Ricardo “Fox” Pacheco: “O importante foi não desistir”

Ricardo Pacheco começou a jogar em cybercafés, deixou a escola para se dedicar ao Counter Strike, na altura CS 1.6. Do motocross ficou a marca de equipamentos que usava, Fox, o nome pelo qual é conhecido.

Founder da marca Fox Gaming Gear, primeiro atleta Redbull mundial de CS:GO, embaixador da Prozis e embaixador da Betclic, joga com portugueses na Vodafone Giants há dois anos, uma equipa espanhola. Fox passou pelos K1ck, a primeira equipa portuguesa, deu o grande salto para o internacional com os Kinguin e jogou pelos Gamers2. Passou pelos FaZe, os SK, a melhor equipa do mundo, e decidiu ficar por aqui.

© Joana Meneses/Mais Guimarães

Como é que vês o panorama do CS:GO e dos eSports em geral em Portugal?

Em Portugal já está muito melhor, já está muito mais evoluído, e o pessoal já está mentalizado que isto é uma profissão. Até há dois anitos, três, ninguém levava isto a sério. Acho que em Portugal ainda há muita falta de investimento por parte das marcas grandes, que realmente interessam. Ou seja, há marcas como a RedBull, como a Prozis, que se calhar não estão tão dentro da área dos eSports, que andam a investir mais, a Asus também. Acho que falta ainda as marcas entenderem, ou quem está à frente destas marcas, os representantes, entenderem que é preciso investir para isto dar o salto que é preciso. Em Espanha já está noutro nível, em qualquer país já está numa fase muito mais à frente. Aqui temos duas equipas, a minha e outra equipa, mais profissional. De resto, pelo que eu sei, as equipas em Portugal andam nos salários como eu recebia em 2004: 200 euros, 300 euros. Isto acaba, para estas equipas, por ser um part-time para os miúdos, era o que eu fazia na altura também, quando recebia os 200 euros, tinha três trabalhos. Para conciliar tudo é um problema. Em Portugal, somos conhecidos lá fora pela aderência que temos. Somos um país pequeno, mas temos muita gente a jogar CS, muita gente a apoiar, e dizem que os nossos apoiantes são dos melhores. Às vezes a fazer jogos live, em termos de visualizações, temos mais pessoas que um estádio de futebol, muito mais.
Voltando atrás, está muito melhor, somos uma equipa de cinco portugueses, mas estamos a representar uma equipa espanhola. Nenhuma equipa portuguesa nos dá condições para a representar, não investem.

Começaste a jogar há aproximadamente 20 anos. Sentes alguma diferença?

Sinto diferença. Agora sou profissional, posso viver disto, já há alguns anos. Quando eu comecei a jogar era normal que não houvesse salários. Isto basicamente só começou a ser profissional, mesmo mundialmente, quando mudou do CS antigo, o CS 1.6, para o CS:GO, que é o atual. Teve investimento de empresas gigantes mundiais e aí mudou tudo. Tive a sorte, por acaso, de sermos os pioneiros numa equipa internacional, começaram-nos a pagar salários altos. Sabemos que fomos nós que começamos a mudar a maneira de pensar das marcas. Eu quando fui chamado para jogar mais a sério, foi quando houve a mudança para o CS:GO, e foi para criar uma equipa internacional. Era um português, um belga, um norueguês e dois suecos. Fomos os pioneiros numa equipa com um de cada país: o melhor daqui, o melhor dali. E a empresa dos Kinguin, que é uma empresa conhecidíssima no mundo dos jogos já apostou em nós em salários mais elevados. Na altura tínhamos as melhores equipas a virem perguntar se era verdade. Com isso, esses jogadores começaram a exigir às equipas esses valores. Eu nunca pensei na vida ver equipas, hoje em dia, a receber 30 e 40 mil euros por mês por jogador. Isto em salários. O mundo dos jogos envolve tanto dinheiro que as pessoas não fazem ideia, e os valores e números que isto envolve… Acho que as pessoas não entendem mesmo que isto não está como o futebol, mas, a continuar assim, para lá caminha.

Como é começou o teu percurso no CS?

Começou nessas lojinhas que havia aí. Eu, na altura, era um bocado terrorista e faltava muito às aulas, e à beira da minha escola tinha uma lojinha dessas. Um amigo meu, de turma, levou-me para lá uma vez e fiquei viciado logo à primeira. Comecei logo a jogar. Comecei a ir para lá todos os dias até conseguir pedir à minha mãe para me comprar um computador para casa. Fiz uma coisa, que não me orgulho, deixei de estudar de propósito só para jogar. A minha mãe, como é óbvio, e o meu pai, não gostaram muito da ideia, mas como eu faltava muito às aulas e eles viram que não tinham mão, mais valia deixarem-me tentar a minha sorte.

Então já tinhas em mente fazer do CS a tua vida…

Toda a gente sabia que eu tinha talento e que se um dia algum português tivesse sucesso, seria eu. Desde que comecei a jogar tinha aquele dom que, se calhar, poderia dar. O importante foi não desistir, mas a oportunidade veio passado 10 anos. Houve uns anos da minha vida que eu só jogava, não fazia mais nada. Nem saía de casa, era só jogar, só jogar. Depois comecei a ter que trabalhar, porque só estar em casa a jogar não pagava contas. Foi uma fase complicada, porque, entretanto, o meu pai faleceu, e tive que começar a trabalhar para ajudar a minha mãe. Cheguei a ter três trabalhos: o CS, trabalhava como segurança, e trabalhava no shopping. Depois surgiu um convite e deixei tudo do dia para a noite. Foquei-me só em jogar. Até hoje, para já, ainda está tudo bem.

Como é que a tua família viu essa decisão?

O meu pai, na altura, ficou “cego”. O meu pai era amante de motas e eu quando era miúdo fazia motocross. O orgulho do meu pai era quando eu andava de mota, cheguei a ser semiprofissional de motocross. Disse ao meu pai para vender a mota, e acredito que foi um desgosto grande para ele. Infelizmente, não chegou a ver o sucesso que eu tive, que é o que me deixa com mais mágoa. A minha mãe também não gostou, mas deixou-me seguir a minha ideia. Vê os jogos, tem a aplicação no telemóvel e vê. A minha mãe foi a pessoa que mais investiu em mim.

© Joana Meneses/Mais Guimarães

Quando olhaste para o teu primeiro salário, o que é que pensaste?

Comprei logo uma mota [risos]. Foi a minha primeira compra. Senti-me realizado. São valores mais altos, que não estava habituado. Quando me caiu na conta mandei logo mensagem a um amigo meu [risos]. Só aí é que cai um bocado na real.

Qual foi o ponto alto da tua carreira? Ou ainda está para vir?

Já chegou. Joguei na melhor equipa do mundo. Os brasileiros eram os melhores do mundo. Acho que não há dúvidas que esse foi o ponto mais alto da minha carreira. Jogar na melhor equipa do mundo. Jogar para eles, ter o convite. Eu fui jogar, porque um jogador saiu da equipa, e eu fui um bocado em cima da hora. Estava a lanchar e eles mandaram-me uma mensagem a dizer: “Queres vir jogar connosco? Tens de vir amanhã para Los Angeles”. Fui logo fazer a mala e arranquei no dia a seguir para Los Angeles. Não ganhamos o torneio, mas ficamos em terceiro, fui para lá sem treinar. Houve a possibilidade de ficar, eles convidaram-me para ficar lá, só que tinha que ficar lá a viver. Entretanto, a minha namorada, na altura, estava grávida e eu não quis. Na minha cabeça queria ficar, porque via que era uma oportunidade única. Por outro lado, não queria, porque senti um bocado a falta do acompanhamento do meu pai, ele morreu muito cedo. Não queria abdicar dos primeiros anos do meu filho simplesmente para ganhar dinheiro. Já ganhava bem a jogar cá na Europa, e o dinheiro também não é tudo.

Há alguma idade para se começar e acabar essa profissão?

Comecei com 12 ou 11, nem sei. Agora começam mais cedo. Eu digo a toda a gente que não vale a pena fazer o que fiz na altura. Eu, quando era miúdo, e ainda estava cheio de vontade de jogar, eu senti-me muitas vezes “queimado” de tanto jogar, tanto jogar. Há tempo para tudo, ainda para mais quando és um miúdo. Tens tempo para jogar, tens tempo para estudar, tens tempo para fazeres o que quiseres. Estava muito focado naquilo e só queria jogar. Começava a jogar mal, por jogar tantas horas seguidas. Entras num burnout, começas a saber que estás a jogar mal e queres jogar ainda mais. Quando é assim tens de descansar. Não vale a pena deixar de estudar, não vale. Eu tive a sorte, ou não, porque fui eu que insisti, que nunca desisti. Podia não ter acontecido e hoje, se calhar, estava a trabalhar como estive na mesma, que não é vergonha nenhuma. Acho que há tempo para tudo, estudar, jogar, estar com o pessoal na rua. Hoje em dia os miúdos esquecem-se um bocado disso. Ao fim e ao cabo, isso é mais saudável para te dares bem como jogador. Tive problemas, fiquei uma pessoa muito antissocial, tinha complexos, não gostava de sair de casa, não gostava de estar com gente. Cheguei a ir ao psicólogo.
O que eu aconselho é que ninguém faça isso. Mesmo para jogar melhor, é preciso fazer tudo o resto. Estudar, sair de casa, estar com o pessoal, estar com os amigos. Depois a jogar estás muito mais de mente limpa. Eu costumo dizer isso aos miúdos quando me vêm ver jogar, quando me pedem “que é que eu faço para ser bom jogador?”. Digo sempre isso: “Estuda. Os teus pais ajudam-te. Os pais acabam por apoiar mais se te deres bem na escola. Dão-te computadores se tiverem possibilidades, deixam-te jogar mais tempo”. Se o pessoal fizer assim, tem mais possibilidades de singrar nisto do que como eu fiz na altura, radicalmente. Era a única coisa que se calhar eu mudava.

© Joana Meneses/Mais Guimarães

Quais são os planos para o futuro?

Tenho muitos planos. Eu e o meu sócio, o Miguel. Temos muita coisa em mente. Temos a nossa marca, que, felizmente, vende bem. Há muitas marcas em Portugal, só que fazem produtos só para vender e fazer dinheiro. Como eu sou jogador e o Miguel já jogou, nós sabemos o que é que é preciso. Um preço qualidade para as pessoas poderem todas comprar. Às vezes há marcas a vender material a preços abismais, que é impossível para uma família com salários normais. Chegares a uma loja e comprares um teclado a 200 euros, para mim é surreal. Tentamos fazer produtos melhores que esses, a preços mais acessíveis. O Miguel vai a feiras, vê os produtos, eu experimento tudo antes de passarmos para vender, e dou a minha aprovação.
Fora disso, tenho muitas opções. Quando um dia deixar de jogar posso ser treinador, porque também há treinadores, e é o percurso normal hoje em dia. Ganhas o mesmo salário e trabalhas menos um bocadito. Ajudas os jogadores a orientar-se. Eu não gostava muito de ser treinador, sou sincero, gosto de jogar. Sinto que ainda estou bem para jogar, por isso enquanto me sentir assim vou continuar a jogar. Quando deixar de jogar, tenho muitas ideias.

Como é o dia a dia de um jogador de CS?

Levanto-me todos os dias por volta das sete e meia e preparo o miúdo para ir para o infantário. Saio de casa por volta das nove e deixo-o no infantário. Venho tomar o pequeno-almoço, vou para o ginásio e treino com os meus amigos cerca de duas horas. Venho almoçar, meia horita, e vou para casa já com horas marcadas de treino até à hora de jantar. No dia a seguir volta ao mesmo. Uma rotina muito certa nisso.
Treinamos todos os dias, de segunda a sexta. Às vezes, por exemplo nestas próximas três semanas, temos treino de segunda a sexta e temos torneio sábado e domingo. Basicamente nem tenho folga. Quando temos torneios é mais stressante, treinamos a semana toda para isso. A semana passada estive a semana toda na Prozis, hoje devia estar lá [risos]. Temos um escritório, a Prozis oferece-nos, tem lá os computadores, e basicamente é um bootcamp. Chegamos ali e é jogar, jogar, dormir, jogar. Os miúdos vão para o ginásio na mesma, eu venho um dia ou outro para ficar com o
meu filho, mas a rotina é 15 dias, de segunda a sexta jogar lá todos juntos. É mais fácil do que estar em casa. Em casa cada um está no seu pc, temos o programa para falar, mas ali temos quadros e as televisões para ver os jogos. Isto é como o futebol, exatamente igual, estamos sentados e o treinador está lá à nossa beira a explicar-nos o que temos de fazer.

Sentiram muitas diferenças com a pandemia?

Não há torneios físicos. Mas nem nos podemos queixar. Isto prendeu o pessoal em casa, os jogos bateram recordes de visualizações, bateram recordes de pessoas a jogar, houve muita gente que começou a jogar para ter o que fazer, mais torneios online… Para nós, jogadores profissionais, torneios online não puxa tanto como torneios físicos. Nós temos torneios físicos que vamos para pavilhões e estão 12 mil pessoas a ver-nos a jogar, dá outra vontade de jogar. Os jogadores de futebol de certeza que se queixam do mesmo, a jogar de porta fechada, sem público. Para alguns jogadores até deve ser melhor, por causa do stress, mas o pessoal joga também para isso, é o que envolve tudo à volta. Nós não nos podemos queixar, não deixamos de receber, felizmente, há mais torneios, há tudo mais no que toca a jogos.

© Joana Meneses/Mais Guimarães

Sentes que és reconhecido em Portugal?

Tenho gente que me conhece em todo o lado, muita gente me pede para tirar fotos e sinto que sou conhecido. Mas em Portugal ainda não houve nenhum jogador português que alcançasse o que eu alcancei. Eu é que, se calhar, dei o nome do CS em Portugal, fui o único a jogar os grandes torneios, e trouxe um bocado o nome. Noutro dia joguei um torneio internacional e os analistas disseram que eu pus o mapa de Portugal no mundo do CS. Acho que as pessoas não têm ideia. Acabas por ser um ídolo para muita gente. Tenho que estar agradecido por isso.

E em Guimarães? Sentes que tens o reconhecimento que gostavas de ter?

Como cidade, só se for com o público. Dou nome à cidade de Guimarães, porque toda a gente sabe que eu sou de Guimarães, ponto. Faço questão de dizer que sou de Guimarães. Não digo isto zangado, mas jogava com um amigo de Fafe, e a Câmara de Fafe entregou-lhe um prémio. Ele nunca ganhou ou jogou em equipas topo mundial. Aqui, em Guimarães, e Portugal, tens um único jogador português que representou a bandeira de Portugal nesses torneios todos, e o que é certo é que nunca ninguém teve interesse. O pessoal aqui quer saber de futebol e em há muita gente que singrou e não é reconhecida. Isso tem que mudar. Eu podia ser o melhor jogador do mundo, o Rui Silva podia ser o melhor jogador do mundo de andebol, quase ninguém queria saber. Aqui, infelizmente, é futebol. És reconhecido e representas a cidade. Eu acho que dou muito nome à minha cidade com orgulho, sem nunca pedir nada em troca, nem quero. Por nada na minha vida saía de Guimarães, pela calma e tranquilidade. As pessoas associam-me a Guimarães pela forma como jogo, sempre aos berros, sempre a motivar a equipa.

Entrevista publicada na revista de setembro.

©2022 MAIS GUIMARÃES - Super8

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