UM PORTAL ONLINE PARA AJUDAR OS MIGRANTES QUE GUIMARÃES ACOLHE

Portal do Migrante foi apresentado esta quinta-feira e faz parte do PMIMG. No site, os migrantes de países terceiros poderão encontrar informações úteis, propostas de emprego e ter uma adaptação com menos burocracias.

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“Referiam-se a mim como ‘preta’. Diziam: ‘Preta, lava a loiça. Preta, chega-me a tigela’ E sabiam o meu nome.” O seu nome é Eliwen. Está “quase a fazer 63 anos” e é do Zimbabwe. Fixou-se em Guimarãse há 12 anos, em 2007, mas já tinha visitado Portugal anteriormente. Era casada com um português e, por isso, visitara o país “nas férias”. O seu primeiro emprego na região foi num restaurante, em Fafe, no qual trabalhou durante apenas um mês. Durante esse período, era como se o seu nome próprio não existisse.  “Um dia, um cliente regular perguntou-me o meu nome. Depois, perguntou se o patrão não sabia. E eu disse que sim e que não sabia por que continuavam a tratar-me por ‘preta’”, explicou ao Mais Guimarães. “Então o cliente fez as mesmas perguntas ao patrão, que respondeu: “Oh, ela é preta. É de África. Não sabe nada.” E o cliente regular deixou de o ser, saindo do restaurante após uma troca de palavras que Eliwen recordou: “Somos todos humanos.”   

A mesma ideia foi frisada por Domingos Bragança, presidente da Câmara Municipal de Guimarães (CMG): “A cooperação entre povos é essencial.” O autarca esteve presente, na manhã desta quinta-feira, na sessão de apresentação do Portal do Migrante, um site “em construção constante” destinado aos migrantes que vivem em Guimarães, explicou a coordenadora do projeto, Graça Carvalho. O site procura promover “a cidadania participativa”, apresentando “notícias que sejam do interesse do migrante”, para além de possibilitar o acesso a “suporte legislativo” e a ofertas de emprego. O Portal do Migrante enquadra-se no Plano Municipal para a Integração de Migrantes no concelho de Guimarães (PMIMG), que faz parte do Plano Estratégico para as Migrações 2015-2020, como também das “políticas sociais do município”, lê-se em comunicado de imprensa. Insere-se na área “Serviços de acolhimento e integração”, um dos 13 pontos do PMIMG. Assim, o portal funciona como canal “de divulgação e aproximação entre cidadãos de países terceiros e a comunidade acolhedora”. Algo que vem colmatar, também, os “problemas burocráticos” com que os migrantes se deparam quando chegam à sua nova casa: “Este portal contém informação que contribui para uma maior e melhor integração”, referiu a vereadora.

Para Eliwen, “a vida teria sido mais fácil se existisse este portal em 2007”. “Acho que é muito informativo e é maravilhoso para acompanharmos tudo”, disse. A vereadora Paula Oliveira, responsável pelas áreas da Ação Social e Espaço Municipal para a Igualdade, salientou a importância de se “promoverem e defenderem valores de inclusão, igualdade, multiculturalidade e diversidade”. E lembrou que nesta quinta-feira assinala-se o Dia Municipal para a Igualdade — uma “série de atividades” marca a celebração, como a celebração do dia da ONU com visitas à Universidade das Nações Unidas ou com um evento no Laboratório da Paisagem, com temas como a igualdade de género, a deficiência e a migração.

Ainda assim, Eliwen relembrou que, recentemente, deixou um trabalho num supermercado na cidade. No estabelecimento em questão, a situação anteriormente vivida em Fafe repetiu-se. “O patrão disse: ‘Preto não sabe nada. Um preto não vai trabalhar com máquinas e não quero pretos aqui”, contou. “É uma vergonha ainda ter de ouvir coisas destas em 2019. Só conheço uma raça: a humana”, acrescentou. Encontrar problemas ainda não identificados faz parte da “continuidade do plano”, cuja intenção é crescer. Uma aplicação para telemóvel não está descartada, mas, primeiro, “os grupos vão reunir e daí sairão novas ideias”, esclarece Graça Carvalho.  

A vereadora Paula Oliveira apontou ainda que o Município tem a responsabilidade “de fazer mais e melhor”, mas referiu que “o país e a cidade são acolhedores”.  Segundo os dados estatísticos de 2018, há 1.801 migrantes provenientes de países terceiros e com visto de residência em Guimarães. “Tudo aponta para que este número atinja os 2.000 em 2019”, informou a vereadora, que alertou ainda para os “receios perpetrados” resultantes “da falta de conhecimento e de informação”; por isso, relembrou as “acções de sensibilização” realizadas um pouco por toda a comunidade vimaranense. E isso poderá contribuir para acabar com algo que ainda faz confusão  Eliwen: “Não percebo por que não nos podemos entender todos.”

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