TERESA SALGUEIRO ENCANTOU AUDITÓRIO COM MÚSICA E ORAÇÃO

A passagem por Guimarães quase que passou despercebida, mas o concerto na igreja de São Paio serviu de pretexto para uma entrevista a Teresa Salgueiro. A antiga “voz dos Madredeus” embelezou a “oratória mariana”.

Fundiu-se a música e a oração, no espaço sublime da Igreja de São Paio. Assim aconteceu na noite do passado dia 22 de dezembro, com a voz de Teresa Salgueiro a dar corpo e encanto a um concerto de “Oratória Mariana”, acompanhada por um acordeão, um contrabaixo e quatro vozes vimaranenses: João Miguel Ferreira, Filipe Costa, Zé Miguel e Armando de Sousa.

Como está a correr a digressão?

Está a correr bem. Estivemos, inicialmente, em Portugal e depois passámos pela Turquia, Macedónia, Twaian, Itália, Suiça, Espanha, Brasil e o próximo concerto será uma estreia, na Rússia.

E a aceitação do público?

Muito bem mesmo! A saída mais recente foi ao Brasil, onde estivemos em São Paulo, no Rio e em Paraty, que é uma cidade colonial a, mais ou menos, 300 quilómetros do Rio de Janeiro. A ideia é voltar ao Brasil ainda este ano. Há muitos países a percorrer. Recebeu pelo álbum “O Horizonte” o prémio José Afonso.

O que sentiu por lhe ter sido atribuído este galardão?

Fiquei muito feliz e muito surpresa, porque não é um prémio ao qual se concorra. Por isso, não sabia de todo e “não estava nem aí” (risos), como se costuma a dizer… Estava de partida para o Brasil, já na sala de embarque, quando me disseram que tinha ganho o prémio. Sou primeiro de tudo grande admiradora de Zeca Afonso, depois é um prémio em que o júri é composto por músicos – maestro César Azevedo e pianista Olga Prats – e também pela Câmara de Amadora. Portanto, fizemos um concerto na Amadora, cidade onde eu cresci e os meus pais ainda vivem, e foi muito comovente ir cantar lá. Eu nunca tinha cantado na Amadora. Aliás, tinha cantado num teatro na Damaia, que já não é bem na Amadora, há muitos anos atrás com os Madredeus, numa sala antiga que via cinema quando era pequeninha, que se chamava o Cinema Velho.

Boas recordações…

Eu nunca mais tive vontade de entrar na sala, nem sabia que se faziam ali concertos, mas foi muito bonito. E em termos do que o prémio representa, é sem dúvida uma responsabilidade para fazer mais e melhor.

Atuar numa igreja é diferente?

É muito diferente. Já tenho atuado em muitas igrejas, com reportório que não tem nada a ver com o reportório litúrgico ou religioso. Mas é sempre um espaço especial e difícil para fazer o som. Em termos acústicos não é fácil. Nós fazemos música acústica, e como é tudo amplificado, é preciso saber muito bem o que se está a fazer. Neste momento em particular, que vivemos aqui, é um reportório que faz parte da música da igreja. São momentos especiais, ou seja, uma coisa é fazer os concertos que costumo fazer há já 30 anos e outra coisa são estes momentos, em particular as oratórias, que são um momento de oração e de partilha com uma comunidade.

Que ligação tem com a religião?

Eu sou uma pessoa crente. Uma pessoa religiosa no sentido de quando se diz que a religião é aquilo que nos liga às nossas origens e aos mistérios mais profundos daquilo que nós somos. Eu não sou uma pessoa muito religiosa, não frequento a igreja com regularidade, mas gosto muito de entrar numa igreja e às vezes são momentos que me fazem falta e procuro. Não posso dizer que pratico a religião, mas Cristo sempre foi uma figura que me orientou e li os evangelhos e li outros livros da bíblia.

E como surgiu esta parceria?

Foi a partir do disco “O Mistério”, um disco publicado em 2012, que o Padre Rodrigo, na altura vice-reitor do seminário da Almada, ouviu e gostou muito do disco. Ele foi um grande entusiasta e falou do disco a muita gente. Entretanto, conheci-o e acabou por me propor a gravação dos hinos de alguns cânticos da liturgia. Uma música que nunca tinha cantado. A partir daí, houve também a ideia de criar estas oratórias e, mais tarde, apresentamos essas oratórias em Braga. Depois veio o convite do seminário de Braga para fazer uma oratória Mariana. Para mim são sempre momentos muitos especiais. Com esta música, acabamos sempre por conhecer pessoas das paróquias, pessoas do coro e é diferente. Nós somos uma parte de um todo que é muito maior que nós. Estamos a partilhar o momento muito especial com a comunidade.

Escreve as letras e compõe as suas músicas. Que sentimentos procura transmitir?

A música expressa sempre emoções e sentimentos. Aquilo que escrevo está patente na música. A música é um campo infinito de criação e há esse gosto por essa procura de expressar uma determinada emoção. É um prazer a procura da expressão musical em si e, depois claro, as músicas são feitas para serem cantadas e as palavras são inspiradas na música. É um privilégio ter encontrado músicos que me permitiram criar um reportório com o qual temos vindo a viajar desde 2012.

A Teresa tem já uma história na música portuguesa. É uma história incompleta?

Espero muito mais música. As histórias estão sempre incompletas até chegar a um final. Espero que seja incompleta por muito tempo, mas que acima de tudo continue a ter saúde para poder continuar a fazer música. Para mim é uma dádiva muito grande poder comunicar desta forma e de esta ser a minha forma de vida. Ter o privilégio de viajar e conhecer outras culturas.

Os passos dados pela música portuguesa. Estão no caminho certo?

Acho que está a caminhar e isso já é bom. Em relação ao tempo que eu comecei a cantar há um grande desenvolvimento, desde logo das escolas de música. Havia muito menos escolas e acesso ao conhecimento musical. Não havia escola superior de música. Hoje em dia há uma oferta para as pessoas se formarem em música que não havia. Por outro lado, existem uma série de instrumentos que permitem que as pessoas gravem e uma série de mecanismos que permitem uma grande produção com menos custo e com cada vez mais qualidade. Cada vez há mais músicos.

Mas mais músicos não significa qualidade…

Pois. Também não acho que haja assim tantas coisas muito extraordinárias. Acho que é bom que haja muita criatividade e que haja este movimento. Daí irão surgir muitas coisas interessantes. Há pessoas com muito valor e que estão a fazer o seu caminho. No geral, há muita coisa interessante que se faz e não se sabe, e aquilo que nos chega não é sempre o mais interessante. E chega-nos muita coisa que não tem muito interesse. Há uma grande superficialidade e não é só na música. Há uma grande facilidade na comunicação, mas é um bocado ilusório, porque os canais são sempre os mesmos e são dominados pelos mesmos interesses. Está a fazer-se um tipo de música “À la carte”, que é com aqueles ingredientes para servir aquele tipo de público ou interesse, ou seja, muito superficial. Mas existe qualidade, mas é difícil de ouvir, porque nos meios de comunicação nós não temos acesso à música portuguesa.

Fotos: @ Paulo Pacheco – CMG

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