TEMPO DE SOL, TEMPO RUIM

por CÉSAR MACHADO
Advogado

“Sabe que eu, com livros, perco-me”, dizia ontem em Paris, na visita à Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian, o Presidente da República, Marcelo, assim tratado pelos jornalistas. Também se perde em simpatias com António, modo como se dirige ao Primeiro Ministro em representação do País junto dos nossos patrícios. Também se perde numa sessão de hip hop, improvisando como se fosse desde sempre um rapper. No meio da romaria, com beijinhos e abraços à dimensão da diáspora, aí perde-se mesmo, com o verdadeiro povo, “melhor que os políticos”. Também se perderia nas Marchas de Stº António, no meio dos foliões depois da sardinhada, não fora a infeliz coincidência de estar a perder-se em Paris à mesma hora, em similares festejos, que isto de uma pessoa se perder não é coisa que possa fazer-se em dois locais ao mesmo tempo. Tudo isto numa perdição só, uma perdição que passa pelo amor pelo que é nosso, garante Marcelo, com a mesma certeza com que  garante para a selecção o título de campeã e é já a seguir. Siga. A perder-se que seja de amor pelo que é nosso, um amor de perdição, de paixão assolapada do tipo camiliano; e que assim continue este ciclo de Presidente Midas, fazendo virar sorriso, jovialidade e fé no futuro tudo aquilo em que toca. Valha a verdade, não é coisa de que não andássemos muito necessitados. Até faz muito bem ao ânimo das gentes esta “boa onda”.(Ou Marcelo se põe a pau ou ainda vem por aí um americano a querer surfá-lo).

O reverso da medalha também temos. Passos Coelho não perde uma ocasião de partilhar com o mundo o seu pesadelo. Sempre que uma televisão o quiser, “basta fazer um sinal” e temos o pessimismo do homem zangado com o mundo,  o esgar de azedume que vestiu como fato de cerimónia, a indicar-nos um futuro negro (não lhe façam perguntas sobre o europeu, sff, que o homem arruma com a selecção já na fase de grupos). É verdade que as coisas não lhe correm de feição. Vendo no sucesso de outros o seu fracasso, não ultrapassou o estado de negação, vendo-se virtualmente em funções que já não exerce, permitindo-se dar uns ralhetes a quem governa, não ignorando que a governação tem tido boa nota junto dos governados, e não resistindo a criar algumas dificuldades mesmo que daí decorra coisa má para o país, como sucedeu neste gesto pouco abonatório a respeito da aplicação a Portugal de sanções pela União Europeia. Também não ajudará nada ver figuras como Maria Luís Albuquerque a integrar o poderoso Grupo de Bidelberg, o que não deixa de significar que aqui está quem amanhã lhe arrumará com a liderança logo que  oportuno, como foi já prognosticado. O tempo está de mau cariz. Da boa onda do Presidente da República sobram-lhe repetidos puxões de orelhas. Às críticas à acção governativa corresponde uma boa apreciação dos portugueses sobre o executivo. Aos passeios internos pelas distritais do seu partido em jeito de prova de vida, são opostas ameaças de concorrência ao seu lugar. O que tem para dar são seguras provas de estar mal com o mundo, de desesperança, de estar perdido nesta difícil encruzilhada. Para que corre? De que foge? Como dizia o José Mário Branco no fantástico FMI, Passos está “neste tempo que decorre entre fugir de se encontrar e se encontrar fugindo”.  O tempo vai ruim.

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