Recordar… o Vitória #80

Por Vasco André Rodrigues, Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

Um talento com um feitio original… um defesa central de potencial inesgotável e, provavelmente, não aproveitado.

Porém, para um jogador atingir o topo, chegar ao máximo das suas capacidades, o talento somente não chega. É preciso predisposição para isso.

Esta descrição poder-se-ia aplicar a um defesa central que actuou no Vitória em finais do século passado. Falamos de um longilíneo brasileiro que conseguiu conquistar tudo e todos pelas suas capacidades, mas que deixou uma indelével marca pelos momentos rocambolescos que protagonizou.

É verdade, falamos de Alexandre, aquele central dotado de um jogo aéreo imperial e de uma técnica que o poderia levar a actuar em posições mais adiantadas do terreno e, mesmo assim, desequilibrar.

Um diamante, pois, em estado bruto que chegou ao Vitória no início da temporada de 1996/97, com 21 anos, proveniente do Atlético Mineiro, um dos emblemas mais conceituados do Brasil. Porém, atento à sua juventude, normal era nesse seu primeiro ano da sua primeira experiência fora do seu pais que fosse pouco utilizado, ainda para mais quando o treinador Jaime Pacheco podia contar com uma dupla rotinada e de méritos firmados composta por Arley Alvarez e Vítor Silva.

Todavia, a personagem principal destas linhas não deixaria os seus créditos por mãos alheias, impondo-se imediatamente como titular nos Conquistadores.

Aliás, como prova de aposta nas suas imensas capacidades, teria a sua estreia, talvez, no jogo mais melindroso daquela temporada, a 10 de Setembro em Parma, aquele colosso que todos temiam e que obrigou o treinador a dizer que “iria jogar ao ataque, fechadinho à defesa”. Para isso, apostou brasileiro ao lado de Arley, visto Vítor Silva encontrar-se impedido. Este não se amedrontou, batendo-se com bravura e classe contra lendas como Chiesa e Zola sem dar parte de fraco. Confirmava-se, o Vitória tinha um verdadeiro achado no seu último reduto.
Aliás, se dúvidas existissem seriam retiradas quinze dias depois numa das mais belas noites do vitorianismo, em que um colosso de milhões cairia com estrondo em terras d’El Rei…em dia de estreia europeia de um tal de Gianluigi Buffon! Alexandre bateu-se de modo imperial, comandou a defesa, ajudou o Vitória a fazer história e confirmou que estávamos perante alguém que, se quisesse, teria o mundo a seus pés… para alegria do departamento financeiro do Vitória a esfregar as mãos a um hipotético futuro encaixe financeiro.

A temporada continuaria com o central a começar a demonstrar o seu peculiar modo de ser. Tão peculiar que combinava grandes exibições com expulsões despropositadas, com momentos de excelência pontuados pela estreia a marcar na derrota por três bolas a duas frente ao Benfica, em desafio a contar para a Taça de Portugal, num cocktail explosivo de emoções, numa montanha russa entre a excelência e os excessos. Excessos que o faziam querer chegar aos treinos de helicóptero, treinar em tronco nu em pleno Inverno ou completamente engripado, ou confessar que ao pequeno almoço comera uma pizza e bebia uma Coca-Cola… um homem sui generis que seria útil na obtenção de mais um lugar europeu no final dessa temporada!

A segunda temporada coincidiria com o adeus a meio desta de Jaime Pacheco e o regresso de Quinito ao banco do Vitória. Com o mestre de Setúbal, o Vitória faria campeonato de eleição, igualando a melhor classificação da sua história, ou seja, o terceiro lugar e com o bónus de apresentar a defesa menos batida da Europa… um feito para o qual o jogador foi pedra basilar com 32 desafios disputados e dois golos! Um verdadeiro garante da defesa, um baluarte de importância superlativa, ainda que a sua relação com o treinador, amado por todos, não fosse a melhor, a ponto de comprar um cachorro, que passou a acompanhá-lo na sua aventura vitoriana, e chamá-lo, jocosamente, com o nome do seu técnico.

Quinito, no final da época, partiria e entraria para o seu lugar, o, então, jugoslavo Zoran Filipovic.

O Vitória não atingiria a excelência da passada temporada, principalmente com este, já que depois seria substituir regressar o “velho Quinas”. Porém, antes disso, num dos melhores desafios sob o comando do balcânico, o Vitória recebeu o eterno rival.

Num fim de tarde de uma Segunda-feira de Setembro de 1998, os Conquistadores alcançaram uma das últimas grandes goleadas sobre o figadal oponente… foram cinco golos sem resposta para gáudio dos adeptos vitorianos, até aquele minuto 90 em que o jogador, sem razão aparente, meteu a bola nas suas próprias redes, permitindo que o adversário reduzisse a diferença. Apesar de nunca ter havido qualquer palavra dos intervenientes sobre o sucedido, o mito urbano passa pelo facto do jogador ter-se aborrecido com as constantes indicações do guardião Pedro Espinha e para se vingar dele, com o jogo ganho, pregou-lhe uma partida… deixamos isso à avaliação dos leitores.

Porém, apesar disso, continuou a ser pedra fulcral na equipa, com mais 24 desafios disputados e mais dois golos no pecúlio. Contudo, o sonho de uma grande transferência pareciam toldar o jogador que passou a ser mais conflituoso na relação com colegas e funcionários do Vitória, como a forçar a sua partida. Inclusivamente, falou-se que teria tudo tratado para rumar à Premier League, ao Newcastle, algo que se revelaria impossível pelo facto do atleta não ser internacional brasileiro, logo sem capacidade de ter o denominado work permit para jogar na Velha Albion.

A temporada de 1999/2000 seria a derradeira de Alexandre no Vitória. Com Quinito no leme, naquela que foi a temporada de aposta numa nova geração composta por nomes como Fernando Meira, Pedro Mendes, Lixa ou Rego, o jogador começou por fazer parte de um tridente defensivo composto por si, por Márcio Theodoro e com Meira a líbero, numa epifania de Quinito que haveria de valer grande carreira ao vimaranense.

Contudo, esse ano desportivo, pelo menos no que tange ao Vitória, duraria, apenas, 14 jogos. O jogador não se sentia realizado, ansiava por um novo desafio e despedir-se do clube numa contenda de boas memórias para os Branquinhos. Falamos do prélio disputado a 19 de Dezembro de 1999, em que o nosso clube já a actuar num sistema de dois centrais, não apostou no seu contributo a titular. Porém, substituiria o compatriota Márcio Theodoro, que saiu lesionado, numa bela vitória sobre os encarnados por duas bolas a uma, graças aos golos de Brandão e de Riva, que anularam o precoce tento de Nuno Gomes.

Alexandre regressaria ao Brasil para se afirmar nos melhores emblemas do país, voltando a emigrar para viver uma experiência nos Emirados Árabes Unidos entre 2005 e 2009.

Acabaria a sua carreira em 2012, com a eterna dúvida se poderia ter ido mais além…talvez, mas a história do futebol também se escreve com estes homens de feitio especial!

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