Recordar… o Vitória #48

Por Vasco André Rodrigues, Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

O dia 28 de Novembro de 2016 ficará marcado, para todo o sempre, como um dos mais trágicos da história do futebol mundial.

Nesse dia, depois do que houvera sucedido com Il Grande Torino, os Busby Babies do Manchester United e com a selecção da Zâmbia, outro acidente aéreo ceifou uma equipa de futebol: a da Chapecoense. A equipa brasileira, do estado de Santa Catarina, houvera embarcado com um sonho, que era o de vencer a Copa Sud Americana perante os colombianos do Atlético Nacional, era dizimada a chegar à Colômbia, só tendo sobrevivido três atletas da equipa: o guarda redes Follman, o lateral Ruschel e o central Neto.

Porém, para os vitorianos a tragédia dizia algo mais…trazia com ela o nome de Luiz Carlos Saroli, o treinador da equipa, que constava na lista tornada pública pelas autoridades colombianas como tendo perdido a vida. Porém, os mais atentos e seguidores do fenómeno do futebol sul-americano, sabiam que Saroli, era, simplesmente, Caio Júnior, um homem que numa das suas últimas entrevistas tinha dito que sonhava treinar o Vitória.

Tal sonho devia-se ao facto das portas europeias, enquanto jogador de futebol, que o houvera sido, terem sido abertas, de par em par, no clube do Rei. Estávamos na temporada de 1987/88, Paulinho Cascavel houvera sido contratado pelo Sporting e era necessário preencher o lugar de avançado centro.

Tarefa espinhosa, visto aludirmos ao melhor marcador da edição de 1986/87 do campeonato nacional e um verdadeiro herói na cidade onde Portugal nasceu. A escolha recairia num jovem de 22 anos, a começar a despontar no Grémio de Porto Alegre, que parecia ter golos nas botas: Caio Júnior.

Porém, ainda que essa primeira temporada fosse a melhor em termos de tentos (dezasseis), a verdade é que o jovem brasileiro não era o ponta de lança fixo e matador como Cascavel. Era mais um segundo ponta de lança que gostava de deambular de modo livre pela frente de ataque, exasperando, algumas vezes, os adeptos pelo seu habitual desinteresse pelo jogo. Porém, quando a bola lhe chegava aos pés deliciava todos pelo seu toque perfumado e a forma inteligente de interpretar o jogo… Caio era o que hoje gostamos de jogar um falso lento, um poeta pouco dado aos velozes tempos que já começavam a despontar.

Estrear-se-ia de branco a 23 de Agosto de 1987, num empate caseiro perante o Varzim, em dia de enchente vitoriana e vimaranense na Póvoa de Varzim. O primeiro golo, esse, não demoraria a aparecer…passados dois jogos, na serra, na Covilhã, o seu golo valeria o primeiro triunfo vitoriano de uma temporada que não deixou saudades. Logo de seguida, na sua estreia europeia, na Hungria, perante o Tatabanya, lograria o golo do empate que ajudaria a ultrapassar a eliminatória. Um arranque feroz, capaz de suscitar muitas esperanças em termos de golos!

Manteria uma interessante média nessa temporada, tendo ainda sido a arma desesperada de José Alberto Torres, na final da Taça de Portugal, frente ao FC Porto, já depois de Jaime Magalhães ter marcado o golo do nosso descontentamento e da nossa derrota. Jogaria cinco minutos e ficou no ar como seria se tivesse entrado mais cedo…

A época seguinte seria uma desilusão. Estranhamente o jogador canarinho divorciou-se dos golos, tendo apontado, apenas, um e em jogo a contar para a Taça de Portugal. Tal ocorreu perante o Sacavenense, um algoz do Vitória uns anos antes na prova rainha do futebol português. Este decréscimo de produção, aliado à contratações de Chiquinho e de Silvinho fez com que perdesse relevância no plantel.

Com Paulo Autori a comandar a equipa no exercício seguinte voltaria aos golos e à alegria. Foram doze, num ano cheio de bons momentos individuais e colectivos capazes de levar os Branquinhos ao quarto posto da tabela…e a uma infeliz derrota nas meias finais da Taça de Portugal frente ao Estrela da Amadora.

Caio haveria, ainda, de ser parte integrante do plantel vitoriano por duas temporadas. Na sua última ficou na memória o jogo contra o FC Porto, em que Paulo Bento arruinou com o record de inviolabilidade de Vítor Baia, na cobrança de uma grande penalidade devida a uma falta cometida sobre o brasileiro. Tanto pintou a manta nesse dia 05 de Janeiro de 1992, que o capitão azul e branco, João Pinto, raposa velha, arranjou maneira de o expulsar, sob a complacência do árbitro Pinto Correia.

Depois partiria do Vitória, conjuntamente com o treinador João Alves, rumo ao Estrela de Amadora, para voltar ao Brasil, para ainda fazer uma época no Belenenses, sob o comando novamente do Luvas Pretas que sempre apreciou as suas qualidades.

Voltaria ao Brasil para acabar a carreira e encetar a de treinador até aquele fatídico dia…em que morreu com o sonho de tocar o céu do continente Sul-Americano. A memória, essa, perdurará…

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