Sondagens? Quais sondagens?

Por César Machado.

Provavelmente, nunca as sondagens terão ido a votos tanto quanto sucedeu nestas eleições de 30 de Janeiro de 2022, que conduziram á maioria absoluta do Partido Socialista e de António Costa.

De mera “ferramenta” ao serviço da previsão, as sondagens terão funcionado como “factor” da decisão, impondo importantes mudanças tácticas nas campanhas partidárias, com isso provocando alterações de tendência do próprio eleitorado.

Para alguns quadrantes, calha bem disparar sobre as sondagens. Sobretudo quando corre mal. Talvez seja oportuno recuar quatro meses.

Fernando Medina era o único vencedor possível das eleições autárquicas de Lisboa, em Setembro de 2021. Carlos Moedas não teria grande resultado, asseguravam praticamente todos. Correu contrário.

A coisa foi caricaturada a tal ponto que quase virou adjectivo; e quando a sondagem não agradava, várias vezes se ouviu a expressão “sondagens á Medina – lembram-se das sondagens de Lisboa?”

Provavelmente, a lição de Medina terá escapado a muitos.

O fabuloso resultado de Carlos Moedas, com o apoio do CDS, a Iniciativa Liberal assaz reforçada (como se viu agora) e alguns pequenos partidos juntos na Coligação “Novos Tempos Lisboa”, traduziu-se em 83.121 votos em 2021.

Em 2017 o PSD tivera um resultado desastroso e o CDS uma marca extraordinária. A soma de ambos, com pequenos partidos coligados, dera 80.822 votos.

Afinal, o extraordinário feito de Moedas consistiu em acrescentar 2.812 votos ao que havia alcançado quatro anos antes, com o CDS e aliados, todos somados.

É, pelo menos, legítimo questionar qual seria o resultado sem o contributo do confirmado reforço da Iniciativa Liberal em Lisboa. E saber quanto teriam PSD, CDS e restantes partidos tradicionalmente coligados.

O feito de Moedas está em mais 2.812 votos? Provavelmente não.

Talvez ninguém contasse que o único possível vencedor das eleições em Lisboa, Fernando Medina, iria reduzir os seus eleitores de 106.110 votos, em 2017, para 80.822 votos em 2021.

Talvez ninguém acreditasse que Medina iria perder para cima de 25.000 votos, sensivelmente 25% do seu eleitorado.

É de crer que um quarto do eleitorado de Medina quisesse penalizá-lo, mandando-o embora? Provavelmente não. Não é fácil descortinar tanto descontentamento que desse neste resultado, apesar dos pesares.

Já parece fácil aceitar que muitos, entre aqueles 25.000 eleitores, tomassem a vitória como certa, o seu voto nada mudaria, não havia riscos, as coisas compunham-se.

Afinal correu mal para Medina. Ou correu mal para quem ficou em casa, esperando assistir á vitória no sofá. Muito do eleitorado lisboeta não viu qualquer perigo em faltar. Ainda por cima estava bom tempo, a praia ali ao lado…

E o PSD, com o CDS e IL reforçada, com demais aliados, com mais 2,812 votos fez a festa de celebração eleitoral, com um discurso encantatório que quase pareceu ter sido o grande vencedor da noite.

Houve quem garantisse que o resultado autárquico de Lisboa era “o começo de uma tendência de inversão do ciclo político….”. (-seria possível passar de novo a análise doutoral do Sr. Dr. Marques Mendes na noite das autárquicas, sff?)

Para muita gente, desta vez a coisa era a sério. A direita avançava destemida. O número dois de Rio, David Justino, garantia que seria o povo, nas urnas, a colocar o Chega dentro ou fora da equação.

Rui Rio não se achava legitimado para afastar os voto de ninguém, um eufemismo para traduzir (em português, todos entendem) que os deputados do Chega bem podiam fazer parte da solução.

Quem sabe, já agora, se não viriam a integrar apenas aqueles deputados na nova maioria ou também no governo…

No auge das mais positivas sondagens “das confiáveis”, Rui Rio convidou António Costa “a perder com dignidade”.

As sondagens deram empate técnico. E muita gente ponderou. Rio riu antes do tempo. E o efeito Medina viria a notar-se quatro meses depois. Uma parte desta vitória deve-se á derrota autárquica de Lisboa. Não é fácil quantificar. Mas que isso andou na cabeça de muitos, andou. Por mim, -desculpa Medina- só posso agradecer-te No fundo, acho que não discordarás.

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