Recordar… o Vitória #88

Por Vasco André Rodrigues, Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

O sonho de qualquer jovem apaixonado por futebol e vitoriano é poder representar as cores do clube ao seu mais alto nível. Encetar um percurso que desde as escolinhas o faça chegar ao topo da montanha, leia-se seniores.

Um sonho de muitos, mas que poucos conseguiram cumprir. Entre eles, está José Carlos Gonçalves Abreu, simplesmente conhecido por Abreu, provavelmente, um dos jogadores mais talentosos que alguma vez saíram dos escalões de base vitorianos.

Natural de São Martinho de Candoso, aos 13 anos já pertencia aos escalões de formação do clube, numa caminhada que o catapultaria até aos seniores.

Abreu era um médio de baixa estatura, raçudo mas dotado de apurada técnica e que fazia o que qualquer um de nós faria com aquela camisola encostada ao peito: dava tudo por ela, deixava em campo todas as gotas de suor que o seu corpo franzino era capaz de libertar, procurando ir sempre mais além. Tais predicados fá-lo-iam notado, ainda, nos juniores, a ponto de vestir a camisola da selecção nacional portuguesa, ainda júnior, em 1972.

Relativamente à equipa sénior do Vitória, a estreia ocorreria, também, por essa altura, num desafio de final de temporada disputado no Montijo, frente à equipa da casa. Assim, pela mão do treinador Mário Wilson, cumpriria o primeiro de duzentos e oitenta e seis jogos de Rei ao peito, num dia em que o Vitória empataria a um, graças a um golo de Tito. Estavam lançadas as bases para uma grande carreira.

A partir da temporada seguinte, o jovem Abreu tornar-se-ia inamovível da zona medular vitoriana. Uma peça imprescindível na manobra da equipa, capaz de a impulsionar para o ataque, mas, simultaneamente, dar o corpo ao manifesto em tarefas defensivas. Um enorme pulmão a fazer respirar todo o conjunto e que conseguiria ser totalista nessa época, não perdendo algum minuto dos disputados. Um verdadeiro maratonista de regularidade impressionante!

Aliás, seria nessa temporada que apontaria o seu primeiro golo na equipa sénior do Rei. Sucederia numa vitória por quatro bolas a uma sobre o Oriental, com os manos Pinto (Manuel e Custódio) a marcar cada um tento e os marvilenses a ajudarem à festa com um autogolo. Era a primeira das trinta e cinco vezes que festejaria o sabor mais doce do futebol com a camisola que era a sua paixão! O que mais alguém poderia desejar?

Era o encetar da conquista de um estatuto de imprescindibilidade, de ídolo. O início de uma década em que, sempre, fez parte do onze vitoriano, apontando golos, fazendo assistências, roubando bolas…lutando sempre com raça e abnegação pela causa vitoriana. Aliás, um exemplo tão grande, que aos 23 anos já era capitão de equipa, demonstrando o respeito e a consideração que todos tinham por si!

Pelo Vitória viveria alegrias, como o quarto lugar da temporada de 1982/83 que permitiu ao clube regressar ao galarim europeu. Como o golo que, em 1976, ajudou a derrotar o Sporting nas meias finais da Taça de Portugal. Porém, viveria tristezas e injustiças, a maior delas, talvez, como consequência desse golo. Falamos do roubo desmesurado, e não tenhamos medo das palavras, que um homem (com h muito pequeno), de nome António Garrido, fez ao Vitória nessa final. Uma vingança ao clube que tinha vetado o seu nome para esse jogo, com quem já tinha tido problemas e que, como muitos, actualmente, parecem ter um prazer sádico em prejudicar a equipa do Rei.

Outro ponto da sua relevância na sua equipa ocorreria na temporada de 1980/81. Apesar de contar, com apenas, 26 anos, após o despedimento do treinador Cassiano Gouveia (o primeiro técnico a ser despedido por António Pimenta Machado) e, enquanto a Santíssima Trindade composta por José Maria Pedroto, Artur Jorge e António Morais, não assumia o comando técnico, seria ele como jogador-treinador a orientar a equipa.

Além disso, conseguria levar o nome do Vitória às Quinas. Abreu seria internacional A por três vezes, tendo-se estreado na Equipa de Todos Nós, pela mão de Juca, em Atenas, frente à Grécia. Seria a primeira de três vezes que representaria a selecção nacional portuguesa, sendo as outras duas com a Alemanha e a Suíça.

Em 1983 esteve em vias de abandonar o Vitória. O Benfica lançar-lhe-ia o canto da sereia, propondo-lhe condições económicas muito vantajosas. Porém, por ser uma instituição do Vitória, seria convencido a ficar pela direcção do clube.

Todavia, passado um ano, acabaria a sua relação com o clube. Insatisfeito pelo técnico austríaco Herman Stessl o enviar para o banco de suplentes, abandonou os balneários e assistiu aquela partida frente ao Varzim, na bancada. Por essa razão, ser-lhe-ia movido um processo disciplinar que culminaria com o abandono do clube, passados 15 anos de nele ter entrado.

Rumaria ao Portimonense para realizar duas temporadas, acabando a carreira em Chaves na temporada de 1985/86.
Porém, Abreu permanecerá sempre como um dos garantes que é possível realizar os sonhos de menino…chegar ao escalão principal do clube do coração e nele tornar-se uma das maiores referências! Uma fonte de inspiração…

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