Ser Católico: Um imperativo categórico para a ação política

por Carlos Caneja Amorim
Advogado

Jean-Luc Nancy, filósofo francês recentemente falecido adotou como conceito matriz do seu pensamento a ideia de uma comunidade sem comunidade, um estar em comum sem diluição das singularidades, a prossecução do bem comum, com conjugação de esforços, mas, sempre, num registo personalista. Adoto este axioma ou postulado como critério analítico no discretear sobre as interligações indiscutivelmente existentes entre o ser católico e o agir politicamente. Por ação política lato sensu (ergo: não se reduz à dimensão partidária), entende-se a adoção de condutas individuais e coletivas visando, a um tempo, o cuidar do bem comum e o não ser indiferente (logo agir) ao outro e às suas circunstâncias, mormente, económica-sociais. Mas, antes do demais, tudo começa a montante: na dimensão intrapessoal, no trabalho individual de cultivarmos os valores e princípios morais e éticos católico-cristãos que visam cimentar uma personalidade pronta para a cidadania. Por sua vez, esta cidadania tem dupla face por relação com a Igreja Católica e com a comunidade civil: endógena e exógena. Na Igreja, sendo consequente com a cidadania católica, importa, por exemplo, no presente, debater com espírito construtivo e democrático: i) se deve ocorrer o reforço do papel da mulher nos atos litúrgicos e na vida da Igreja; ii) como encarar a questão do celibato, mormente, face à crise presente de adesão de novos padres; iii) bem como se deve ou não ocorrer a integração plena dos divorciados como parte da comunidade católica, etc… Nada nem ninguém é ou deve ser estático, tudo e todos estão em permanente metamorfose. A Igreja não é imune aos sinais dos tempos e à contemporaneidade, isto, sem abdicar nunca dos dogmas matriciais e perenes que alimentam a nossa fé e as nossas crenças individuais e coletivas. Perceba-se: quando pugnamos, num registo escolástico, isto é, mesclando fé e razão, por uma Ideia de Igreja, estamos a corporizar e a ser consequentes em termos de ação política. Na vertente exógena, importa, com personalidade e cidadania católica, agir em prol do bem comum, seja no plano coletivo ou de comunidade, seja no plano de ajuda e atenção ao próximo individualmente considerado. A Doutrina Social da Igreja e as ideias base subjacentes à Democracia Cristã devem enquadrar a nossa ação nesse contexto. E a grande luta é contra a indiferença: a felicidade e bem-estar alheio devem estar sempre presentes na nossa preocupação. Ajudarmos, individual (a custas próprias) e coletivamente (a custas dos entes públicos), não é um direito potestivo, mas, sim, um dever capital, o ôntico e deôntico de mão dada, sendo cogente agir em defesa da dignidade do próximo. Nesta lógica de dever, jamais devemos aguardar ou procurar sinalagma, seja na forma de aplauso ou outra compensação, mais terrena ou mais do além, mais concretamente, do julgamento final. Nesta dimensão, tudo se resume ao pensamento axial do presente Ano Pastoral da arquidiocese de Braga: “Onde há Amor, nascem Gestos.”

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