Recordar… o Vitória #99

Por Vasco André Rodrigues, Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

Terá sido, provavelmente, a maior digressão de adeptos de um clube português ao estrangeiro.

Obviamente que, fruto da emigração, muitas equipas portuguesas, em contendas disputadas em países como a França, a Suíça ou a Alemanha, poderão ter mais apoio… mas, o que diriam se a meio de uma semana de Outubro, quase 4000 pessoas abandonassem o Berço da Pátria, para rumarem a Londres, para apoiarem a equipa da sua paixão, o Vitória?

Tal aconteceu, como todos se deverão lembrar, e ocupará um lugar inelutável e, talvez, inigualável no futebol português… o dia em que uma das mais populosas e cosmopolitas cidades do mundo teve um doce travo a Guimarães.

O sorteio da fase de grupos da Liga Europa da edição de 19/20, a temporada passada, deixava antever duelos apetitosos, que iriam colocar à prova os Conquistadores orientados por Ivo Vieira. Depois de ter eliminado a Jeunesse d’Esch do Luxemburgo, o Ventspils da Letónia e o FCSB, do irascível Becali, que prometera cortar o pescoço em caso de triunfo vitoriano (ainda continua a aguardar o cumprimento de tal promessa), à equipa vitoriana tocaria em sorte três adversários tão apetecíveis, quanto melindrosos: o Standard de Liege, o Eintracht de Frankfurt e o Arsenal.

Desde esse momento, de Agosto de 2019, os adeptos do clube do Rei, apesar de, obviamente, interessados nos jogos europeus anteriores, apontaram na agenda aquele dia 24 de Outubro de 2019, a terceira jornada do Grupo F da Liga Europa, dia em que o clube do Rei iria rumar à capital do país de sua Majestade, para enfrentar um emblema com 133 anos de história e que já foi por 13 vezes campeão de Inglaterra. Um verdadeiro colosso, num embate em que a destemida equipa vitoriana iria ser colocada completamente à prova.

A partir desse dia, as conversas na cidade, iriam dar sempre ao mesmo ponto:
“ – Então encontramo-nos em Londres?
“ – Sim, mas como estão a pensar em ir e onde ficarão alojados?”

Era, praticamente, o desembocar obrigatório das conversas entre os adeptos de uma fé chamada Vitória… de um sentimento a desejar viver a emoção de ver os nobres Conquistadores a enfrentarem os “Canhões” londrinos.

Porém, no dealbar dessa semana, um atroz balde de água gelada… inesperado, aterrador! Com estrondo, a equipa vitoriana era eliminada da Taça de Portugal pelo Sintra Football. Um daqueles acontecimentos que já aconteceu muitas vezes na prova mais democrática do futebol português ao Vitória, mas que na antecâmara de uma contenda de dificuldade máxima poderia colocar a moral, para o jogo seguinte, em estado, no mínimo, dubitativo.

Mas, os bilhetes e as reservas estavam feitas… agora, era viver a aventura londrina.

Seria algo indescritível… Sendo os desafios da segunda mais importante competição europeia às Quintas-feiras, logo, pela quarta de manhã, o aeroporto Francisco Sá Carneiro seria invadido de camisolas e cachecóis brancos…plenos de orgulho, desejosos de serem brandidos bem alto num estádio mítico! Era uma verdadeira invasão e o “Força Vitória” era ouvido em qualquer lugar, a qualquer momento, do referido espaço! Era o amor que voava para a ilha…

Em Londres, desde a primeira hora, o estranho , mas saboroso, sentimento de estar em casa, ainda que bem longe! De a cada esquina darmos de frente com uma cara conhecida, que nos obrigava a soltar um simples “ Então, por aqui? Até os comemos!”, naquela proverbial manifestação de orgulho vimaranense, como estivéssemos em veraneio na, um pouco menos, cosmopolita Póvoa de Varzim e, por coincidência, o Vitória fosse enfrentar o clube local.

Seria, assim, até à hora do jogo… com encontros e convívios a cada hora, um grito de Vitória a cada esquina, um cachecol descoberto fosse perto do Buckingham Palace, fosse no Harrods, fosse na London Bridge…era Guimarães e o Vitória a inundar a cidade.

Chegaria o dia e a hora do jogo…

No ponto de encontro dos adeptos, marcado pelo próprio Vitória, a certeza que os dias anteriores já haviam começado a dissipar. Os vitorianos eram muitos, mais até do que se esperava! Perto da estação do antigo estádio Gunner, o ainda mais mítico Highbury, o vermelho havia desaparecido e Lacazette e Aubameyang naquele pequeno nicho não eram ídolos!

Dali, rumou-se ao estádio…em conjunto… a cantar, com esperança, mas, acima de tudo, com o orgulho num símbolo que desde 1922 desencadeia as paixões mais insanas.

Lá chegados, a sensação seria indescritível. Aquela curva toda pintada de branco e preto. Aqueles cânticos capazes de silenciar os adeptos ingleses. O eco das palmas à entrada da equipa. Um sector completamente pleno, com mais de 3500 apaixonados vitorianos que, de todos os modos e feitios, conseguiram chegar a Inglaterra!

O jogo, esse, seria emocionante, apaixonante, capaz de orgulhar e emocionar o mais embrutecido dos adeptos. O Vitória seria grande…maior que aquele recinto imenso e, por isso, impessoal, ao contrário do anterior recinto do clube da casa, onde a palavra mística era recitada em todas as paredes.

Aliás, seria tão grande que marcaria primeiro, numa traição do londrino Marcus Edwards, que, formado no rival de North London, Tottenham, tornaria o seu primeiro golo com a camisola do Rei ainda mais especial.

Era a loucura… os abraços desmedidos, numa altura em que propagação de vírus era uma expressão desconhecida… o orgulho de uma equipa destemida e descomplexada afrontar o papão…os cânticos altissonantes, capazes de enrouquecer as vozes e secar as gargantas em poucos minutos. Era a nossa voz a atravessar a ilha e a chegar a Guimarães!

Porém, numa saída infeliz do guardião Miguel Silva, haveria o Arsenal de empatar a partida. Nada que nos abafasse a voz… que cerceasse o nosso amor expresso através de cânticos que haveriam de atingir os mais altos decibéis quando Bruno Duarte voltou a fazer aquela redondinha, que por, aqueles momentos, era quase propriedade exclusiva do Vitória, beijar, novamente, as redes do guardião Emiliano Martinez. A loucura, se no primeiro golo, fora descontrolada, o que dizer daqueles momentos que se seguiram ao tiro imparável do brasileiro? Só quem os viveu!

E, assim, chegar-se-ia ao intervalo… com as palavras “esperança e orgulho” a serem recitadas!

A segunda parte seria disputada taco a taco… com oportunidades num lado e noutro, ainda que o controlo e a desenvoltura vitoriana parecessem augurar um momento único e inesquecível.

Até que Unai Emery, então treinador da equipa da casa, resolveu colocar toda a “carne no assador”, para tentar evitar um vexame, atendendo à diferença de disponibilidade financeira das equipas. Lançaria o espanhol Dani Ceballos, e os gauleses Guendouzi e Pépé, um homem que havia custado, poucos meses antes, 80 milhões de euros e que até, esse momento, pouco ou nada havia mostrado.

Para nossa infelicidade, sê-lo-ia nesse dia… nos últimos dez minutos! Empataria a partida num livre directo, ainda que tal não tivesse desmoralizado a equipa, que continuaria a tentar o regresso à vantagem e os vitorianos que sentiam que era possível dar a estocada final.

Mas, não seria…em mais um livre, tão perigoso quanto desnecessário, o franco-marfinense haveria de apontar o golo do êxito do Arsenal, no último lance da partida.

À tristeza da esperança ter-se transformado em desilusão, somou-se o orgulho do vitorianismo ter-se feito respeitar num dos maiores palcos do futebol europeu. O cântico “Vitória até morrer” no final da partida, em jeito de despedida aos bravos Conquistadores que tudo fizeram para deixar orgulhosos quem tantos sacrifícios fizera para ali estar, terá sido a catarse de um amor que nesse dia terá atingido um ponto alto. O Vitória somos nós e onde o Vitória estiver, estarão os Vitorianos…

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