Recordar… o Vitória #82

Por Vasco André Rodrigues, Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

Quem tiver que se dirigir ao Arquivo da Câmara Municipal, certamente travará conhecimento com um dos avançados mais temíveis do final da década de 70, início da de 80 do século passado do Vitória.

É nesse local que o afável e simpático Edmundo Paulino Sena, actualmente, trabalha. Perguntará o leitor, afinal de quem se trata?

Acreditamos que aos mais novos o nome de guerra do senhor Sena nada dirá, mas, se às pessoas com cerca de 50 anos, falarmos em Mundinho, dir-nos-ão de imediato, “mas que grande avançado”!

Na verdade, foi mais um dos homens que parece ter bebido da Água da Penha, como dizia com bonomia o saudoso Ernesto Paraíso, o primeiro brasileiro a jogar nos Conquistadores, e que assim justificava o facto de, depois de dar a sua carreira por finda, ter-se radicado em Guimarães até ao fim dos seus dias.

Mundinho, fruto da sua vida pessoal, também se tornou vimaranense. Aliás, para além da sua história desportiva, causaria alvoroço na sociedade vimaranense por viver um grande amor com uma jovem nove anos mais nova, ele com 24 e ela com 15, e que levaria a que a apaixonada abandonasse a casa paterna para com ele viver! Como nos contos de fadas, ainda hoje estão juntos, numa relação que começou do modo turbulento mas apaixonado, com que o avançado brindava as defesas adversárias e que se mantém com o sucesso que ele alvejava as balizas adversárias.

O avançado chegou ao Vitória na temporada de 1978/79 para desempenhar papel preponderante na equipa orientada por Mario Wilson. Porém, o período de adaptação do jogador, aliado à instabilidade vivida nesse ano, com o treinador a abandonar o clube para orientar a selecção nacional – e que faria que em Assembleia Geral fosse deliberado que jamais poderia voltar a ser treinador do Vitória – o que levaria a que o histórico Daniel Barreto assumisse as rédeas da equipa, fez com que o possante avançado, que chegou do Santa Cruz, apenas apontasse quatro golos em dezanove jogos. Aliás, nesse ano, as estrelas maiores da equipa eram o jovem Abreu e o inesquecível Jeremias.

Mesmo assim, a 17 de Setembro de 1978, numa manita imposta ao homónimo sadino, Mundinho estrear-se-ia de Rei ao peito, ao entrar aos 81 minutos da partida para o lugar de outro atleta canarinho, Vicente Belmondo.

A partir desse momento seria alternativa a ter em conta na equipa, estreando-se a marcar num dos jogos mais apetecidos para qualquer vitoriano: frente ao FC Porto, num empate a um. Em plenas Antas, o brasileiro colocaria os adeptos Conquistadores em ebulição com o golo inaugural do jogo, para, posteriormente, o seu compatriota Marco Aurélio igualar a partida.

Nesse momento, o jogador confirmava os predicados que o fizeram ser contratado. Força física, sentido de golo e uma assinalável capacidade de remate, que fazia com que os adeptos vitorianos olhassem para ele com esperança de se vir a tornar o abono de família da equipa.

Não o seria, deixando essa honra para Jeremias, que regressado da aventura espanhola ainda seria o melhor marcador da equipa.

Na temporada seguinte, já sem o parceiro goleador, Mundinho assumiria as rédeas do ataque vitoriano. E seria devastador… um furacão de golos, capaz de fazer a equipa, inicialmente treinada pelo argentino Imbelloni, e depois por Cassiano Gouveia, sonhar com um apuramento europeu. Não o conseguiria, repetindo-se a classificação mais usual dessa década, o sexto posto.

Porém, o herói destas linhas conseguiria fazer balançar as redes adversárias por dezasseis vezes. Um número apreciável de um homem com “golo na ponta das botas”! Merecerá, certamente, destaque o hat-trick na vitória por inacreditáveis cinco bolas a quatro frente ao Portimonense no Algarve, numa tarde em que os Conquistadores estiveram a perder por três bolas a uma e por quatro a três… mas, era a tarde do simpático brasileiro que, conjuntamente, com os golos de Abreu e de Dinho trouxeram o triunfo para Guimarães.

A temporada seguinte seria a última de Mundinho no Vitória. Com um novo presidente ao leme (António Pimenta Machado), uma equipa técnica de peso (José Maria Pedroto, Artur Jorge e António Morais) ao leme e homens como Blanker na equipa, perderia um pouco da sua relevância. O seu instinto goleador seria domesticado!

Mesmo assim, ainda conseguiria festejar o sal do futebol por cinco vezes… uma mão cheia de vezes que permitiu aos Branquinhos cheirar um apuramento europeu, que, mais uma vez, não chegaria!

Destes, destaque para a contribuição na estrondosa goleada por cinco bolas sem resposta ao eterno rival, e ao último golo de branco vestido perante os Belenenses numa robusta vitória por quatro bolas a zero.

No final da temporada, Mundinho partiria rumo a Braga, para encetar um périplo que, também o levaria ao Marco, Chaves, Freamunde, para acabar a carreira, já definitivamente radicado em Guimarães, na temporada de 1992/93, no Grupo Desportivo de Selho.

Um goleador do século passado que deixou memórias, que não hesita em partilhar!

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