Recordar… o Vitória #39

Por Vasco André Rodrigues, Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

As ambições eram muitas…

Depois do apuramento europeu, a aposta do, então, presidente Vítor Magalhães foi a remodelação completa da estrutura vitoriana.

Os tempos eram de euforia e tudo se conjugava para o Vitória dar o passo em frente. Para o lugar de Manuel Machado, que quisera partir, chegava um homem desejado por todos os vitorianos: Jaime Pacheco, que regressou a terras d’El Rei, anos depois de ter sido despedido por Pimenta Machado em lugares europeus, para se tornar campeão no Boavista.

A equipa essa sofreu uma verdadeira revolução. Eram os passos em frente que se queriam dar na intenção de aproximar os Branquinhos dos lugares da frente da tabela. Para isso, homens importantes e, alguns deles emblemáticos, no apuramento europeu, como Palatasi, Paulo Turra, Bessa, Djurdjevic, Romeu, Alexandre, Luiz Mário, Alex abandonaram a equipa, para uma nova ser formada.

Porém, os novos talentos foram chegando a conta-gotas durante a pré-temporada, impossibilitando a construção de uma base que garantisse o passo em frente desejado. Já sabemos que não há equipas formadas por geração espontânea e, muitas vezes, bons jogadores não fazem um bom conjunto. Seria o caso!

Assim, apesar de terem chegado nomes do estrangeiro como o guardião Nilson, que haveria de deixar uma marca indelével no futuro dos Branquinhos, o defesa Geromel, que, ainda, é uma das transferências mais caras da história do clube, o médio internacional sueco Sebastian Svard, proveniente do Arsenal, o médio ofensivo Benachour, vindo do Paris Saint- Germain e comparado a Zidane, e, ainda, o inolvidável polaco Marek Saganowski, talvez o melhor avançado que no século XXI jogou no Vitória, nada saiu como esperado.

Uma equipa de estrelas aos quais, ainda, se juntaram Paiva, Sereno, Mário Sérgio, Pintassilgo, Rivas, Maurílio, Dário, Clayton e Manoel e que deveria contar com uma pérola africana de nome William Tiero que, vá-se lá saber porquê, veio a Guimarães e partiu para não mais voltar!

Contudo, com tamanha remodelação, Jaime Pacheco sentiria dificuldades em formar um onze. Os jogadores mostravam dificuldades em entenderem-se em campo e as três derrotas de enfiada no início do campeonato (duas delas em casa contra a Naval e o eterno rival) pareciam indiciar que não iria ser fácil conjugar tantos egos e formar uma equipa.

Não obstante esses justificados temores iniciais, essa ideia sofreria um retrocesso e a esperança invadiria o coração dos vitorianos, após uma gloriosa noite europeia frente ao Wisla Cracóvia. Num jogo em que Benachour se aproximou do génio do seu ídolo argelino, o Vitória arruinou os sonhos polacos… uma vitória por três bolas a zero, em jogo que foi uma antítese de toda a temporada e que tornou a visita à terra do Papa João Paulo II uma mera formalidade, que Saganowaki em lance de génio tratou de tornar em vitória.

Porém, o campeonato continuava a correr de modo penoso… a equipa tinha dificuldades em pontuar, psicologicamente demonstrava-se incapaz de reagir a qualquer contrariedade e Jaime Pacheco parecia perdido… tão perdido que seria despedido, ficando famosa a frase de que “aquele Vitória assemelhava-se a um avião sem asas.”

Para o lugar dele, uma aposta arrojada, ainda para mais atento o delicado momento que o clube vivia… que, possivelmente exigiria um homem de barba rija! Porém, Vítor Magalhães apostou num homem com diminuta experiência, cuja glória no curriculum de técnico era ter sido adjunto de José Mourinho: Vítor Pontes, que, apesar de ter sido antigo atleta do clube na gloriosa temporada do terceiro lugar de Marinho Peres, demonstrou total incapacidade para comandar um clube com os pergaminhos e com a especificidade dos Conquistadores.

Para o ajudar, ou talvez não, Janeiro seria o mês de uma revolução no plantel. Entraram no plantel Paíto, Gallardo (que após 45 minutos seria recambiado), Wesley e Antchouet na tentativa desesperada de evitar um acontecimento trágico que durante 41 anos não acontecera: a despromoção.

Em certos momentos, como a goleada ao Vitória FC em casa, com hat-trick de Saganowski, ou a vitória sobre o Benfica de Koeman, em tarde diluviana de cordão humana, tal propósito pareceu possível. Porém, além da falta de simbiose entre os elementos do onze, a sorte nada quis com a nossa equipa. Bastará lembrar o jogo de Paços de Ferreira, em que o Vitória apontou o golo da vantagem a dois minutos do final da contenda, Pontes faz entrar em campo o defesa húngaro Dragóner e este na última jogada do desafio apontaria um autogolo que custou dois preciosos pontos.

Além disso, outro facto arruinou os propósitos da equipa não entrar na história pela negativa. O jogo da meia final da Taça de Portugal frente ao Vitória FC, em Setúbal. Depois de 90 minutos enfadonhos, no prolongamento o inevitável Saganowski colocaria os branquinhos, nesse dia de preto, em vantagem. Porém, na última jogada do desafio, Auri empataria a contenda levando-a para as grandes penalidades. Aí, os sadinos seriam mais hábeis garantindo o bilhete para o Jamor…e matando animicamente uma equipa que, a partir daí, arrastou-se sem alma, nem crença.

A última estocada seria dada em casa, perante o Estrela da Amadora. A precisar de um milagre e de uma conjugação improvável de resultados, nem assim o Vitória conseguiria vencer. Perderia por uma bola a zero, seria despromovido e o estádio despedir-se-ia de um conjunto de homens que nunca foram uma equipa com um arrepiante “ Vitória até Morrer”!

Apesar de serem memórias dolorosas, que permaneçam no espírito de todos os vitorianos. Para os mesmos erros não se repetirem, para não se embarcar nas mesmas ilusões e para jamais nos iludirmos que as equipas surgem num estalar de dedos… o êxito demora tempo e não passa nunca por destruir o que de bom existe, para se tentar, de modo visionário, começar outra vez da casa de partida!

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