Recordar… o Vitória #73

Por Vasco André Rodrigues, Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

Falem com um vitoriano de 60 anos para cima e perguntem-lhes qual terá sido o brasileiro de pontapé canhão que mais os marcou!

A resposta não deverá durar muito… Com pontapé fulminante, quase com um torpedo nas botas, só mesmo Caiçara, um dos primeiros brasileiros a chegar a Guimarães para vestir a camisola do Rei.

De seu nome Fernando Barbosa Gomes chegaria proveniente do Náutico, graças à recomendação de António Pimenta Machado, que, fruto do seu olho clínico, indicou outros jogadores brasileiros de fino quilate ao nosso clube.

Caiçara, esse, chegaria a Guimarães para representar o clube na temporada 1959/60, permanecendo pelo Berço-pátrio por seis temporadas.

Seis temporadas em que, à excepção da última, a de 1964/65, seria peça fundamental nos onze gizados pelos treinadores, que sempre viram na sua capacidade técnica e na sua capacidade física uma mais-valia a não dispensar, que fariam dele o dono da lateral direita da equipa.

Estrear-se-ia pelo Vitória a 20 de Setembro de 1959, na primeira jornada desse campeonato, numa gorda vitória por sete bolas a zero perante o Lusitano de Évora, em desafio em que o lendário Edmur realizou um hat-trick.

O primeiro golo, esse, chegaria na jornada seguinte numa derrota por três bolas a duas em casa do FC Porto. O Vitória, apesar dessa derrota, jogava bem e acabaria a primeira volta em grande forma no terceiro posto. O pior viria na segunda metade da prova, em que singelos cinco pontos nessa segunda volta frustrariam desígnios mais altos.

A época seguinte seria a da confirmação da qualidade do jogador. Marcaria cinco golos e um que entrou para a lenda das mais belas histórias vitorianas. Estávamos a 19 de Fevereiro de 1961 e o Vitória recebia o Leixões, num jogo que naqueles tempos tinha uma rivalidade superior à dos dias de hoje. Corria o sexto minuto daquela contenda e era assinalada uma grande penalidade a favor do nosso clube. O habitual marcador, Caiçara, avançou decidido e rematou à figura do guardião matosinhense Rosas. Grande penalidade falhada… nada disso! Com a força do remate, o pobre guardião foi incapaz de se manter de pé e seria impelido com a bola para dentro da baliza, carimbando-se assim o primeiro golo da vitória por duas bolas a uma dos Branquinhos. Aliás, este seria um dos momentos de uma temporada inesquecível e que, até aquela data, foi a melhor temporada de sempre do clube, que terminou no quarto posto da tabela.

Ao contrário dessa, a seguinte foi conturbada e difícil. Mudanças de treinador, o presidente Casimiro Coelho Lima a abandonar o cargo e uma instabilidade que se fez sentir na equipa. Por isso, Caiçara perdeu algum do protagonismo da temporada anterior. Aliás, essa temporada teria uma história marcante. Assim, no último jogo da época enfrentavam-se Vitória e FC Porto. O nosso clube a precisar de vencer para se salvar, os portistas para se sagrarem campeões nacionais. Num jogo sofrido, duro, mais lutado que jogado, a felicidade sorriria aos Conquistadores…um golo do, então, jovem promissor, Augusto Silva, garantiria os dois pontos e uma salvação que, a dado momento da temporada, pareceu improvável.

A época seguinte, com o treinador argentino José Valle ao leme, seria o regresso à tranquilidade. Tranquilidade classificativa que se cifrou no sexto posto, no regresso do lateral, também, goleador, que apontou dois golos e na disputa da final de Taça de Portugal frente ao Sporting.

O ano desportivo de 1963/64 seria deslumbrante para os Branquinhos que terminaram a temporada no quarto posto, mas com os mesmo pontos do terceiro posto, os leões, ficando, mais uma vez, às portas das competições europeias.

Para Caiçara, seria a melhor temporada a nível de finalização. Seriam seis os golos, por si, apontados, e uma preponderância brutal de um jogador que era considerado um dos melhores em Portugal a actuar na sua posição.

A época de 1964/65 seria a última do brasileiro com a camisola do Rei. Fruto do aparecimento de uma jovem revelação, chamada Gualter, um produto da formação que haveria de transferir-se para o FC Porto, o brasileiro só seria chamado à liça por seis vezes, mas a tempo de marcar um último golo pelo Vitória. Para se fechar o círculo, nada melhor que o fazer ao Leixões, afinal o clube ao qual marcou um dos primeiros golos na sua temporada, o seu mais emblemático naquela grande penalidade a Rosas e, por fim aquele final.

No final da temporada rumaria ao Salgueiros para terminar a carreira e regressar ao Brasil.

Contudo, guardaria o Vitória e Guimarães no coração, a ponto de, antes de morrer, em 2013, ter regressado a Guimarães a convite de um grupo de amigos vimarenses, “os Administra-dores” para, cheio de emoção, com eles conviver e relembrar inesquecíveis momentos…

Uma lenda!

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