SERVIR OU SERVIR-SE?

por PAULO NOVAIS
Professor de Sistemas na Universidade do Minho

Seremos (muitos de) nós idiotas?

Nunca, como hoje, a palavra servir foi tão mal tratada e deturpada, todos a usam sem grandes preocupações nem pejo. De facto parece que esta confusão é intencional, na medida em que facilita e legitima diferentes opções, mas, pelo menos, servir e servir-se não são nem tem o mesmo significado, nem representam caminhos similares, são aliás ações claramente divergentes.

Servir apresenta-se como o ato de cumprir deveres ou funções; dar ou ministrar; estar ao serviço; ser útil ou prestável; ajudar; desempenho de funções. Por outro lado, servir-se significa utilizar-se de, fazer uso de, tirar para si ou aproveitar-se de. Um simples “se” que faz muita (toda) a diferença.

Para quem, como eu, tenta compreender e modelar o mundo com recurso a conceitos matemáticos, diria que “servir” funciona como uma adição e que “servir-se” como uma subtração.

A adição que consiste numa operação em que se juntam duas ou mais parcelas para obter um número total (soma). A subtração que designa uma operação pela qual se diminui um número menor de outro maior. Simplificando, a adição acrescenta, a subtração retira.

Tenho para mim que esta confusão advém da excessiva profissionalização da política que assola os nossos tempos e da necessidade que existe em mascarar esta realidade. O advento do político profissional surge com Max Weber (século XX) que apresenta o estado como uma “relação de homens dominando homens”, preservada com recurso a uma violência “legítima e legitimada”. Weber divide-os em os que vivem para a política e os que vivem da política. Em que o que vive da política é aquele que não possui recursos suficientes (em particular monetários) para a sua subsistência e o que vive para a política como um político por vocação e independente, por ter os recursos suficientes e necessários para a sua subsistência, i.e., que não necessita da política para viver. Claramente, apresenta o primeiro vulnerável a pressão, em que na sua atuação se pode confundir e misturar os objetivos pessoais com os que representa, e pelos quais foi legitimado, em contraponto com o político que vive para a política que representa o indivíduo independente, em que a sua conduta busca o prestígio, honra, ideias ou até porque não dizê-lo, o “poder pelo poder” mas que não quer nem busca recompensas materiais desta atividade.

Seremos (muitos de) nós idiotas? Idiota não no sentido de pessoa leiga mas no sentido original da palavra (do grego idiotês), que designava o cidadão que não participava nos assuntos da cidade, i.e., que se alheia da política.

Pablo Picasso (século XX) afirmava que “Dantes um quadro era uma soma de adições. Comigo um quadro é uma soma de destruições”. Com Picasso a soma de destruições é a genialidade, o buscar de novos espaços e representações do mundo, é uma obra de arte.

Hoje, o resultado desta política, de profissionais sem profissão, mais parece uma soma de destruições (no sentido literal das palavras) e uma série de subtrações. Teremos ido longe de mais nesta profissionalização? Evidentemente, não pode haver uma sociedade sem política (nem isso é desejável), i.e., sem instituições nem atores que a suportam. A política é uma atividade nobre mas, como qualquer outra atividade humana, deverá ser objeto de escrutínio, em primeira instância por instituições independentes, credíveis e fortes, e ser orientada por regras claras de transparência, visibilidade e de responsabilização, e com uma cultura de exigência, que garantem e suportem a independência e a qualidade dos seus atores.

Francisco Sá Carneiro afirmava “O que não posso, porque não tenho esse direito, é calar-me, seja sob que pretexto for”. Uma liberdade completa é (também) uma democracia em que existe a participação ativa, responsável e consciente de (todos) cidadãos ao serviço do bem comum.

Tenham uma boa semana da liberdade.

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