Recordar… o Vitória #6

Por Vasco André Rodrigues,
Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

A CONQUISTA DE MADRID – TODOS OS SONHOS ERAM PERMITIDOS!

Era um ano em que todos os sonhos pareciam capazes de se tornar em realidade!

O Vitória, orientado por Marinho Peres, naquela temporada de 1986/87, parecia que ia fazer cumprir o grande sonho da cidade onde nasceu Portugal: vencer troféus.

Mas, para além disso, a equipa demonstrava uma faceta surpreendente, que passava pela sua dimensão europeia. Isso já tinha sido confirmado pela irrepreensível eliminação do Sparta de Praga, na altura a base da selecção da antiga Checoslováquia, graças ao génio goleador de uma das maiores lendas do clube. Falamos de Paulinho Cascavel, o mais inesquecível dos goleadores da história dos Conquistadores, ainda que cá só tivesse encantado durante duas temporadas.

Depois do Sparta, seguia-se um dos maiores colossos espanhóis, o Atlético Madrid. Os colchoneros haviam chegado à final da Taça das Taças da temporada anterior treinados por um senhor do futebol europeu: Luis Aragonés que, mais de 20 anos depois, haveria de levar a selecção espanhola à glória europeia, numa extrapolação do tiki-taka de Guardiola. Porém, o início de temporada não havia sido feliz e no lugar do “Sábio de Hortaleza”, já estava Vicente Miera, que haveria ter a maior glória da sua vida quando levou a selecção olímpica do seu país ao ouro, em 1992.

Era um adversário de respeito, a que acrescia a tradicional dificuldade das equipas lusitanas se sobreporem às do país vizinho. Aliás, a imprensa espanhola não tinha dúvidas ao afirmar que iria ser um passeio para os homens de Manzanares, que haviam sido bafejados pela Deusa Fortuna no sorteio.

Todavia, aquela equipa do Vitória tinha uma relação de proximidade com o impossível… não tinha medo a coisa alguma, ainda para mais numa fase embrionária da temporada, quando para além de Cascavel, homens como Roldão, Ademir, N’Dinga e todos os outros com as pernas cheias de vitalidade e de frescura.

Por essa razão, naquela tarde chuvosa e fria de 22 de Outubro de 1986, o mundo abriria a boca de espanto! Perante o júbilo de um estádio em ebulição (como se só os vitorianos soubessem das capacidades dos seus ídolos), os Conquistadores encarnaram o Primeiro Rei. Fizeram uma segunda parte sublime e o golo, de grande penalidade, de Paulinho Cascavel e o balázio de pé direito (!) de Roldão mesmo no fim, surpreendia tudo e todos!

Quem era aquela equipa frenética, que corria sem parar, e que tinha na frente de ataque três artistas dignos da alta-roda do futebol mundial?

Era algo a descobrir quinze dias depois, no Vicente Caldéron!

Verdade seja dita: a deslocação do Vitória, este ano, a Londres para defrontar o Arsenal terá sido uma das maiores manifestações de amor ao clube fora do país. Mas… aquela excedeu todas as expectativas!

Foram excursões, carros particulares, de preferência de 9 lugares, numa altura em que o uso do avião ainda não se democratizara! Nunca a passagem do velho hino dos Branquinhos “terás Guimarães inteira a puxar por ti Vitória!” fizera tanto sentido!

Porém, o adversário, como já dissemos, era de respeito…e jogava com todas as armas! Desde os “mind games” que na altura teriam outro nome, pois Mourinho ainda não era Mourinho, a atitudes intimidatórias tudo valia para dar a volta a uma eliminatória que, antes de ter começado, todos previam ser de sentido único.

Mesmo a equipa vitoriana, quando chegada ao estádio, foi recebida com inelutáveis gritos de “Muerte, muerte” como a preconizar que teria de passar um verdadeiro Cabo das Tormentas. Quanto aos adeptos, esses, desde logo, sentiram na pele a “hospitalidade” dos adversários, ao serem recebidos à pedrada, alguns ameaçados e muitas das viaturas que os transportavam vandalizadas e, inclusivamente, privados dos farnéis que ir-lhes-iam aconchegar o estômago, já que a alma só seria saciada a apoiar os ídolos.

O jogo, esse, seria um teste à resiliência dos branquinhos… o Atletico carregaria de forma decidida no acelerador e beneficiava de um factor que era previsível…o caseirismo do árbitro , o belga Alphonse Constantin, que por todos os meios tentou virar a eliminatória!

Porém, se tudo fez para isso suceder, para além da tenacidade dos Conquistadores, não contou com a exibição de um homem, que se já era amado pelos adeptos, nesse dia terá entrado na eternidade! António Jesus, o pequeno grande guardião do último reduto, foi imenso… quase inultrapassável… perfeito… e todos os adjectivos que quiserem encontrar! Mesmo quando o juiz vislumbrou uma grande penalidade, Jesus tomou dons de perfeição…e sacudiu o castigo máximo com a perna para cima da barra! Um grito enorme perpassou em todas as casas vitorianas… ninguém iria quebrar aquela força imensa!

Depois seria aguentar com unhas e dentes… com uma classe capaz de aguentar a fúria espanhola, que, só no último minuto, conseguiria chegar ao golo… mas, tarde, muito tarde, para matar o sonho vitoriano e dos muitos que acompanharam a equipa!

No dia seguinte, à chegada dos heróis, que viajaram de camioneta da capital do país vizinho até ao Berço Pátrio, o Toural engalanou-se para a ocasião! A cidade saiu em peso à rua para vitoriar os heróis! Além disso, para receber os corajosos que sofreram na pele o mau perder do adversário, mas que no final vinham de alma cheia e com uma miríade de histórias para contar. Mais do que tudo, o Vitória fazia sonhar!

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