UMA DOR PARTILHADA…

por Francisco de Oliveira

Sou cidadão vimaranense, nascido na rua Vila Flor, São Sebastião, Cidade de Guimarães, vulgo “Relho”, a contestar as afirmações do meu prezado amigo e concidadão desta cidade, Amadeu Portilha, à revista Rua. Nascido numa outra rua da minha cidade, desde o primeiro mês de vida até hoje (ano em que celebro os meus 48 anos de vida) resido na rua Egas Moniz, que quando surgiu nos séculos XIII-XIV, aquando da construção do Muro (ou Muralha), foi apelidada de rua Nova do Muro. Situava-se entre a Torre e Porta do postigo (hoje Srª da Guia) e a Porta do Postigo de São Paio (hoje largo Condessa do Juncal e rua do Anjo), tendo pelo meio, nas atuais “escadinhas”, a Porta da Torre Velha. Sendo um novo arruamento, mais arejado e de novas construções à data, numa “cidade” dividida entre o poder do Senhor do Castelo (“Villa de Cima”) e o poder do Dom Prior (“Villa de Baixo”), situando-se na esfera do poder eclesiástico (enfim, a Sé da velha diocese do bispo São Torcato – se Torcato é uma lenda, então Pedro de Rates também o é – que a Reconquista Cristã não recuperou, ou não quis recuperar, para não desagradar aos poderes eclesiásticos instalados em Roma e em Braga), atraiu para si moradores do clero abastado e da emergente burguesia.

Sabemos que foi rua primordial de gente de trabalho, entre ricos e pobres, honesta e de muita boa religião. Desta rua, no século XX, surgiram quatro vocações sacerdotais – o Dom Domingos, Bispo, o Pe Melo, Monsenhor, o Pe Fernando e eu, Pe Francisco. As casas da “Rua Nova”, ainda hoje assim o permitem atestar, aquilo que é tão típico dos países latinos, e Portugal não era exceção (hoje infelizmente não é assim, vejam os condomínios fechados e os bairros chiques, ao estilo anglo-saxónico, que surgem em todas as terras do nosso amado país), não fazem distinção: casas senhoriais e ricas ao lado de casas modestas e de trabalhadores. É verificar isso no grandioso Palácio “Casa da Clarinha”, nº 78 desta rua, construída com o ouro do Brasil e que as nossas autoridades ainda não perceberam a sua grandiosidade e beleza… É triste vê-lo assim abandonado, mas só alguém muito rico pode possuir um edifício deste calibre e em condições dignas. Mas no século XIX, e Guimarães é uma das capitais do reino na Revolução Industrial, é nesta ilustre rua que surge a “Bolsa de Valores” dos nossos industriais (que fez com que no séc. XIX e XX tantos bracarenses, e não só, viessem viver e trabalhar em Guimarães), altura em que se passou a chamar rua Nova do Comércio, e outras digníssimas instituições. Nela decidiu morar, fazendo um belíssimo Palácio (que hoje a Câmara de Guimarães apelida de “Casa Donães”, e nela tantas vezes participei na Missa Dominical), o flaviense Cândido José de Carvalho, homem de grande fortuna e benemérito ilustre e abastado desta cidade. Hoje a mesma câmara instalou nela, e muito bem, um serviço governamental – o ACT. Não se esqueçam que Guimarães, neste mesmo século XIX, foi a primeira Cidade do Reino, sem ser “sede episcopal”, a ser declarada pela Rainha Dona Maria II (e só depois Covilhã e Setúbal).

Nesta rua, durante todo o século XX, viveram pessoas muito ricas ao lado de pessoas modestas e trabalhadoras, em sã convivência e boa religião. Em frente da casa do Amadeu Portilha, nasceu e viveu o senhor Dom Domingos, fundador das “Oficinas de São José”, e, uma casa depois, o Pe Fernando, e na casa ao lado a família do Sr Caldas, irmão de um ministro de António Oliveira Salazar, e Matos Chaves, e na outra casa ao lado, seus parentes, os avós e família do atual presidente do Vitória Sport Clube, Júlio Mendes, neto da “Chiquita das Passinhas”, e o seu avô, o Sr Alberto, irmão do Pe Joaquim de Serzedo-Guimarães. O Coração de Jesus, do Sr Pinheiro, situava-se junto à “Casa da Rua Nova”, que no meu tempo de menino chamávamos de “Casa de Egas Moniz” (um erro que os mais velhos persistiam em repetir). Mesmo ao lado nasceu e cresceu o Monsenhor Melo, Capelão da Marinha e Pároco de Oeiras. Onde estão as prostitutas entre as quais nasceu o meu amigo vereador? Água canalizada e potável, a viver nesta rua desde 1968, sempre a tivemos, e o primeiro saneamento chegou antes de Abril de 74. Como me lembro de saltar o grande buraco de um lado para o outro. Os jogadores do Vitória Sport Clube ficavam a viver na “Imperial”, e alguns chefes da polícia viviam e comiam na “Tasca do Verdura”; e as muitas tascas, cumpriam uma função fundamental de uma grande cidade – receber muitos forasteiros. Eram aquilo que os seus sucedâneos, hoje os imensos cafés e outros que chateiam o nosso Centro Histórico e os seus poucos moradores, procuram fazer neste Shopping a céu aberto e sem estacionamento. Lembro que ainda hoje, e apesar da fuga de moradores de outros tempos bem melhores, esta é uma das ruas mais habitada do nosso Centro Histórico.

Como me lembro de uma rua, ou mesmo ruas, tão habitada e preenchida de crianças, como o Amadeu e a minha pessoa. Hoje estamos a reduzi-las aos “Hostel” e aos Alojamentos Locais, e lugares de passagem e fruição. Tenho muita pena, doí-me no íntimo do meu ser, que os que lá foram moradores sejam os primeiros a persistir em denegrir e em mantê-la como uma zona eternamente discriminada. Dez anos, mais ou menos, entre 1985 e 1995, bastaram para lançarem a lama eterna de degredo a uma rua de liberdade e de inovação, que sofreu, como todos os centros históricos deste país, o abandono em massa dos seus moradores. Primeiro, os pobres que “encaixotados” nos bairros sociais (dos quais hoje todos querem fugir), e depois os mais ricos, que rodeados de casa abandonadas e em ruínas, eram ocupadas pelos novos pobres, como as prostitutas e os toxicodependentes. Mas alguns persistiram em ficar, porque não tinham hipótese de lá saírem ou porque gostam muito do sítio onde vivem (é o meu caso por antonomásia). Assim, em 1995, enfrentando uma situação muito perigosa, e até o poder autárquico, aproveitei o mal estar dos seus poucos habitantes e fizemos regressar, com bom senso e muito trabalho, a urbanidade à rua Egas Moniz, orgulhosamente Rua Nova. Basta de condenar uma rua de séculos à espúria da vergonha, por dez anos de miséria humana, que os poderes estabelecidos não souberam cuidar, mas que os seus moradores souberam orgulhosamente recuperar. Amigo Amadeu, esta rua foi em terra como todas as outras na Idade Média, mas em pedra já o era no século XIX. Mas não é a “rua vermelha” que uma suposta famosa arquiteta a queria transformar… Lembram-se? Eu não esqueço. Meu ilustre amigo, de longa data conhecido, e crê em mim sincera amizade, regressa à tua rua, pois cá nasceste, e estima a tua rua como ela merece. E como sei que o procuras fazer com o teu trabalho autárquico.

 

 

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