Recordar… o Vitória #66

Por Vasco André Rodrigues, Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

No início da famigerada temporada de 2005/06, ano em que o Vitória sofreria as agruras da despromoção, como muitas vezes já escrevemos, procedeu-se a uma revolução no plantel.

Revolução essa que contemplou as balizas, levando à saída do icónico guardião francês Palatsi, entrando para o seu lugar um brasileiro, proveniente do Náutico, de nome Nilson.

Inicialmente olhado com desconfiança, longe estariam os vitorianos de saber que estavam perante um goleiro que iria ocupar as redes do clube durante sete temporadas, indo do inferno ao paraíso nos Conquistadores, conseguindo ocupar um lugar de destaque na história do clube.

Nilson, contudo, e, também, fruto dessa desconfiança, mas além disso como resultado da época colectivamente desastrosa, não se afirmaria de imediato de Rei ao Peito. Partilharia, aliás, a titularidade com Márcio Paiva, também ele chegado nessa temporada, até aquele famigerado jogo de São Petersburgo, frente ao Zenit, onde o Vitória terá feito das melhores exibições da sua história europeia e, igualmente, sofrido um roubo do tamanho da distância que medeia entre a nossa cidade e onde jogamos. Um verdadeiro escândalo, capaz de levar à indignação a mais pacata das almas!

A época continuaria sob o signo do fracasso…da irregularidade, inclusivamente para Nilson. O que dizer do golo sofrido frente ao Belenenses em casa, por ter demorado a livrar-se da bola, e que custou dois pontos ao nosso clube…dois pontos que tanta falta poderiam fazer na luta pela manutenção?

Porém, de um momento para o outro, o guarda-redes tornou-se incontestado, a esperança maior da salvação, o Paredão como era conhecido no Brasil! Estávamos a 15 de Março de 2006 e os Conquistadores deslocavam-se a Lisboa para defrontar o Benfica nos quartos de final da Taça de Portugal. Depois do golo precoce de Dário, os encarnados carregaram forte no acelerador. Tudo fizeram para recuperar a eliminatória. Porém, contra eles esteve, talvez, o guarda-redes a fazer a exibição do século com a camisola do Rei. Foram tantos as defesas, de todos os modos e feitios, que Nilson, naquele momento, entrou no coração e na história vitoriana. Absolutamente memorável, sendo que depois desse fantástico momento, ainda defenderia duas grandes penalidades no desempate por estas nas meias finais em Setúbal… de pouco adiantaria, aquela temporada estava amaldiçoada e o Vitória seria eliminado!

Posteriormente, ainda viria o pior, com a descida de divisão. O guarda-redes, com contrato, seria dos poucos a manter-se na equipa. Seria titular indiscutível, fora um período de uma lesão que o obrigou a ceder o lugar a Nuno Santos. Por essa razão, transformar-se-ia num dos baluartes da histórica recuperação do nosso clube rumo ao regresso ao lugar do qual nunca deveria ter saído. Uma equipa começa num bom guarda-redes e aí estava a prova.

Essa seria a realidade nos anos seguintes… independentemente dos treinadores, das equipas, o último baluarte da equipa era Nilson, um guardião elástico mas sóbrio, felino mas frio e capaz de tranquilizar qualquer coração.
A época seguinte seria a de maior êxito a nível colectivo. Os Branquinhos conquistariam o terceiro posto e o guarda-redes seria a estrutura de uma equipa que continha dois centrais de eleição ( Sereno e Geromel), um médio defensivo a viver a melhor época da sua carreira (Flávio) e um conjunto capaz de morrer em campo! Era o sonho da Liga dos Campeões a flamejar e que só não foi capaz de ser real, graças ao que sucedeu em Basileia.

Nilson, esse, continuava de pedra e cal nas redes do Vitória…seria assim por mais quatro temporadas, em que nem a chegada de Douglas (a última das referências a nível de guardiões em Guimarães) foi capaz de lhe retirar o lugar.
Haveria de continuar a viver noites felizes, simbolizadas em voos felinos, em estiradas arrojadas, em saídas decididas… mas, também, como sinal da vida de qualquer guarda-redes a ter momentos tristes, dolorosos, como a final da Taça de Portugal de 2011, frente ao FC Porto.

Numa tarde infeliz, o goleiro que tanto contribuíra para que o nosso clube regressasse ao Estádio Nacional, 23 anos depois, seria culpado em alguns dos golos do adversário, ajudando a matar o sonho da vitória… isto, depois de uma semana em que terá vivido um dos momentos mais caricatos da sua carreira, alvitrando-se que poderia naturalizar-se burquinabês, para actuar pela selecção do Burquina-Faso…ele que nunca houvera colocado os pés no pais e que nem sequer tinha ascendência de lá.

Faria mais uma temporada no Vitória…a derradeira. Estávamos em 2011/12 e aquele 28 de Abril, em que o nosso clube foi derrotado em Barcelos, seria a última vez que envergaria as cores do Rei. Foram, pois, 232 desafios a representar o Vitória, dando tudo em cada estirada, em cada voo, em cada milagre!

Na época seguinte, como resultado das dificuldades financeiras partiria, rumo ao Irão, ao Persepolis…sem, contudo, deixar de ocupar um espaço enorme na memória colectiva vitoriana. Nilson, o Paredão da Bahia!

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