Recordar… o Vitória #75

Por Vasco André Rodrigues, Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

Absolutamente mágico…

Um daqueles números dez que se tornam inesquecíveis na história de um clube.

Falamos do bósnio Dane Kupresanin, chegado ao Vitória na temporada de 1992/93, proveniente do Famalicão, e que conquistou o coração de todos os Conquistadores pelo seu talento e dedicação.

Na verdade, o início dos anos 90 ficaram marcados pela imprevisibilidade de um playmaker que construiu uma história romântica, polvilhada com um toque de tragédia e que terá deixado todos os adeptos com a dúvida até onde poderia ter chegado em circunstâncias normais.

Tendo chegado ao Vitória proveniente do Famalicão onde houvera realizado uma temporada de encantar, sendo a alma criativa dos famalicenses, desde os primeiros momentos comprovaria tais atributos pela sua técnica apurada, pela sua visão límpida de jogo, pela sua capacidade de pegar na batuta e, qual maestro, pautar o jogo ofensivo da equipa.

Estávamos na temporada de 1992/93 e aquele ano, como em tantos outros, nos corações vitorianos era desencadeado por emoções e esperança. Era o regresso de Marinho Peres, era o ano da explosão de Pedro Barbosa, então ainda somente Pedro, era um naipe de jogadores de bons créditos contratados. Porém, como tantas vezes sucedeu ao longo da nossa história pouco ou nada se confirmaria!

O início da temporada seria coincidente com a estreia do fantasista balcânico. No desafio inaugural frente ao Beira-Mar que o Vitória venceria por duas bolas a uma, Dane teria a missão de pautar o jogo ofensivo da nossa equipa…fê-lo com mestria, como sempre ao longo da sua carreira.

O Vitória tinha, indubitavelmente, um fantasista capaz de fazer sonhar!

O seu primeiro grande momento ocorreria na sua estreia europeia pelo clube do Rei… naquela primeira eliminatória frente à Real Sociedad, o jogador seria monstruoso, autor de dois golos capaz de levantar o estádio e catapultar os Branquinhos para uma estrondosa vitória por três bolas a zero!

A temporada continuaria com mais altos e baixos, ainda que o jogador continuasse a ser indispensável. Assim marcaria mais dois golos no triunfo sobre o Farense e seria instrumental em desafio da Taça de Portugal contra o Vizela.

Porém, a faceta sebastiânica do jogador estava para se revelar, no último mês desse ano!

Assim, em jogo perante o Boavista, em noite de domingo diluviano, o Vitória que, até aí não encarreirava, foi extraordinário, terá feito a exibição da época pela raça, pelo querer… e pelo golo do herói destas linhas quase do meio campo, que aproveitando um mau alívio do guarda-redes Alfredo, com rara e inigualável mestria visou, de modo fantástico, a baliza de quase do meio-levando a que um adepto agredisse o técnico vitoriano com um guarda-chuva. Memorável!

O jogo seguinte selaria, talvez, a carreira do médio ofensivo. Perante o FC Porto, uma entrada mais dura de Aloísio, logo aos 11 minutos do desafio, marcaria o destino da temporada do médio vitoriano e, talvez, da sua carreira! O diagnóstico seria inelutável e doloroso: rotura de ligamentos e seis meses de paragem, só regressando no final desse exercício!

A temporada seguinte, apesar do jogador a ter encetado, seria a menos produtiva deste. Ainda a acusar fisicamente as sequelas do malogro sofrido, teria mais dificuldades em impor o seu futebol, ainda que, quando disponível, fosse quase um elemento inamovível do onze desenhado por Pedroto.

Contudo, nesse ano, e, novamente, frente ao FC Porto teria momento para jamais esquecer. Num jogo renhidamente disputado, em que o marcador teimosamente não saía do resultado inicial, o guardião Madureira seria expulso. Com as substituições já todas realizadas, era necessário um plano alternativo com um jogador de campo a avançar para a defesa das redes vitorianas. Seria Dane o escolhido, dando, durante os quinze minutos que exerceu essa função uma segurança digna de um profissional das balizas.

No ano seguinte, sob o comando de Quinito, seria o que melhor expressaria as suas capacidades. Aliando a sua sublime técnica individual ao colectivo que gostava de jogar um futebol enleante e sedutor, em 24 jogos apontaria 6 golos, com especial destaque para o tento do êxito perante o Tirsense, ou o bis no empate a três na Madeira, frente ao União.

A temporada de 1995/96 seria a última do jogador no Vitória e no futebol profissional. Com cada vez mais dificuldades físicas, mas ainda a espalhar o perfume do seu futebol, numa equipa de solistas como Zahovic, Capucho e Vítor Paneira.

Porém, aquele 10 de Fevereiro de 1996, na gorda vitória por seis bolas a zero frente ao Marítimo, seria a última vez que envergaria a camisola do Rei e, simultaneamente, que disputaria um jogo de futebol. Tendo entrado em campo aos 68 minutos para substituir Zahovic, teria de ser substituído treze minutos depois por Soeiro, fruto de uma lesão, sendo que no jogo anterior, em Leiria, na vitória por duas bolas a uma houvera marcado o seu último golo de Rei ao peito.

Não mais envergaria a camisola do Vitória, nem sequer voltaria a entrar num campo de futebol. No final da temporada anunciaria a sua retirada, com, apenas, 29 anos, com a ilusão de ter podido ter chegado mais longe….contudo, a história do homem que, actualmente, é taxista em Nova York é digna de um herói dos tempos modernos… do céu ao inferno de um jogo para o outro!

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