Trabalhadores do Grupo Celeste protestam contra salários em atraso e fecho da empresa
Cerca de uma centena de trabalhadores do Grupo Celeste concentraram-se na manhã desta sexta-feira, 20 de fevereiro, à porta da sede da empresa, em Polvoreira, numa ação de protesto marcada pela indignação e pela incerteza quanto ao futuro. Em causa está a crise de gestão que se arrasta desde o ano passado e que, segundo os trabalhadores, tem provocado atrasos no pagamento de salários e subsídios, deixando famílias sem rendimentos. O grupo emprega, na totalidade, cerca de 300 pessoas.

© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães
A situação agravou-se com o pedido de insolvência da Conceitos Avulso, empresa criada em 2019 pelos mesmos proprietários do grupo e para onde foram transferidos os trabalhadores. Essa decisão está agora no centro da contestação, uma vez que poderá limitar os funcionários aos valores assegurados pelo Fundo de Garantia Salarial, não havendo insolvente suficiente para cobrir os créditos laborais.
Segundo explicou Diogo Ribeiro, dirigente do SINTAB, o processo de insolvência da Celeste Actual já deu entrada em tribunal, embora ainda não tenha sido declarada. “Em 2019, a maior parte dos trabalhadores passaram para a Conceitos Avulso. A transferência previa a manutenção da antiguidade, mas, por aplicação direta da lei e segundo os nossos advogados, os trabalhadores não estão a ser reconhecidos como pertencentes à Celeste Actual”, afirmou.
O problema, sublinha o sindicalista, é que a Conceitos Avulso “só tem trabalhadores e dívidas, não tem património nem massa insolvente”. Nesse cenário, os funcionários poderão ficar limitados ao teto máximo do Fundo de Garantia Salarial, equivalente a 18 salários mínimos nacionais. “Quem tem 40 anos de casa já atinge esse limite apenas com os anos de antiguidade. O salário de janeiro, metade de fevereiro e o subsídio de férias em atraso podem não ser pagos”, alertou.
Os trabalhadores denunciam ainda que a Celeste Actual, principal empresa do grupo, continuou a escoar produto e a gerar receitas sem priorizar o pagamento à Conceitos Avulso, cuja única despesa, dizem, é o pagamento de salários. “Sabemos pelo administrador do PER que a Celeste faturou cerca de 600 mil euros no mês passado. A pergunta é: onde está o dinheiro e porque não se pagam os salários?”, questionou Diogo Ribeiro.
Apesar da gravidade da situação, o SINTAB defende que a falência não é inevitável. Segundo o sindicato, existem trabalhadores qualificados, instalações remodeladas recentemente em Polvoreira e Vizela, uma frota automóvel nova, equipamentos, clientes e encomendas. “Falta apenas matéria-prima para retomar a produção. Precisamos de investimento para voltar a trabalhar”, frisou.
A produção encontra-se parada desde o final de janeiro. Neste momento, as cerca de 300 pessoas que compõem o grupo estão sem trabalhar e sem receber.
“Com 44 anos de firma, nunca pensei passar por isto”
Entre os manifestantes estava Joaquim Ferreira, pasteleiro há 44 anos, que trabalha na empresa desde 1981, laborava na Pavirel, em Vizela, posteriormente adquirida pelo Grupo Celeste. “Com 44 anos de firma, nunca pensei passar por isto”, lamentou. Recorda que no Natal a produção foi intensa, mas os salários não foram pagos. “Trabalhámos muito e depois não recebemos janeiro nem o subsídio de férias. Sinto que fomos enganados”, disse ao Mais Guimarães.

© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães
Aos 59 anos, perto do fim da carreira, Joaquim confessa a frustração de ver a estabilidade construída ao longo de décadas abalada. “Criei os meus filhos a trabalhar de noite. Não foi fácil. E agora fizeram isto com os trabalhadores”, afirmou, reconhecendo que há colegas em situações ainda mais dramáticas. Segundo os presentes, há casais a trabalhar no grupo que ficaram sem qualquer fonte de rendimento e até casos de trabalhadores que entregaram as chaves de casa ao banco.
A concentração contou também com a presença de representantes políticos. Inês Rodrigues, do PCP, marcou presença em nome da CDU e manifestou solidariedade para com os trabalhadores. “Estamos aqui para demonstrar apoio a centenas de trabalhadores com salários em atraso. O PCP já questionou o Governo na Assembleia da República sobre as medidas que estão a ser tomadas para acompanhar esta situação, lamentavelmente, estamos ainda sem respostas”, afirmou.
A dirigente comunista considera inaceitável que a empresa tenha estado a vender produto enquanto os trabalhadores permaneceram sem matéria-prima para laborar e sem salários. “Independentemente do desfecho do grupo, é fundamental que os direitos destes trabalhadores sejam assegurados”, defendeu, apontando também a necessidade de acompanhamento por parte das entidades locais, nomeadamente a Ação Social da Câmara Municipal de Guimarães.
Mariana Silva, do Partido Ecologista Os Verdes, parceiro na coliçação CDU, esteve igualmente presente na manifestação.
Entre a esperança na viabilização futura do grupo, eventualmente através da entrada de um investidor após o processo de insolvência, os trabalhadores prometem continuar a fazer-se ouvir. Para já, exigem o pagamento dos salários em atraso e o reconhecimento dos seus direitos.





