Recordar… o Vitória #67

Por Vasco André Rodrigues, Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

Um talento formado no Vitória, nos seus escalões de base e que aprendeu todos os preceitos e princípios do futebol de Rei ao peito.

Falamos de Joaquim Alberto Ferreira Machado, cujo nome, assim recitado, provavelmente, nada dirá à maioria dos vitorianos. Mas, se trocarmos o seu nome de baptismo pelo petit-nom de Quim Berto, a maioria reconhecerá estar perante um dos mais dotados laterais esquerdos que vestiram a camisola branca nos últimos 30 anos.

Quim Berto, como dissemos, formou-se no Vitória, para, posteriormente, cumprir duas temporadas de tirocínio no Benfica de Castelo Branco, na altura um receptor privilegiado das jovens pérolas vitorianas em busca de serem lapidadas, para regressarem à casa-mãe.

Tratava-se de um lateral à moda antiga. Não era possuidor de estatura alta, como, actualmente, os treinadores preferem para o jogador poder ajudar os defesas centrais, mas era incrivelmente rápido nas suas incursões ofensivas, aliando a isso uma agressividade capaz de manter em sentido qualquer adversário. Como cereja no topo do bolo, destacava-se a qualidade que apresentava a marcar as bolas paradas, o que lhe permitiu apontar alguns golos de beleza plástica assinalável, bem como em inúmeras grandes penalidades apontadas com ineficácia inelutável.

Depois da aventura albicastrense, o jogador regressaria ao Vitória na temporada de 1992/93. Com o brasileiro Marinho Peres ao leme, a temporada, a título colectivo não correria pelo melhor. O treinador, lendário entre os vitorianos, não teria a prestação que houvera alcançado seis anos antes e seria mesmo despedido com o nosso clube com a corda na garganta no que à manutenção tange. Seria substituído por Bernardino Pedroto que conseguiria o objectivo mínimo, que era manter o Vitória no escalão maior.

Quanto a Quim Berto, apesar desta instabilidade desportiva, conseguiria afirmar-se como uma escolha válida para o onze. Seriam 25 desafios que o lateral disputaria nessa época, com especial destaque para a sua estreia logo na primeira jornada do campeonato, frente ao Beira-Mar, num triunfo por duas bolas a uma com golos de Pedro Barbosa e de Tanta.

A época continuaria com outro inesquecível aliciante. Seria, pois, nessa temporada que o jogador se estrearia nas competições europeias. Numa noite para jamais esquecer, a da vitória por três golos sem resposta frente aos espanhóis da Real Sociedad, entraria para disputar seis minutos, substituindo Pedro Barbosa, um dos heróis de tão sublime vitória.

Porém, o melhor estava para vir nas seguintes.

Ainda com Bernardino Pedroto ao leme, confirmaria todos os seus predicados. Um lateral versátil, capaz de actuar em ambas as faixas laterais da defesa, mas sempre com pulmão para apoiar o ataque, criar desequilíbrios, tentar a sorte num remate bem colocado (ainda que o primeiro golo de branco vestido tardasse em chegar e ainda não ocorresse nesse ano). Porém, era notório que em Guimarães existia um lateral capaz de ser considerado de largo futuro e a ver com atenção.

No ano seguinte, viria a definitiva explosão. Com Quinito ao leme, como ideólogo de um futebol capaz de apaixonar o país, Quim Berto terá atingido o seu apogeu como jogador do nosso clube. Um lateral com liberdade para subir no seu corredor, para combinar com os atletas de excelência que actuavam à frente dele e com o bónus de finalmente ter sentido o que era marcar um golo pela equipa do Rei. Aconteceu no inesquecível empate a três, em Santo Tirso, frente ao Tirsense, num daqueles jogos, que diz que viu, terá sido do melhor que alguma vez se disputou no nosso campeonato.

Porém, o momento mais inolvidável daquele ano, ocorreria no estádio da Luz. O Vitória, em exibição sublime, arrebatadora, fascinante bateria os encarnados de Artur Jorge por três bolas a uma, com o lateral a abrir a contagem, ao bater o lendário Michael Preud’Homme, com um remate bem colocado. Depois de se afirmar, descobria o caminho para o golo!

Nas duas temporadas e meia seguintes que continuaria a envergar o Rei na camisola confirmaria essa senda goleadora.

Completamente dono do lado esquerdo da defesa, com José Carlos dono e senhor do outro lado, seria monstruoso. Cada vez com maior confiança, enchia o campo, com uma rapidez digna de um TGV e uma capacidade técnica de assinalar. Aliás, aquela equipa vitoriana, com solistas como Vítor Paneira, Zahovic, Capucho era, absolutamente irresistível…ondas de futebol total, onde todos se sentiam integrados.

Continuaria a ser imprescindível, a alvejar a baliza, contribuindo para uma inesquecível segunda volta sob a orientação de Jaime Pacheco, depois de um início atribulado com Vítor Oliveira.

A temporada de 1996/97 seria aquela em que daria mais nas vistas, a ponto de ser cobiçado pelos mais titulados emblemas do país. Na verdade, os cinco golos apontados, com especial destaque ao que novamente desfeiteou o guardião belga do Benfica, no D. Afonso Henriques, levando ao despedimento do treinador Paulo Autuori, demonstraram estarmos perante um dos melhores laterais portugueses.

Começaria, contudo, a temporada seguinte no Vitória. Aliás, só sairia em Janeiro desse exercício para o Sporting. Até esse momento, ao dia 10 de Janeiro de 1998, dia em que se despediu do Vitória, num jogo em que os Branquinhos foram eliminados da Taça de Portugal pelo Moreirense (um must do fim de século XX e início do XXI), realizaria 18 desafios tendo apontado dois golos. Aliás, despedir-se-ia dos golos de Rei ao peito no jogo anterior, a essa eliminação, numa vitória por três bolas a uma perante o Alverca.

Quim Berto haveria de partir rumo ao Sporting e aí continuar a carreira. Porém, o coração, como bem sabemos, continuaria a sofrer pelo Vitória. Aliás, como é perceptível nas suas inúmeras intervenções públicas, sempre a defender o que acha que é melhor para o nosso clube.

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