Neno, que por várias razões levariam a melhor nessa luta muito particular. Aliás, o último destes haveria de revelar em entrevista recente ter sido aposta do treinador da altura, o lendário Raymond Goethals, a treinar o Vitória por ter sido castigado por corrupção na Bélgica a envolver o Standard Liége, por ser mais alto.

Todavia, haveria de ganhar o lugar… e o coração dos adeptos vitorianos!
Estávamos na temporada de 1985/86, o saudoso António Morais era o treinador, e a época foi toda de Jesus… o homem que fazia jus ao nome, atendendo aos milagres que fazia na baliza!

Tornara-se indiscutível… faria época de mão cheia, sendo um pilar determinante na conquista do quarto posto final, símbolo de regresso às competições europeias. Aliás, apesar da qualidade da equipa, os grandes ídolos vitorianos, por aqueles dias, estavam nas pontas: na traseira Jesus, na frontal Cascavel.

A temporada seguinte seria a grande época de Jesus no Vitória e uma das melhores de sempre da história do guardião nos Branquinhos. O Vitória haveria de sonhar com o título e viver uma lendária participação europeia. Nela, quem poderá olvidar as inacreditáveis exibições de Jesus em Madrid, onde defenderia uma grande penalidade, em Groningen com defesas em que parecia ter asas? Mas, se por essa Europa fora foi assim, o que dizer em Portugal? Jesus foi grande… tão grande que seria chamado à selecção nacional, ainda que beneficiando da lesão de Bento e da exclusão de Damas.

A temporada seguinte seria a pior do Vitória com Jesus a titular. Tão má que os Branquinhos quase desceriam de divisão. Salvar-se-ia a ida ao Jamor, em que o Vitória foi derrotado na final da Taça de Portugal frente ao FC Porto, e as duas eliminatórias ultrapassadas na Taça UEFA perante o Tatabanya e o Beveren, onde, novamente, o guardião seria decisivo no desempate pela marcação por grandes penalidades.

Abandonaria o Vitória, rumo ao Leixões, de onde partira para Chaves.
Mas, não havia amor como o que tinha pelos Conquistadores. Voltaria para três temporadas, onde, paulatinamente foi perdendo influência até abandonar o clube no final da época de 1992/93, já na sombra de Madureira.

Faria uma última temporada em Chaves, para pendurar as luvas e abraçar a carreira de treinador.

Seria, assim, que faleceria em 2010, ao serviço do clube da sua terra, o SC Espinho, a seguir aa um jogo!

Contudo, os seus voos, os seus milagres, o modo corajoso com que saía das balizas, o seu inseparável ursinho de peluche, tornaram-no imortal no Vitória!

Vale a aposta que daqui a 50 anos ainda se falará no guarda-redes baixinho, capaz de defender o impossível?

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