Recordar… o Vitória #57

Por Vasco André Rodrigues, Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

Um talento canarinho…

Um daqueles jogadores capazes de levantar um estádio com a sua capacidade técnica, a sua finta curta, a sua frieza perante o guarda-redes contrário!

Mas, como um grande artista, um jogador de humores! Daqueles que, por se sentir infeliz ou desapoiado, era capaz de se esconder do jogo, de hibernar num estado de apatia absoluta, até a alma se libertar das tormentas que o consumiam e voltar a ser mágico!

Edmilson Dias de Lucena terá sido dos atletas que mais sentimentos despertou nos apaixonados adeptos vitorianos no final do século XX. Ao seu modo de encarar o jogo, ninguém poderia ficar indiferente. Ou se amava muito, ou simplesmente se odiava… mas, nos momentos de glória era insofismável… ninguém era capaz de deixar de lhe regatear aplausos, até vénias!

Depois de um longo período de afirmação e de aclamação na Madeira, que durou 8 anos, primeiro no Nacional da Madeira e depois no Marítimo, onde se revelou como um dos melhores avançados do futebol portugueses, ficando na história verde-rubra como um dos componentes da primeira equipa a viver as emoções das competições europeias, chegaria a Guimarães, ao Vitória, na temporada de 1997/98.

Sob o comando de Jaime Pacheco, estrear-se-ia, logo na primeira jornada desse campeonato, frente à Académica de Coimbra. A nossa equipa venceria por uma bola a zero graças a um tento de Gilmar, parceiro dilecto de ataque na aventura de Rei ao peito.

Continuaria como titular na equipa, apontando o seu primeiro golo na quarta jornada do campeonato, num dia aziago para as cores vitorianas. Na verdade, os Conquistadores foram derrotados por três bolas a duas, sofrendo, assim, a primeira derrota nessa liga.

A temporada, essa, apesar dessa desilusão, continuaria a reger-se por parâmetros positivos. O Vitória, apesar de não ser muito espectacular, mantinha-se pelos lugares cimeiros, demonstrava consistência defensiva e ia pontuando.

Porém, depois de um empate caseiro frente ao Boavista e com Edmilson a viver um período de menor fulgor, o treinador Jaime Pacheco seria despedido. Entraria o treinador que mais motivaria o herói destas linhas à excelência, que exultou a sua veia de artista, que o acarinhou de modo a tirar dele o melhor. Na verdade, quem poderá esquecer a relação estabelecida entre Quinito e Edmilson, ou como o treinador gostava de lhe chamar “O Didi”?

Com o homem da magia, o brasileiro voltaria a ganhar asas. A ser desequilibrante. A ser capaz de realizar mirabolantes jogadas que desmoronavam qualquer defesa.

Seria, por isso, uma das pedras basilares do excelente terceiro lugar alcançado no final da época, tendo contribuído para ele com seis golos.

A temporada seguinte seria a mais produtiva do avançado no Dom Afonso Henriques. Apontaria 13 golos, muito beneficiando, novamente, do factor Quinito. Na verdade, a época foi encetada com o sérvio Zoran Filipovic no banco. Sob o comando deste, à excepção da goleada por cinco bolas a uma ao eterno rival, a época estava a ser uma desilusão. Aliás, esse clima de fracasso não era, apenas, colectivo, mas também individual. O brasileiro perderia a titularidade, só a recuperando quando o treinador foi despedido…para dar lugar à reserva moral vitoriana daqueles tempos. Sim, falamos de Quinito, que mais uma vez demonstrou ser o homem que melhor entendia o génio, tantas vezes incompreendido, de um jogador singular.

Edmilson seria sublime… conseguiria, mesmo, um record de seis jogos consecutivos a marcar golos. Foram sete nessa meia dúzia de contendas, com especial destaque para o que ajudou a derrotar o FC Porto no terreno do Rei por três bolas a duas.

Não obstante esses momentos de exaltação, a época ficaria, indelevelmente, marcada pelo descalabro de Alverca, onde o Vitória deixou ficar o sonho europeu, pese embora os milhares de vimaranenses presentes nas bancadas.

A época seguinte, que foi encetada sob o comando do treinador setubalense, começaria sob o signo da aposta na juventude e da magia. Magia essa que duraria até Janeiro desse ano, altura em que, fruto de intensa convulsão o baluarte da defesa Fernando Meira rescindiu o seu contrato, abalando, inexoravelmente, os alicerces.

O Vitória cairia pela tabela, Quinito seria despedido, para não mais voltar, e o avançado brasileiro apontaria o seu último golo de Rei ao peito, em Março, numa vitória por quatro bolas a uma perante o Campomaiorense. O último dos seus 30 golos.

Em fim de contrato, viajaria para bem perto, com o seu compatriota Riva. Em Braga realizaria uma temporada, antes de emigrar para a Arábia Saudita e findar a carreira na Coreia do Sul.

O génio de Didi esse ficou bem gravado, em quem teve a sorte, de observar as suas jogadas inesperadas… os seus momentos únicos de glória!

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