Recordar… o Vitória #9

Por Vasco André Rodrigues,
Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

Era futebol champagne…

De carne toda no assador, como diria o seu mentor, Quinito, um dos treinadores mais queridos pelos vitorianos!

Uma equipa romântica, a jogar para os golos, como o próprio não tinha pejo em afirmar!

A época, essa, corria bem. Os Conquistadores ocupavam os lugares cimeiros, mostravam ao país talentos como Nuno Espírito Santo, Pedro Barbosa, Pedro Martins, Zahovic, numa equipa que se dava ao luxo de deixar homens como o artista atormentado pelas lesões de nome Dane ou o pré-convocado para o escrete que se sagraria campeão mundial em 1994, Emerson, no banco de suplentes.

Numa temporada em que os Branquinhos nunca se afastaram do seu objectivo essencial, o seu ponto alto ocorreu naquela tarde Primaveril, de 26 de Março de 1995.

O Vitória deslocava-se à Luz para enfrentar o, ainda, campeão nacional, Benfica.

Verdade que os encarnados, da equipa que vencera o título na temporada anterior, com exibição de compêndio de João Vieira Pinto em Alvalade nos 6-3 que entraram na história do futebol português, eram uma sombra.

Artur Jorge, que houvera substituído Toni, nunca conseguiu ser o líder pretendido e a renovação encetada, apesar de ter trazido nomes como Caniggia ou Edilson não estava a surtir efeitos e a reconquista do título, naquela altura, já nem era sonho, nem miragem… era impossível!

Mas, a verdade é que o Vitória nunca houvera vencido na Luz! Até aquele momento tinha sido tarefa homérica, dantesca… quiçá mais psicológica do que material, quiçá fruto daqueles factores externos que todos sabemos existirem ainda hoje.

Mas, uma coisa era sabida… o Vitória iria jogar ao ataque! Em todos os milímetros do campo! Lutando por cada espaço! Dando asas ao romantismo exacerbado de um treinador que desapareceu cedo demais dos contactos sociais, autoflagelando-se (como se tivesse culpa disso!) pela morte precoce do seu filho.

Naquele dia, seria dia de Vitória… uma daquelas tardes que nunca mais sairão da memória dos adeptos.

Logo aos cinco minutos, livre nas imediações da área lisboeta. Quim Berto, o lateral que haveria depois de sair do Vitória representar os dois rivais da Segunda Circular, não hesitou! Uma bola, mesclada de colocação e de força… e até um grande, um dos maiores da história, como Preud’Homme a limitar-se a defender a “menina” com os olhos… se nem um milagreiro como ele era capaz de lhe chegar, só as malhas a poderiam suster! Estávamos com cinco minutos de jogo e o Vitória colocava-se em vantagem.

Porém, duraria pouco… Edilson, um dos poucos a salvar-se do naufrágio encarnado naquele ano, empataria a contenda a meio da primeira parte. A tradição a confirmar-se?

Nada disso… ainda antes do intervalo, Gilmar daria uma de tantas alegrias com que ofertou os vitorianos, ao apontar o segundo golo da equipa! O sonho era bem possível!

A segunda parte seria um festival… um recital! Perante um Benfica atarantado, o Vitória não sofreu, nem sequer pensou em segurar a vantagem! Teve magia, como diria o seu treinador! Assim, o terceiro golo apontado pelo lateral José Carlos, um antigo benfiquista crucificado por Erikson após noite infeliz em Camp Nou, seria a cereja no topo de um bolo saboroso… a Luz caía com estrondo aos pés do futebol champagne, pleno de magia!

Em ano de mutações na cidade, um adepto, entrevistado no saudoso “Domingo Desportivo”, resumiu na perfeição o sentimento comum: “– Este ano temos tudo… tivemos teleférico, tivemos Shopping e estamos a ter Vitória!” Era bem verdade e o quarto lugar final que seria alcançado ficaria mais perto!

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