Recordar… o Vitória #83

Por Vasco André Rodrigues, Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

Há figuras que quase se confundem com a história das instituições!

Daquelas que tornam-se uma parte indissociável da mesma, capazes de serem reverenciados pelos mais novos, respeitados pelos seus contemporâneos e endeusados por quem só foi capaz de ouvir os relatos das suas façanhas.

No Vitória, entre muitos homens que se tornaram ídolos, há um que ocupa um dos lugares mais altos da nossa história, seja pelo seu enorme talento, seja pelo apego à causa vitoriana que professou até ao último dos seus dias a 11 de Novembro de 2018.

Falamos de Daniel Barreto, um dos atletas que mais vezes vestiu a Branquinha na história do clube, que depois de findar a sua carreira de jogador, continuaria ao serviço do clube, para depois assumir as funções de treinador dos veteranos do mesmo. Por fim, quando nenhum cargo tinha no clube do Rei, tinha algo que demonstrava, de modo inelutável e apaixonante o seu amor aos Branquinhos, que era o facto da sua loja, bem em frente da antiga sede do Vitória na Rua D. João, conter um espólio de valor inestimável de recordações, galhardetes, fotografias do Vitória. Um verdadeiro tesouro capaz de prender miúdos e graúdos, que de lá saíam com a alma impregnada de paixão pelos Conquistadores.

Daniel chegou a Guimarães, proveniente do Ponte da Barca, de onde também era natural, na temporada de 1953/54. Entre o Vitória e o Braga escolhera os branquinhos para agradar a seu pai, adepto confesso vitoriano por culpa de alguns amigos que sentiam o clube. Essa época, ainda nos juniores, seria a primeira de dezassete ininterruptas, em que envergaria o símbolo vitoriano. Aliás, para se entender a relevância do jogador, poderemos dizer que atravessou quase um quinto da história do clube como jogador, sendo que se alargarmos para todas as funções que desempenhou no clube tal passará para mais de metade da nossa história.

Como jogador, Daniel viveu alegrias e desilusões.

Começaria por ser parte integrante das várias equipas que falharam o regresso à Liga principal…aquele pesadelo que se viveu em Guimarães, durante cinco anos, com o Vitória a parecer incapaz de regressar ao máximo campeonato português.

Teria o seu primeiro grande êxito na temporada de 1957/58, com o Vitória a, finalmente, alcançar a subida. Numa final sofrida com o Salgueiros, Daniel exemplificaria o sentimento do clube: graças a uma pancada com o nariz fracturado, a jorrar sangue, continuaria em campo para ajudar os seus colegas a cumprirem um sonho, que era o do regresso ao escalão principal. Seria conseguido para ser uma realidade até ao fatídico ano de 2006.

A partir daí viveria os loucos anos 60 no Vitória. O período de afirmação dos branquinhos! Com a camisola do Rei chegaria ao Jamor, em 1962/63, para perder a final da Taça de Portugal contra o Sporting! Festejaria com Edmur, o facto do avançado brasileiro vencer a Bola de Prata! Quartos lugares, em que foi dos principais artífices, ao lado de nomes como Mendes, Peres e tantos outros! Enchentes e idolatria dos adeptos!

Mas, como no Vitória, a vida, leia-se épocas, são, desde sempre, montanhas-russas, lutaria como um leão naquele jogo final da temporada 1961/62 em que o Vitória precisava de vencer o FC Porto para se salvar da despromoção, enquanto os azuis e brancos sonhavam com o título em caso de triunfo. Seriam os branquinhos a sorrir!

Além disso, viveu de perto a evolução do clube! Foi ídolo na Amorosa, aquele mítico recinto que os mais velhos falam com carinho e saudade. Pasou de lá para o Municipal, vivendo, de perto a sua inauguração, ao actuar no jogo da sua inauguração frente ao Belenenses.

No meio de tantos feitos marcantes, não poderemos esquecer aquela temporada de 1968/69. A primeira vez que em Guimarães se pronunciaria a palavra sonho, a palavra título, que fugiu numa arbitragem infeliz no Restelo, quase no final do campeonato. Um triunfo perante os azuis da Cruz de Cristo significaria que o Vitória ficasse com os mesmos pontos que Porto e Benfica, mas em vantagem no confronto directo… porém, as forças superiores do futebol, como sempre, não quiseram!

Uma época inolvidável, contudo, com o Vitória a acabar no terceiro posto da tabela e, pela primeira vez na sua história, a apurar-se para as provas europeias!

Esse seria o último ano que Daniel seria titular no Vitória. Fruto da idade, passaria a suplente, ainda com estatuto inatacável no balneário.

Acabaria a carreira de jogador fora de Guimarães, em Paços de Ferreira em 1973/74. Regressaria, de imediato, ao Vitória para ser treinador adjunto, onde desempenharia um papel importante ao lado de Mário Wilson. Porém, seria por causa deste que seria afastado do clube por alguns anos. Após o presidente Gil Mesquita ter-se incompatibilizado com o treinador por este querer, também, orientar a selecção nacional, o mesmo seria despedido. Para o seu lugar, a aposta seria no herói destas linhas, que, imediatamente, após um resultado positivo no Restelo afirmou que tal devia-se ao bom trabalho do seu antecessor e de quem era adjunto. Seria imediatamente despedido, numa verdadeira injustiça para alguém que tinha dado quase toda a sua vida a uma causa!

Voltaria passados alguns anos ao Vitória, a sua verdadeira casa! Seria treinador dos veteranos e alvo de inúmeras homenagens por todos os presidentes que se seguiram a Mesquita. Todos entenderam o manancial de vitorianismo que brotava da alma de um homem bom, cuja maior paixão terá sido o símbolo de D. Afonso Henriques!

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